setembro 12, 2008

"Olho de boi"

(Olho de boi, 2007 - Hermano Penna)
Por mais que as referências a “Édipo Rei”, de Sófocles, sejam gritantes, são o sertão e os sertanejos de Guimarães Rosa que estão no campo de visão do “Olho de boi”, do diretor Hermano Penna. O filme começa com o comunicado de uma revelação. Vemos a cena refletida no olhar de um bovino confinado. Corte para o animal entrando no corredor que o levará ao abate. O nervosismo do bicho parece revelar o conhecimento da sua sina, que ele encara com bravura, seguindo em frente, ao invés de empacar. Novo corte. Homem desce a marreta. Entra o som de um mugido, que se funde com o de uma trovoada. Escuridão na tela.
A seqüência seguinte já mostra dois vaqueiros cortando a noite sob uma chuva torrencial e buscando abrigo numa igreja abandonada. É ali, sob os escombros do que um dia foi um altar, que os homens começam a falar de fé, verdade, traição, mágoa, vingança e morte. Ainda que o cinema inteiro queira ouvir os detalhes da tal revelação anunciada nos primeiros minutos, é dos sentimentos, pesares, medos e (des)crenças de cada um que ficamos sabendo. Quanto mais eles conversam, mais o universo de Rosa nos vem à cabeça. A cena tem uma fotografia maravilhosa (e é um dos destaques do longa), revelando pouco a pouco os detalhes do ambiente, na medida exata em que os personagens vão acendo lamparinas e velas e jogando luz sobre seus pensamentos.
A câmera quase não se move: é importante registrar o olhar daqueles homens, a contração dos músculos faciais, as dores que as explosões de vozes e sentenças expõem. Aos poucos, o público fica sabendo quem eles são: Modesto e Cirineu, padrinho e afilhado, traído e delator, ateu e temente, igualmente cegos por causa das angústias que carregam. Enquanto um tateia os móveis e imagens do templo, o outro desfia suas mágoas. “Inimigo não trai, fica à espreita, esperando a hora. Só amigo trai”, diz Modesto. “Traição é morte que humilha”, completa. O vermezinho da vingança corroendo as entranhas de um homem desesperado, de um marido desconsolado. A infidelidade da esposa (Angelina Muniz) e a deslealdade do irmão (Cacá Amaral) comprimem seu coração e provocam uma tempestade de palavras que ora saem aos gritos,ora sussurradas. Dali até o momento da tocaia que deve por fim à vida do traidor, muitas confissões, de parte a parte, vão humilhar e provocar os dois vaqueiros. “Olho de boi” é um filme curto (72 minutos apenas), com elenco pequeno e pouquíssimos cenários. No entanto, as palavras são infinitas, os diálogos ininterruptos, as emoções crescentes e o resultado grandioso. É quase teatro. Os conflitos que vão atiçando os ânimos daqueles sertanejos acabam revelando-se mais intrigantes do que o desfecho daquela longa noite de espera. Sem falar que, aqui e ali (e por isso há que se assistir ao filme atento a todos os detalhes), são lançadas pistas sobre o que está por acontecer. Como na cena em que Cirineu é instigado pelo padrinho a falar alguma coisa para a imagem do Cristo com os olhos raspados que jaz na casa de Deus que lhes serve de abrigo . Suas (poucas) palavras têm endereço mais específico do que se imagina então. O fato é que, como o boi do início do filme, aqueles dois homens seguem resolutos no seu caminho de desvario e vingança. Ainda que em alguns momentos, as incertezas e a proximidade da morte queiram esfriar os ânimos, eles vão até o fim. Porque se a cruz que Modesto tem de carregar até o alvorecer é pesada, como confirmam seus lamentos, ela também é do afilhado, que está ali - como o Cirineu bíblico - para ajudar a levá-la.
Mas apesar de todo o mérito do roteiro (merecidamente premiado no Festival de Gramado), essa história não faria sentido sem a atuação de dois atores fabulosos. Genézio de Barros e Gustavo Machado (que também levou seu Kikito de Ouro) são os intérpretes perfeitos para encher de vida o texto primoroso do roteirista Marcos Cesana. Eles mergulham de tal maneira nos personagens, que as falas, resmungos e filosofices brejeiras soam absolutamente espontâneas e verdadeiras, como se Modesto e Cirineu existissem, fossem de carne-e-osso. Outro acerto é a concepção da trilha sonora, assinada pelo Duofel, formado pelos violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno, que estão na estrada há mais de 30 anos e já percorreram todo o interior do país (sozinhos e acompanhando músicos como Zé Geraldo e Tetê Espíndola). Com um trabalho assim, consolidado e repleto da riqueza e diversidade cultural brasileira, compor as canções que embalam essa vendeta foi muito natural. Depois de assistirem ao filme com o diretor e o montador, eles gravaram as músicas ao vivo, como na época do cinema mudo, à medida em que iam vendo as cenas, praticamente sem edição, reforçando a atemporalidade e a indefinição espacial da trama.

setembro 05, 2008

"Encarnação do demônio"

(Encarnação do demônio, 2008 - José Mojica Marins)
A trilogia do Zé do Caixão, célebre personagem (e alter-ego) de José Mojica Marins, começou em 1964, com “À meia-noite levarei sua alma”. Três anos mais tarde, ele lançou “Esta noite encarnarei no teu cadáver”. Depois de 40 anos, a parte final chega ao grande público, respaldada pelo sucesso que as antecessoras conquistaram. Porque se já considerada trash, hoje a filmografia de Mojica é cult(uada) no mundo todo. Assim, “Encarnação do demônio” vem com o desafio de dar continuidade a uma saga consagrada. E não deixa a desejar! Está nesse terceiro filme, tudo o que se espera de uma produção de Coffin Joe (como o diretor é conhecido internacionalmente): mulheres nuas, sadismo, bichos escrotos, mortes horripilantes e muito sangue.
Para justificar a demora entre as duas últimas partes dessa tríade cinematográfica, o roteiro já aponta uma resposta. A história começa com Josefel Zanatas, nome de batismo (?) do Zé do Caixão, sendo libertado, depois de quatro décadas atrás das grades. Aliás, essa sequência é exemplar: a cólera e os gritos do delegado (Luís Mello, o Satanás de “O auto da compadecida”), misturados ao aparente medo dos seus subalternos e ao jogo de luz-e-sombra ao longo do corredor que leva até o prisioneiro, criam o suspense perfeito para que o sanguinário coveiro entre em cena de forma magistral, na penumbra, de capa e cartola pretas. Fica claro, nessa (re)introdução do personagem, que ele continua temido, forte e mais determinado do que nunca a encontrar a mulher perfeita para gerar seu filho.
Fora da penitenciária, o maníaco das unhas grandes dá de cara com a realidade infernal do cotidiano brasileiro, aqui representada pela periferia da cidade de São Paulo: policiais despreparados, medo, insegurança, prostituição, extermínio de menores e outras mazelas. Ajudado por seu fiel servidor, o corcunda Bruno (Rui Resende), ele logo começa a arquitetar seus planos e rituais. Só que os vizinhos não vêem com bons olhos sua presença. E ao bater de frente com os métodos questionáveis de justiça da Polícia, Zé do Caixão chama para si a truculência de dois membros da corporação (Jece Valadão, em seu último trabalho, e Adriano Stuart). Para completar, aparece ainda um frade (Milhem Cortaz, de “Nossa vida não cabe num Opala”) que, por motivos muito pessoais, promete pôr fim à vida do autor daquelas atrocidades diabólicas. Está armado o festival de perseguições, torturas, sexo e sangue que encherá a tela até o último fotograma.Talvez o terror de Mojica não choque nem meta medo como fazia antigamente. Sem querer fazer comparações, mas as cenas com insetos e pessoas penduradas por ganchos presos à pele já foram repetidas à exaustão em longas recentes como “Jogos mortais (I, II, III e IV)” e “O massacre da serra elétrica”. No entanto, há outros momentos em “Encarnação...” que atestam a vitalidade do diretor, como aquela cena no purgatório, com a participação para lá de especial do teatrólogo Zé Celso Martinez Corrêa. Ou ainda a das vítimas (em preto-e-branco) que voltam para atormentar a mente do Zé do Caixão: além do contraste com o vermelho vivo que escorre em tantos enquadramentos, a presença desses personagens são uma espécie de reverência à trajetória do diretor. Sem dúvida alguma, uma sacada de mestre.
Se o filme não é repleto de efeitos especiais, como poderia se esperar de uma produção brasileira de quase 2 milhões de reais, foi decisão do próprio Mojica, por respeito às características e particularidades da sua obra. Mas quando eles aparecem, vêm para somar, como na chuva de sangue dentro de um barracão. Aliás, é inegável que “Encarnação...” impressiona muito pelas suas qualidades técnicas. E nesse quesito é indiscutível o grau de realismo que a belíssima fotografia de José Roberto Eliezer traz para a trama. Pontos também para a montagem de Paulo Sacramento - que dá agilidade e ritmo, elementos aqui indispensáveis para a história emplacar - e para a trilha sonora impactante assinada pelo Abujamra e o Márcio Nigro.
Agora, tem uma coisa que ficou a desejar: a busca da fêmea ideal para a procriação e propagação da herança do sangue demoníaco pedia mais atitude, digamos, sexual do Zé do Caixão, que se mostra muito passivo em todas as tomadas de acasalamento. Seria esse o desafio para os 72 anos do ator? Porque o diretor continua em forma: “Encarnação do demônio” foi convidado para participar da mostra “Hours Concours” da 65ª edição do prestigiado Festival Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza.

agosto 29, 2008

"Quando estou amando"

(Quand j'éstais chanteur, 2006 - Xavier Giannoli)
É impressionante a produtividade de Gérard Depardieu. Só para se ter uma idéia do quanto esse ator trabalha, ele está envolvido atualmente, segundo dados do IMDb, em 12 projetos, entre as fases de pré-produção e finalização. Pena que o que chega a estrear nas salas brasileiras seja tão pouco, ficando muitas vezes restrito a blockbusters como “102 dálmatas” (2000) ou comédias (de gosto duvidoso) como “As férias da minha vida” (2006) e “RRRrrr!!! Na idade da pedra” (2004). Ainda assim, nos últimos dois anos, foi possível vê-lo em um dos curtas do ótimo “Paris, te amo” (2006), em que ele também ataca de co-diretor, e no bom “Piaf – Um hino ao amor”, numa ponta como o empresário que descobriu Edith.
“Quando estou amando”, em cartaz no Brasil, é um outro exemplo do belo trabalho desse francês que tem mais de uma centena de filmes no currículo, com trabalhos magníficos como “1900” (Bernardo Bertolucci, 1976), “Meu tio da América” (Alain Resnais, 1980), “Danton - O processo da revolução” (Andrzej Wajda, 1983), “Jean de Florette” (Claude Berri, 1986), “Camille Claudel” (Bruno Nuytten, 1988), “Linda demais para você” (Bertrand Blier, 1989) e “Cyrano de Bergerac” (Jean-Paul Rappeneau, 1990), pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator. Falar tanto de Depardieu no início dessa matéria se justifica: a sua presença tem tudo a ver com a graça e o encanto que embalam o público nesse novo trabalho. Claro que a beleza e o talento da atriz Cécile De France (“Um lugar na platéia” e “O albergue espanhol”) também ajudam muito.
Alain Morreau (Depardieu) é um famoso cantor de bailes, muito conhecido nas casas de shows do interior da França, freqüentadas por velhos corações solitários. Apesar disso, a carreira está em curva descendente, tanto que a presença de jovens nos salões é festejada como sinal de renovação. E é exatamente a visão da deslumbrante Marion (De France) que vai sacudir a vida dele, mais pessoal do que profissionalmente falando. Ela está ali acompanhando o chefe e amigo Bruno (Mathieu Amalric, de “O escafandro e a borboleta”). Encantado por Marion, o cantor parte para a conquista. Resistente a princípio, a jovem acaba descobrindo no velho astro da música francesa, um companheiro para as desilusões e amarguras que ela vem vivendo.
Estabelece-se entre os dois uma relação cordial, ainda que Alain – um eterno sedutor – esteja a fim de algo mais intenso. Para mantê-la por perto, ele contrata seus serviços como corretora de imóveis, embora fique claro que um novo lar não é uma necessidade real. Na verdade, o coração do músico é a casa que ele quer ver habitada e decorada novamente. O filme não entra em detalhes sobre os motivos do fim do casamento de Marion, mas mostra as dores e as seqüelas que a ruptura deixou. Não demora muito para que o cantor perceba que essa instabilidade emocional da moça, cuja relação com o filho de seis anos tem prioridade sob todas as coisas, é um empecilho praticamente intransponível para a aproximação que ele procura.
A atuação de Depardieu é tão segura, intensa e convincente, que não causa estranheza em momento algum que seu personagem, velho, gordo e decadente, consiga envolver a bela Marion. Não bastasse isso, o ator ainda canta boa parte da trilha sonora que resgata clássicos absolutos da música popular francesa, sucessos de Serge Gainsbourg, Charles Aznavour, Michel Delpech, Jean-Michel Rivat e Christophe, dentre outros. Preste atenção na seqüência em que Bruno pede que Alain cante uma música lenta para dançar com Marion. A mistura de ciúme e dor expressa no olhar do cantor é o exemplo perfeito de como construir um grande personagem e uma cena igualmente memorável: a canção escolhida é uma versão de “Save the last dance for me”, dos norte-americanos Doc Pomus e Mort Shuman. Sem sombra de dúvida, Depardieu encontrou em Alain Moreau e Cécile De France, o papel e a atriz perfeitos para dar vazão ao seu inquestionável e imensurável talento.

agosto 22, 2008

"Lemon tree"

O eterno conflito entre israelenses e palestinos já rendeu filmes fortes e tocantes, como o documentário “Promessas de um mundo novo”, de 2001, em que o assunto é tratado a partir do ponto de vista de sete crianças. Ou “Paradise now”, de 2005, com dois homens-bombas sendo questionados sobre os significados e conseqüências de um novo atentado suicida. “Lemon tree” discute a questão novamente, dessa vez a partir de um incidente inusitado (baseado em fato real) e sob a perspectiva feminina.
Salma Zidane (Hiam Abbass) é uma viúva palestina e vive da venda das conservas de limão que produz em casa. Os frutos são colhidos no próprio pomar, plantado pelo pai há mais de 50 anos. O problema é que o limoal também fica ao lado da mansão do ministro da Defesa de Israel, seu mais novo vizinho, e o Serviço Secreto decide que os limoeiros devem ser arrancados por questão de segurança. O terreno é considerado perigoso, podendo servir de esconderijo para ataques terroristas. Mas a coisa ganha vulto quando Salma resolve entrar na justiça para garantir a permanência das árvores que simbolizam sua subsistência e suas raízes. Para a empreitada, ela consegue o apoio do jovem advogado Ziad (Ali Suliman) e está disposta a ir até o fim pelos seus direitos.
Eran Riklis (“A noiva síria”, 2004) poderia ter feito um filme focado (apenas) na questão política, com a batalha judicial representando o enfrentamento das nações rivais. Mas ainda bem que ele foi mais longe. Além da personagem central, o roteiro - assinado pelo diretor e por Suha Arraf - nos entrega outra figura forte e relevante: Mira Navon, a esposa do ministro israelense, interpretada com propriedade pela estreante (e que estréia!) Rona Lipaz-Michael. Sem trocar uma palavra (até por causa da barreira da língua: uma fala hebraico e a outra, árabe), seus olhares - através da cerca que separa suas casas e vidas - falam de cumplicidade e entendimento. Apesar de estarem em lados e situações opostas, elas são mulheres e têm muito em comum: ambas estão longe dos filhos, carregam carências afetivas e vivem sob o mesmo jugo machista. E é esse viés sociocultural que concede grandeza a “Lemon tree”.
Há uma infinidade de contrastes nesses dois universos femininos (como existe também entre os povos que as duas mulheres representam). Uma vive cercada de luxo e segurança (guarda-costas, câmeras e guaritas), à sombra do marido poderoso e sua única preocupação é com a festa de inauguração da mansão ao lado do pomar da discórdia. Já a outra mora sozinha num casebre simples, sem nenhum conforto e tem de dar um duro danado para complementar, com as compotas de limão, a ajuda de US$ 150 que um dos filhos lhe envia dos Estados Unidos. Ainda assim, entre elas se estabelece um clima de afinidade e respeito. E se dependesse das duas, as arestas seriam aparadas de maneira mais simples e cordial. Como na cena em que Salma vira bicho ao ver soldados israelenses colhendo seus limões sem que ela fosse consultada. A viúva considera aquela invasão um ultraje e Mira a compreende, devolvendo-lhe um sensato pedido de desculpas.
Analisando com calma, há razões pertinentes nas atitudes de ambos os lados dos limoeiros. No entanto, é curioso (e sintomático do abismo entre judeus e palestinos) que os vizinhos se enfrentem nos tribunais sem nunca terem conversado sobre o impasse que os aflige. Parece assim que, ao retratar o pomar como uma metáfora da disputa de terra que se arrasta há mais de dois séculos, “Lemon tree” levanta a bandeira de que a intransigência e a falta de diálogo só podem levar ao caos. E a seqüência final é exemplar: terreno de discórdias não dá frutos e a felicidade não pode florescer num lugar tão estéril.
Em tempo: a escolha do elenco foi muita acertada. Da protagonista aos coadjuvantes, o que vemos são atuações comoventes, convincentes e arrebatadoras. Com uma turma assim, fica impossível não mergulhar nessa história de interesses, intolerância e solidão.

agosto 15, 2008

"Era uma vez..."

(Era uma vez..., 2008 - Breno Silveira)
A idéia de fazer um filme que explorasse os contrastes sociais do Rio de Janeiro nasceu em 1987, quando Breno Silveira era o câmera do documentário “Santa Marta: Duas semanas no morro”, de Eduardo Coutinho. Ele então quis comprar os direitos de “Cidade de Deus”, mas Paulo Lins já os havia vendido para Fernando Meirelles. Breno sugeriu ao autor que escrevesse uma outra história. Alguns anos depois, surgia o embrião de “Era uma vez...”, uma versão mais dura e violenta do que a que chegou às telas há duas semanas.
Era para ter sido a estréia de Breno Silveira na direção de um longa-metragem, mas a história de amor entre um garato sangue-bom do Morro do Cantagalo e uma patricinha da Avenida Vieira Souto, explorando a desigualdade social como obstáculo à união do casal, não entusiasmou os produtores e o diretor acabou debutando nas telonas com a biografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano, um estrondoso sucesso de bilheteria, o maior público pós-retomada do cinema nacional (1994), com mais de 5 milhões de espectadores. Esse número quebrou as resistências iniciais e abriu os cofres para que “Era uma vez...” saísse do papel. No entanto, repetir (ou ultrapassar) as marcas do primeiro filme será uma façanha. E a disputa começou com desvantagem para esse Romeu-e-Julieta carioca, que estreou em apenas 89 salas, contra as 351 à epoca do lançamento de “2 filhos de Francisco”.
Dé (Thiago Martins) é um morador do morro que trabalha num quiosque de cachorro-quente em Ipanema, localizado exatamente na frente do edifício em que mora Nina (Vitória Frate), por quem é platonicamente apaixonado, apesar dele ser invisível para a moça. Uma desilusão amorosa daqui, um certo atrevimento dali e os dois ficam juntos. Se o amor parece ser suficiente para transpor o abismo sociocultural que os separa, as diferenças apontam para o precipício. Um acordo entre traficantes e policiais corruptos expõe o flanco da triste e tão conhecida realidade brasileira e coloca os pombinhos numa arapuca. Só há chance de escapatória para os dois se a intolerância e o preconceito forem vencidos.
Além da violência, da pobreza, do tráfico e da corrupção, os rumos do romance de Dé e Nina também são influenciados por outras histórias de amor: a dos três irmãos, a da mãe favelada e o filho trabalhador, a do pai viúvo e a filha única. É essa teia de sentimentos que humaniza os personagens, não deixando que os rótulos de mocinho e vilão grudem definitivamente em qualquer um deles: o bem e o mal estão em todo mundo e fazem um rodízio à medida que os conflitos vão surgindo. Com certeza, esse é um dos grandes trunfos do roteiro, que consegue emocionar em muitos momentos, intercalando as belezas e as mazelas do Rio e traçando um panorama cruel e comum a qualquer metrópole do mundo.
Não há como negar que a atuação de Thiago Martins é a alma do filme. Seu personagem convence em todas as cenas, indo da delicadeza à ira com a mesma segurança. Isso prova que o jovem ator - que segue morando numa favela e é integrante do grupo “Nós do Morro” - estava certo ao batalhar pelo papel que o diretor se negava a entregar a ele, por considerá-lo galã demais (para quem não se lembra, ele participou de novelas globais como “Belíssima” e “Da cor do pecado”). Se o problema era esse, Thiago foi para o quarto teste de cabelo raspado, com a pele tostada de sol, a cara cheia de espinhas e deu no que deu. Bendita persistência! Outro destaque do elenco é Cyria Coentro. Com larga experiência no teatro e participação em novelas e minisséries, a atriz surpreende ao criar uma mãe que faz de tudo para manter os filhos no bom caminho, impregnando de verdade seu silêncio, suas explosões, seu amor e seu desespero.
Além de realçar as emoções, a música de “Era uma vez...” revela mais sobre a vida e os sentimentos do seu personagem central. Assim, para mostrar o universo de Dé, o filme começa com “Vide Gal”, do baiano Carlinhos Brown, na voz da carioquíssima Mart’nália (“Se tenho fome, como logo o Pão de Açúcar / Urro no Morro da Urca / Se quero abraço, tenho o Cristo para me abraçar”). Num momento romântico de um baile funk, Claudinha e Bochecha cantam “Fico assim sem você”, uma declaração de amor que poderia perfeitamente sair dos lábios do enamorado Dé (“Neném sem chupeta / Romeu sem Julieta / Sou eu assim sem você”). Mas nada supera a inédita “Minha rainha”, escrita por Manacéa, da Velha Guarda da Portela, e interpretada por Luiz Melodia (“Eu sonhei que era rei e você, minha rainha / Quando acordei, verifiquei que você não era minha / Meu coração quase parou de dor / Mas consegui te conquistar, meu grande amor”). A canção parece ter sido composta para o longa, mas foi uma sugestão de Marisa Monte, retirada dos seus arquivos de pesquisa sobre samba. E durante os créditos finais, ainda é possível ouvir a pungente “Uma palavra”, parceria inédita da cantora com Brown e Arnaldo Antunes.
O fato das filmagens terem sido realizadas totalmente em locação imprime mais veracidade ao que vemos. O que também pode ser dito sobre os cenários e figurinos, uma vez que a produção contou com a valiosa “consultoria” da comunidade, valendo-se de móveis e roupas dos próprios moradores. E o que dizer da fotografia? As imagens encantadoras de Ipanema feitas a partir das lajes do Cantagalo ilustram muito bem o contraste que o roteiro de Patrícia Andrade quis discutir, além de gerar cenas inesquecíveis, como aquela em que Nina compara as janelas dos barracos do Vidigal a um céu de estrelas ou uma outra em que Dé abre os braços, tendo o Morro Dois Irmãos ao fundo, numa alusão nítida ao Cristo Redentor. Por isso, apesar da fatalidade e do pessimismo reinantes na fábula de Breno Silveira sobre a Cidade Maravilhosa, “Era uma vez...” é, ainda assim, uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. Que o digam as reticências do título que, somadas ao “final depois do final”, parecem instigar o povo brasileiro a escrever uma outra história.

agosto 08, 2008

"As aventuras de Molière"

(Molière, 2007 - Laurent Tirard)
Seguindo os conceitos do personagem retratado em seu filme, o diretor Laurent Tirard entrega uma comédia deliciosa que arranca risos ao criticar a futilidade dos nobres da corte francesa do século XVII, enquanto enaltece sentimentos e discussões mais relevantes nas entrelinhas. Apoiado ainda nas atuações de um elenco inspirado e na montagem que mantém o ritmo da primeira à última cena, fica fácil entender porque as “As aventuras de Molière” vem seduzindo o público.
Para falar desse patrimônio da cultura da França, Tirard optou por fazer um recorte e focar sua narrativa nos 13 anos que antecedem a consagração de Molière, exatamente o período de controvérsias entre seus biógrafos. O filme começa com o personagem em conflito diante das suas peças, por considerar a comédia uma arte menor. Mas logo recua no tempo e mostra sua prisão em função das dívidas contraídas (e não-pagas) para manter o grupo de teatro. Tudo vai mal até a aparição de Monsieur Jourdain, um fidalgo bobalhão (Fabrice Luchini, de “O joelho de Claire” e “Confidências muito íntimas”) que compra sua liberdade a troco de aulas de interpretação. Sem alternativa, Molière (Romain Duris, de “Albergue espanhol” e “Em Paris”) aceita a inglória missão. Ao se embrenhar na casa e na vida da família Jourdain, o comediante vai se deparar com todos os ingredientes que servirão de inspiração para suas encenações futuras, além de encontrar na senhora Jourdain (Laura Morante, de “O quarto do filho” e “Medos privados em lugares públicos”) o incentivo para o amadurecimento dos seus escritos.

Com figurinos e direção de arte primorosos, fica fácil embarcar nessa viagem de sátiras, sendo mais do que justo ressaltar a química avassaladora existente entre os atores Romain Duris, Fabrice Luchini e Laura Morante. Quando dois deles (ou os três) estão juntos em cena, a história ganha seus melhores momentos, com atuações preci(o)sas que, inevitavelmente, provocam gargalhadas e suspiros. Mas, sem sombra de dúvidas, é Luchini o grande destaque do filme. Sua interpretação afetada é perfeita para ridicularizar o personagem que é uma caricatura da burguesia rica e inculta. Romain Duris também surpreende ao construir um Molière no limite entre o palhaço e o gênio.
Mas o sucesso de “As aventuras de Molière” merece um crédito especial: o roteiro de Laurent Tirard e Grégoire Vigneron é primoroso, com diálogos inteligentes, espirituosos e ágeis. Dessa forma, tudo o que vemos é relevante e não dá para tirar os olhos da tela sem correr o risco de perder uma ótima piada, como na cena em que Molière zomba das relações burguesas, imitando os trejeitos do seu fidalgo credor ao ser ludibriado por um membro da nobreza parisiense. E olha que os roteiristas ainda encontraram espaço para subtramas envolvendo amores adolescentes, casamentos arranjados, paixões proibidas, dilemas morais e morte, tudo conduzido com propriedade pela belíssima trilha sonora de Frédéric Talgorn.
Por falar em paixão, não posso terminar esse texto sem dar a devida atenção à caracterização de Laura Morante para Elmire Jourdain. Desde sua primeira aparição, é possível perceber a mistura de sensibilidade, força, inteligência e sensualidade daquela mulher. Ela é a antítese do marido e a musa do escritor incipiente. A admiração que se instala entre eles já na primeira parte do longa é responsável por um momento memorável: a montagem paralela das confissões dos dois diante de um espelho. Uma saída brilhante para viabilizar uma situação impensável devido às posições sociais tão díspares do casal. Ou seria aquela película refletora uma janela para os sonhos que (quase) nunca se realizam?

agosto 04, 2008

"Do outro lado"

(Auf der anderen seite, 2007 - Fatih Akin)
Yeter se prostitui na Alemanha para pagar os estudos da filha Ayten em Istambul. Ameaçada por radicais muçulmanos, deixa as ruas e aceita morar com o cliente Ali, um viúvo turco cujo filho Nejat é professor de literatura numa universidade de Bremen. Nejat vê aquela união com desconfiança, mas decide partir para a Turquia em busca de Ayten, depois de um problema com Yeter e uma briga com o pai. Acontece que Ayten é uma ativista política que protesta contra a corrupção e a desigualdade social em seu país. Ao ver os companheiros sendo presos, foge para Bremen, onde conhece Lotte, uma estudante alemã de classe média que resolve abrigá-la. Lotte mora com a mãe, Susanne, que não gosta nem um pouco daquele envolvimento da filha ariana com uma desconhecida turca. É essa ciranda de desencontros e diferenças que faz girar a trama de “Do outro lado”, do diretor Fatih Akin, o mesmo de “Contra a parede”, ganhador do Urso de Ouro em Berlim em 2004.
No meio de todas as reviravoltas desse novo filme, Akin (ele próprio, um alemão filho de pais turcos) parece querer falar mesmo sobre a angústia do não-pertencer. Todos os personagens parecem deslocados onde quer que se encontrem: a prostituta gostaria de estar perto da filha, a militante não aceita a cruel e injusta realidade do seu país, o mestre abandona as aulas em Bremen para cuidar de uma livraria alemã em Istambul, a estudante germânica se manda para a Turquia em conflito com a mãe... Mas é exatamente quando estão à procura do outro que os personagens conseguem encontrar a si mesmos. As cenas que mostram dois caixões no aeroporto de Istambul, sob o mesmo ângulo e em momentos distintos, traduzem com simplicidade e eficiência essa percepção e entendimento do que é estar do outro lado, na pele de outra pessoa.
Ao apontar suas lentes para esses sentimentos, o diretor nos entrega um filme comovente, apresentando tipos duros e cruéis sob determinados pontos de vista, mas que nunca são inflexíveis. Assim, é curioso ver como os acontecimentos vão mexendo com seus valores, provocando uma reação que faz abrir os olhos, rever atitudes e resgatar uma essência que parecia perdida. A câmera próxima ao rosto e ao olhar dos atores contribui para que o público enxergue as verdades que estão sendo reveladas e acredite nelas. E é isso o que importa no filme de Akin: as revoluções interiores têm muito mais relevância do que os acontecimentos externos. Prova disso é que dois segmentos do filme ganham títulos que anunciam a morte de personagens que ainda serão apresentados. Anti-clímax? De jeito nenhum. O espectador sabe que a tragédia anunciada irá explodir muitas convicções e provocar mudanças importantes.
Além de ser um filme que emociona ao abordar assuntos como conflito de gerações, solidão na velhice, sonhos frustrados, arrependimentos e reconciliações, “Do outro lado” incomoda ao fazer sua crítica social à intolerância, ao preconceito e à falta de solidariedade, exatamente no momento em que o controle da entrada de imigrantes torna-se mais intenso na União Européia. Mas não pense que Fatih Akin joga a bomba apenas no colo dos alemães. Além dos políticos corruptos, também a justiça turca é criticada no longa. E a conseqüência das intransigências tanto de uns quanto da outra podem ser conferidas numa seqüência importante protagonizada por um grupo de adolescentes turcos.
O belo e engenhoso roteiro de “Do outro lado”, assinado pelo diretor e premiado em Cannes em 2007, encontra suporte inestimável na edição de Andrew Bird: os vários dramas se misturam para construir uma história maior e - em muitos momentos, durante a projeção - é possível perceber um detalhe já mostrado anteriormente, o que acaba contextualizando e dando mais significado à nova cena. É assim, por exemplo, que percebemos que a última seqüência do filme é a continuação imediata da primeira cena que vimos. E que tudo o que acontece entre elas serve para justificá-las. Diga-se de passagem, o desfecho de “Do outro lado” é de uma plasticidade e significado dignos das grandes obras do cinema. De modo que, não teria sido absurdo, se o filme - indicado também à Palma de Ouro no ano passado - tivesse levado o prêmio. Vale dizer ainda que o elenco do longa está afinadíssimo, com destaque para Tuncel Kurtiz (Ali), Nursel Köse (Yeter) e Hanna Schygulla (Susanne), musa de Rainer Werner Fassbinder em “O casamento de Maria Braun”.

Três filmes e seis pequenas histórias

A infância é o alvo de três produções que deixaram as férias mais divertidas para adultos e crianças. Seja pela ingenuidade ou pela magia das situações retratadas, tanto o brasileiro “Pequenas histórias”, de Helvécio Ratton, como os franceses “O balão vermelho” e “O cavalo branco”, de Albert Lamorisse, encantam todos os públicos, arrancando risadas e suspiros ao iluminar as salas com suas belas histórias.
(Pequenas histórias, 2008 - Helvécio Ratton)
Como o próprio nome indica, “Pequenas histórias” reúne quatro pequenos contos para compor uma colcha de retalhos sobre as lendas e causos brasileiros, costurada por Marieta Severo, subaproveitada como uma narradora que, presa a linhas e bordados, acrescenta pouco à trama. Patrícia Pillar é a sereia da primeira história, que se casa com um pescador, ajudando-o a melhorar de vida (pelo menos enquanto ele cumprir uma promessa feita antes da união). Na sequência, que conta com a participação da ex- Frenéticas Edyr Duqui, temos as desventuras de um coroinha às voltas com as assombrações da Procissão das Almas, numa cidadezinha do interior mineiro. O terceiro segmento traz Paulo José vivendo um Papai Noel que se mete numa encrenca, é procurado pela polícia e encontra num garoto de rua o verdadeiro espírito do Natal. Por fim, o último (e o mais engraçado) episódio tem Gero Camilo vivendo um sujeito cujo nome dispensa apresentações: Zé Burraldo. A cena em que ele participa de uma montagem mambembe de “A Dama das Camélias” é verdadeiramente hilária. Ratton amarra tudo com um humor simples e ingênuo que pode até não arrebatar a criançada (acostumada às pirotecnias das produções atuais), mas com certeza vai conquistar os adultos saudosistas.
(Le ballon rouge, 1956 - Albert Lamorisse)
Aliás, saudosismo está na pauta do dia. Recentemente, a Pandora Filmes relançou dois clássicos do cinema francês dos anos 50, dirigidos por Albert Lamorisse, que estão sendo exibidos numa única sessão com duração de pouco mais de uma hora. O primeiro é “O balão vermelho”, em que um garoto (vivido pelo filho do próprio diretor) encontra um balão bem colorido nas ruas de uma Paris cinzenta para descobrir, logo em seguida, que aquela bola flutuante o seguirá por toda parte, mesmo quando ele não a está segurando, obedecendo, inclusive, suas ordens. Praticamente sem falas, esse média-metragem encanta ao retratar de forma bem lúdica os conflitos e descobertas da infância em relação às normas e condutas do universo adulto, às perdas, ao primeiro sinal de uma paixão... As cenas em que o balão “vinga” seu dono ao perseguir o diretor da escola que o deixou de castigo remetem ao humor chapliniano, em que trejeitos, rodopios, saltos e caretas são as estrelas do riso. A seqüência em que um grupo de garotos persegue nosso protagonista e seu “balão de estimação” com pedras e bodoques pelos becos labirínticos da cidade também é digna de nota. E o desfecho, com uma multicolorida revolta de balões, é inesquecível e encerra em grande estilo a película que ganhou a Palma de Ouro em curta-metragem e o Oscar de roteiro original (até hoje único no formato), batendo “La strada”, obra-prima de Fellini, que acabou levando a estatueta de melhor produção estrangeira.
(Crin blanc: le cheval sauvage, 1953 - Albert Lamorisse)
O outro filme de Lamorisse é “O cavalo branco” e tem como protagonista também um garoto, que se encanta pelo animal do título depois de vê-lo escapar sem se deixar domar pelos poderosos fazendeiros da região. Mais do que desejar a posse do cavalo, o menino (que mora num casebre, às margens de um pântano, com o avô e o irmão menor) quer compartilhar daquela sensação de liberdade, para trilhar seus próprios caminhos, sem laços, fronteiras e cercas que o prendam àquela rotina miserável e sem perspectivas em que vive. Ao capturar imagens dos cavalos em franca disparada ou numa briga pela liderança do bando, o filme ganha nuances de documentário, tendo sido inclusive indicado ao BAFTA nessa categoria. Mas com certeza, é a mistura de poesia e realismo que transforma essa história de amizade, entrega e superação numa aventura emocionante com um final surpreendente e arrebatador. “O cavalo branco” levou ainda o Grande Prêmio de Curta-metragem do Festival de Cannes.

julho 18, 2008

"O escafandro e a borboleta"


(Le escaphandre et le papillon, 2007 - Julian Schnabel)
Pode não ser o título mais bacana da história do cinema, afinal a palavra “escafandro” causa uma certa estranheza no primeiro momento. Mas após assistir ao terceiro longa do diretor Julian Schnabel (os anteriores foram “Basquiat - Traços de uma vida” e “Antes do anoitecer”), chega-se à conclusão de que não há substantivos mais apropriados para nomear essa história de solidão e superação em que o peso e a clausura do corpo contrastam com a leveza e a liberdade do pensamento.
Jean-Do Bauby, interpretado com segurança e carisma por Mathieu Amalric, é um profissional conceituado (editor da revista Elle) que, após um acidente vascular cerebral (AVC), perde todos os movimentos corporais, menos os do olho esquerdo. Apesar da gravidade do caso, conhecido como “Síndrome do Encarceramento”, os médicos estão esperançosos, já que o cérebro segue funcionando perfeitamente. A partir dessa constatação, uma equipe de fisioterapia e fonoaudiologia aceita o desafio de criar um método de comunicação que possa acabar com aquele isolamento.
Como “O escafandro e a borboleta” é baseado em um livro de memórias, deduz-se não apenas que o desafio foi vencido, mas que o jornalista conseguiu ir muito além: escrever uma autobiografia usando apenas o piscar de um olho para soletrar as palavras é (quase) inacreditável. E mais impressionante ainda é a quantidade de pensamentos e descobertas que o campo de visão daquela retina passam a suscitar. Aqui, há que se destacar a brilhante adaptação de Ronald Harwood, pois com todos os elementos para criar um drama choroso, o roteiro de “O escafandro...” foge das lágrimas. Emociona sim, sem deixar, no entanto, de revelar o humor e a ironia que permanecem gritantes na vida do personagem central.
No início da projeção, vemos as imagens a partir do ponto de vista (monocular) do paciente, que acaba de sair de um coma. Esse recurso permite que a fotografia de Janusz Kaminski brinque com texturas e cores, explorando ambientes e rostos fora de foco, em enquadramentos “imperfeitos” e inusitados. É interessante a maneira como os coadjuvantes tiveram que atuar, com a cara praticamente colada na lente da câmera, posição imprescindível para interagir com o olhar de Jean-Do.
Os primeiros minutos do filme encerram o espectador nesse universo claustrofóbico do “escanfandrista”, como se quisesse que o seu dilema fosse vivido por quem assiste. Para garantir essa imersão, durante a meia hora inicial, nenhuma trilha incide sobre as cenas, não deixando margem para os devaneios e escapatórias a que a música é capaz de levar. Mas a monotonia cênica logo dará lugar a outros ares fora do ambiente hospitalar. Porque se o corpo do protagonista está preso, sua mente voa solta, resgatando o passado através de flashbacks que reconstroem a trajetória pré-AVC e mostrando imagens que ele inventa a partir dos desejos que ainda vivencia. Assim, memória e imaginação criam o trapolim para que o espectador mergulhe nas qualidades e defeitos desse homem que já foi casado, é pai relapso e filho afetuoso. Aliás, as cenas com (o velho e bom) Max von Sydow são brilhantes. E o elenco feminino - capitaneado pelas atrizes Emmanuele Seigner (ex-esposa), Marie-Josée Croze (fonoaudióloga) e Anne Consigny (assistente de redação) - também é responsável por muitos momentos emocionantes.
Não apresentar o jornalista como mocinho nem coitadinho é outro grande trunfo desse trabalho de Julian Schnabel. Por isso e também pelo fato de apenas o público conhecer os pensamentos de Jean-Do, há uma aproximação e identificação imediata com as situações e sentimentos retratados na tela, o que torna bem fácil entender porque um escafandrista pode voar.
Em tempo: o filme - que começa com a clássica “La mer”, na voz de Charles Trenet - termina com a belíssima “Green Grass”, interpretada por Tom Waits. Mas só vai ouvi-la quem ficar acompanhando os créditos até o finalzinho.

julho 15, 2008

"Desejo proibido"

(If these walls could talk 2, 2000 - Jane Anderson, Martha Coolidge e Anne Heche)
Produzido pela HBO Films, "Desejo proibido" conta três histórias de amor entre mulheres, intituladas pela época em que se passam ("1961", "1972" e "2000"). Cada parte tem elenco e direção distintos. Em comum, só a casa em que vivem as personagens. Apesar da imagem mais conhecida do filme ser a da capa acima, o episódio com Vanessa Redgrave (que levou o Emmy e o Globo de Ouro de atriz coadjuvante por essa atuação) é - para mim - o melhor. Ao retratar a dor de perder um amor no início da década de 1960, sem poder revelar sentimentos e lágrimas, a atriz dá um show de interpretação, tanto nas cenas de carinho (contracenando com Marian Seldes) como nas de indignação (com Paul Giamatti e Elizabeth Perkins). "1972" tem Michelle Williams (de "O segredo de Brokeback Mountain") e Chloe Sevigny (de "Brown Bunny" e "Meninos não choram") envolvidas com o feminismo xiíta dos anos 70 e o preconceito em torno das butches (mulheres que se vestem de forma mais masculina). Já o episódio final traz o dia-a-dia de Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) às voltas com o desejo de uma gravidez e as peripécias para atingir esse objetivo. Conclusão? A primeira parte vale o filme.

julho 13, 2008

"Sex and the city - O filme"

(Sex and the city, 2008 - Michael Patrick King)
Devo ser o único habitante do planeta que nunca viu um episódio sequer da série americana que deu origem a esse filme. Pois foi assim, sem conhecer nenhuma das famosas personagens, que fui assistir à versão-tela-grande de "Sex and the city", que continua a retratar a trajetória das quatro amigas inseparáveis a partir do ponto em que a tv parou de contar. Carrie (Sarah Jessica Parker) é uma escritora bem sucedida que resolve entrar para o time das casadas. Samantha (Kim Cattrall) é a femme insaciável segurando a onda e os desejos em função de uma união pautada pela gratidão. Miranda (Cynthia Nixon) vê o casamento indo para o ralo, principalmente depois de uma traição confessada. E, por fim, Charlotte (Krinstin Davis), a única a ter um relacionamento feliz, apesar da frustração de não conseguir engravidar. As situações criadas para ligar as vidas dessas personagens são mesmo interessantes e prendem a atenção com boas tiradas de humor sutil e inteligente... até o momento que a Carrie sofre uma grande decepção no dia do casamento. A partir daí, o filme perde o ritmo e a classe, com piadinhas bobas e infames. Para a mulherada, o desfile de modelitos é, com certeza, um grande atrativo que vai até a cena final.

"Homem de Ferro"

(Iron Man, 2008 - Jon Favreau)
É interessante que, justamente numa ficção baseada nos quadrinhos da Marvel, Robert Downey Jr. tenha encontrado munição para construir um personagem bem verossímil, numa grande atuação, talvez a melhor do ator. Confesso que o Homem de Ferro nunca foi meu herói preferido, mas essa produção do Jon Favreau conseguiu engrandecê-lo, superando inclusive o desafio nada fácil de prender a atenção do público ao contar a origem do super-herói, haja vista que, nesse gênero, as pessoas querem mais é ver ação. Com certeza, o caráter ambíguo de Tony Stark - um jovem bilionário da indústria bélica, inventor genial, sempre cercado por belíssimas mulheres que ele trata como brinquedinhos descartáveis - é um prato cheio para que Downey explore as contradições morais do personagem. Preso por terroristas para construir uma poderosa arma nuclear durante a Guerra do Iraque, ele cria uma armadura-de-aço-voadora que, passa a usar, ironicamente, para combater o crime e as guerras que seu negócio sempre ajudou a alimentar. As cenas em que Stark está aperfeiçoando e testando as potencialidades do "uniforme" do Homem-de-Ferro são hilárias, com explosões, tombos e curtição por parte dos robôs-auxiliares. Jeff Bridges está bem como o vilão do filme, apesar do seu monstrengo pra lá de over nos instantes finais.

julho 11, 2008

"Wall-E"

(Wall-E, 2008 - Andrew Stanton)
Depois da recente e polêmica produção do diretor indiano M. Night Shyamalan ter abordado uma reação de auto-proteção da natureza para salvar o planeta da ação predatória do homem, eis que chegou às telas brasileiras, na semana passada, um outro longa que toca no assunto. Só que dessa vez, o mundo já está inabitável, sem uma forma de vida sequer. Mas sabe o que é mais interessante? O filme em questão é (mais) uma célebre animação da Pixar (isso mesmo, desenho animado), responsável por sucessos como “Toy Story”, “Monstros S/A”, “Procurando Nemo”, “Os Incríveis” e “Ratatouille”.
“Wall-E” começa com uma panorâmica do que parece ser uma grande metrópole com seus incontáveis e gigantescos arranha-céus. À medida que o plano vai-se fechando, percebemos que os edíficios são, na verdade, imensas torres de lixo. Em seguida, vemos um pequeno e solitário robô (que lembra o E.T. de Spielberg, com seus olhos grandes, pescoço longo e corpo compacto) , envolvido numa rotina diária de limpar a sujeira que os humanos acumularam na Terra, até esgotarem todos os recursos naturais e partirem numa viagem espacial a bordo da astronave Axioma, com o propósito de dar um tempo para o meio ambiente se recuperar e os robôs limparem tudo. Detalhe: já se passaram mais de 700 anos, nenhuma forma de vida foi detectada e Wall-E é a única máquina que ainda resiste.
Enquanto recolhe e compacta os entulhos, ele separa objetos que lhe parecem úteis ou trazem lúdicas lembranças, como isqueiros, lâmpadas, brinquedos, peças eletrônicas, etc. Mora numa espécie de conteiner, tem uma baratinha como amiga e adora assistir ao vídeo do musical “Alô, Dolly”, de 1969, com Barbra Streisand e Walter Matthau. É, o robozinho é de uma sensibilidade que vai divertir a criançada e encantar os marmanjos. E é essa sua rotina... até o dia em que uma nave pousa na cidade e deixa um moderníssimo robô-fêmea (Eva) com a missão de rastrear aquela região em busca de vida. Desconfiada e temperamental, ela vai cair nas graças de Wall-E. Juntos, eles irão protagonizar uma história de aventura, amor e descobertas que transformará a vida na Terra.
O que primeiro chama a atenção na nova animação da Pixar é a quase-ausência de diálogos. Nos primeiros 20 minutos, não há nenhum. E mesmo depois, eles se restrigem ao essencialmente necessário. Como no clássicos do cinema mudo, a interação surge em situações corriqueiras, que vão fazendo graça e arrancando risos à medida que desvendam o dia-a-dia dos personagens. É assim, por exemplo, quando o robozinho quase atropela sua baratinha de estimação ou quando Wall-E tenta fazer com que a superpoderosa (e igualmente desajeitada) Eva dê um giro em torno de si mesma, como fazem os dançarinos do seu musical preferido. Tanto silêncio numa produção inicialmente voltada para o público infantil parece ter sido uma decisão arriscada, mas - logo se percebe - perfeitamente sintonizada com a falta de comunicação e laços dos humanos do século XXIX, retratados como pessoas sedentárias, solitárias, que só se comunicam através dos meios eletrônicos, absurdamente influenciadas pela publicidade e muitíssimo consumistas. Qualquer semelhança com a atualidade não é mero acaso.
E o longa do diretor Andrew Stanton (o mesmo de “Procurando Nemo”) segue surpreendendo. É só ficar atento aos detalhes. Quando Wall-E assiste a “Alô, Dolly” pela primeira vez, o colorido do musical constrata com a monocromia do cenário daquele mundo desolado, onde predominam os tons terrosos do pó e da ferrugem. Já na astronvae onde “vegetam” os humanos, o set ilumina-se com as cores artificiais de uma existência fabricada. A trilha sonora - que conta com a participação do politicamente correto Peter Gabriel, compositor e intérprete da bela “Down to Earth” que encerra o desenho - também sinaliza que estamos diante de um produto diferente e diferenciado. Ao invés das costumeiras melodiazinhas melosas, ouvimos “La vie en rose” na voz de Louis Armstrong; duas ou três canções do já citado “Alô, Dolly”; e “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, em mais uma referência a “2001 – Uma odisséia no espaço”, sendo o robô que tenta controlar a Axioma a mais evidente delas. Por sua vez, as vozes de Wall-E e Eva remetem ao R2-D2 de “Guerra nas estrelas”.
Para a criançada, que não pega a maioria dessas alusões, fica uma linda história com foco no respeito à natureza e na ação transformadora da solidariedade, temas bastantes caros atualmente. Não fosse isso já suficiente, ainda há bastante diversão, que - na segunda metade do longa - fica a cargo das trapalhadas de Wall-E dentro da ultra-sofisticada nave espacial e dos amigos desajustados que ele encontra enquanto tenta escapar de uma perseguição. Por tudo isso e por tantas outras citações e cenas memoráveis (que eu deixo para você descobrir), o novo filme da Pixar é um marco da animação (e do cinema!). E já nasce com cara de clássico.

Quando o corpo pesa, a mente voa

Já imaginou um bom vivant, cercado de badalações e belas mulheres que, de uma hora para a outra, descobre-se com uma paralisia que só lhe permite mexer um olho? Complicado, não é? E se eu lhe disser que essa pessoa é real e ainda encontrou motivos para rir? Não acredita? Pois assista logo ao filme do Julian Schnabel que está em cartaz nos melhores cinemas do Brasil e você vai ver como a memória e a imaginação fizeram um escafandrista voar. Se quiser saber um pouquinho mais, clique aqui.

julho 04, 2008

O brilhante fim-dos-tempos da Pixar

Depois da recente e polêmica produção do diretor indiano M. Night Shyamalan ter abordado uma reação de auto-proteção da natureza para salvar o planeta da ação predatória do homem, eis que chegou às telas brasileiras, na semana passada, um outro longa que toca no assunto. É "Wall-E", a nova animação da Pixar, que faz referências a clássicos como “E.T”, “Guerra nas Estrelas” e “2001 - Uma odisséia no espaço” e já nasce com cara de clássico. Leia mais aqui.

"1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil"

(idem, 2008 - José Carlos Asbeg)
A semana passada foi marcada pela comemoração dos 50 anos da conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil. Não poderia, pois, haver programa mais apropriado do que assistir ao documentário do jornalista e (agora) cineasta José Carlos Asbeg. Mesmo não sendo um fã ardoroso do esporte, fiz questão de marcar presença (numa sessão com pouco público, diga-se de passagem): eu não seria louco de perder um filme que tem no elenco artistas como Garrincha, Didi, Pelé e Vavá (só para citar alguns) e que celebra o nascimento do futebol-arte, filho daquela que é considerada, quase unanimemente, a melhor seleção brasileira de todos os tempos.
“1958...” mostra como foi desatado o nó-na-garganta dos torcedores e jogadores daquela época. Depois de estar presente nas duas finais mundiais anteriores e sair como vice, o Brasil partia para a Suécia desacreditado, desconfiado, temeroso. Era o complexo de vira-latas, definido por Nelson Rodrigues como o sentimento de inferioridade que tomava conta do brasileiro quando entrava em contato com a força e a cultura dos países desenvolvidos. A expectativa era de que, mais uma vez, a seleção fosse amarelar na hora de decidir. O que se viu, no entanto, foi um time valente e criativo, com uma vontade ferrenha de trazer para casa o título inédito de melhor do mundo.
E aquele ano mostrava-se bem significativo: Juscelino Kubitschek era o presidente do crescimento e do progresso; a Brasília de Niemeyer e Lúcio Costa estava em construção; a música brasileira transformava-se com a cadência suave da Bossa Nova; e as bases do Cinema Novo - que ganharia o mundo em pouco tempo - já agitavam as idéias dos nossos cineastas. Tudo apontava para a verdadeira descoberta do Brasil. Mas seriam os pés dos brasileiros - com sua magia ao tocar uma bola - os primeiros a revelar aos quatro cantos a existência de uma grande nação verde-amarela ao sul do Equador.
Para falar do que significou erguer a Taça Jules Rimet em 29 de junho de 1958, o filme começa com as imagens da conquista (atenção para a abertura, com a câmera passeando por um painel cheio de autógrafos e recortes de jornais, que exaltam o baile que os jogadores-artistas deram nos seus adversários). Depois, recua no tempo, voltando a 1950, quando o Uruguai derrotou a seleção brasileira em pleno Maracanã, libertando o fantasma que assustaria o Brasil pelos próximos oito anos. Narrando toda a história, do descrédito ao triunfo, estão os protagonistas do espetáculo (claro!). São os depoimentos de Nilton Santos, Dino Sani, Mazzola, Zagallo, Zito, Moacir e Djalma Santos, entre outros, que conduzem o filme de Asbeg, ao som de uma trilha eclética que mistura valsa de Strauss com marchinha brasileira e pontua os muitos sentimentos provocados pelas lembranças emocionantes que vão surgindo ao longo dos seus 90 minutos de duração. E por falar em emoção, a cena em slow motion da caminhada do ‘príncipe’ Didi, do fundo de rede até o centro do gramado, com a bola debaixo do braço, após a Suécia ter inaugurado o marcador em Estocolmo, é espetacular: sua atitude serena consegue traduzir perfeitamente o peso da responsabilidade e a busca do equilíbrio que faria o time virar o placar.

Não bastassem todos os detalhes descritos por quem participou ativamente do enredo daquele mundial, o diretor (como bom jornalista) quis ouvir a versão dos derrotados e viajou para o exterior a fim de entrevistar jogadores de todos os times que o Brasil enfrentara: Áustria, Inglaterra, União Soviética, País de Gales, França e Suécia. E se você pensa que os depoimentos foram só ovação, está enganado. Há a queixa de um francês sobre o lance que tirou o zagueiro Robert Jonquet do jogo pela semifinal e deixou a França com um jogador a menos, uma vez que a substituição não era permitida. Outro bom momento - e, dessa vez, engraçado - é quando um jogador soviético conta sua reação após a derrota por 2x0: arremessou a chuteira contra o armário do vestuário, dizendo “Não jogo mais. O que jogamos não é futebol. Futebol é o que eles jogam”. Isso tudo por causa dos dribles desconcertantes do genial Mané Garrincha, que ignorou a marcação dos russos e executou jogadas memoráveis que entraram para os anais do futebol e não saem da memória de quem as viu (ou está vendo agora).
Revezando imagens das partidas e dos entrevistados (também foram ouvidos jornalistas e dirigentes de então), Asbeg constrói um filme didático, em que o público acompanha os detalhes de cada jogo, na sequência em que eles aconteceram mesmo. E isso não é defeito - que fique claro - pois até ajuda o cinéfilo que não é apaixonado por futebol a compreender a grandiosidade do que ocorreu naquela copa do mundo. Na verdade, bem mais do que recuperar uma história de chutes e gols, “1958...” conta uma epopéia de transformações. Afinal, não se pode esquecer que aqueles craques partiram do Brasil como “vira-latas” e regressaram como heróis.
Em tempo: muito tem-se falado sobre a ausência de depoimentos de Pelé no longa de estréia de José Carlos Asbeg. Se a questão foi de agenda ou de cachê, não importa. As imagens do garoto de 17 anos demonstram muito bem o talento que o mundo passaria a conferir e idolatrar a partir dali. E falam por si.

junho 27, 2008

"Fim dos tempos"

(The happening, 2008 - M. Night Shyamalan)
Apesar de ter feito dois filmes antes de “O sexto sentido (1999)”, M. Night Shyamalan só surgiu para o grande público com a história do garoto que enxergava os mortos. No entanto, o sucesso alcançado na ocasião não voltou a se repetir na carreira do diretor. E olha que a sua produtividade é alta: em nove anos, realizou outros cinco longas. “Corpo Fechado”, “Sinais”, “A vila” e “A dama na água” dividiram opiniões, que foram do amor ao ódio com igual intensidade. A mesma coisa está ocorrendo agora com o seu recém-lançado “Fim dos tempos”.
E sabe qual é o problema que ele enfrenta? Estão levando a sério demais uma proposta de entretenimento de Shyamalan. Isso mesmo: “Fim dos tempos” é para ser curtido como um bom suspense e ponto. Não quer discutir teorias, mostrar efeitos especiais mirabolantes, nem apresentar nada incrivelmente novo. É diversão para quem se dispuser a entrar na brincadeira. De que outra maneira encarar o pretenso herói (o professor de Ciências) que - ao invés de investigar um fenômeno extraordinário - opta for fugir e, ainda por cima, conversar com as plantas? Justo ele que, em sala de aula, instiga os alunos a buscar respostas para estranhas ocorrências da natureza! E o que dizer de situações patéticas como a da esposa que esconde do marido a “grande traição” de ter tomado uma sobremesa com um colega de trabalho e ainda faz citação à perseguição psicótica da personagem de Glenn Close em “Atração fatal”? É tudo propositalmente bobo, às vezes fora mesmo do contexto de um suspense/terror. Mas vamos à história.
Estrelado por Mark Wahlberg (“Os donos da noite” e “Os infiltrados”), que interpreta o tal professor, o filme está centrado num estranho acontecimento: contaminados por uma toxina que destrói neurotransmissores relacionados ao instinto de sobrevivência, cidadãos norte-americanos passam a protagonizar um suicídio coletivo. Parece absurdo? Há um personagem que ratifica essa impressão ao dizer que achava que já tinha visto de tudo nesse mundo (olha o Shyamalan desbancando a seriedade outra vez). Como não poderia deixar de ser, terrorismo e armas químicas são as primeiras suspeitas. Mas a proporção descomunal com que o ataque é executado leva a outra hipótese. A tal substância venenosa estaria vindo das plantas, em resposta à depredação contínua e crescente do meio ambiente, numa espécie de mecanismo de proteção ao planeta, que elimina quem coloca o equilíbrio dos ecossistemas em risco. É uma premissa curiosa e instigante. E gera cenas incríveis que - se não chegam a causar pânico - provocam grande desconforto e atestam que a criatividade do diretor segue em alta: os corpos caindo do edifício e as mortes no asfalto em "efeito dominó" são dois exemplos emblemáticos. Na verdade, o ponto de partida da história é tão genial que bastam alguns minutos para que o público esteja completamente envolvido.
Bem no início de “Fim dos tempos”, enquanto a série de suicídios está ocorrendo, Elliot discute com seus alunos o desaparecimento da população de abelhas. A dedução de um dos pupilos é curiosa: os cientistas encontrarão uma resposta, mas daí a provar que ela é 100% pertinente já é outra história. Pois é esse caminho que os próximos 80 minutos de projeção irão trilhar. Shyamalan quer seduzir a platéia sem se preocupar em desvendar o mistério. Assim, vão sendo derrubadas todas as possibilidades de entendimento do fenômeno suicida, como aquela de que o ataque se daria somente onde existisse um grande número de pessoas. Destruído esse raciocínio, o suspense aparece até mesmo quando uma criança se diverte no balanço amarrado a um galho de árvore. É inevitável não esperar pelo instante em que a inocente brincadeira poderá despertar a ira da natureza.
Já nos momentos finais, quando parece não existir mais lugar seguro para se proteger, entra em cena uma senhora que vive isolada, morando sozinha, sem energia elétrica ou qualquer indício de comunicação. É nesse derradeiro oásis de proteção que a última certeza sobre a ação da misteriosa toxina será desmantelada, restando ao espectador render-se às seqüências de medo criadas dentro das quatro paredes daquela casa “quase” assombrada. E me parece ser apenas isso o que Shyamalan deseja com seu “Fim dos tempos”: criar tensão e, se possível, garantir alguns sustos, sem maiores comparações com o grande mestre que ele segue homenageando. E por falar nisso, dessa vez, sua participação hitchcockiana é apenas com a voz. Fique atento.

junho 25, 2008

" A enguia"


(Unagi, 1997 - Shohei Imamura)
Um esposo traído. Uma jovem que ama um homem casado. Emocionalmente perdidos e feridos, essa dupla se conhece no subúrbio de Tóquio: ele tentando recomeçar longe de tudo e de todos; ela querendo pôr um fim na vida. É o encontro da armadura de um com a fragilidade da outra, da dureza dele com a doçura dela. Que uma transformação virá, fica claro desde o início. Mas Imamura vai construindo sua história sem concessões, sem saídas fáceis. Os empecilhos para a (possível) felicidade surgem ininterruptamente... E a enguia com isso? Vamos a um pouco de biologia: é um peixe que se desloca com facilidade, migra dos riachos doces para o salgado mar, consegue viver em águas pouco oxigenadas, camufla-se junto a plantas e pedras... No filme, não por acaso, a enguia é o animal de estimação do homem que está buscando se adaptar a uma nova vida. Qualquer analogia não é mera coincidência e uma última semelhança é revelada no final do longa. A atuação de Kôji Yakusho (mais conhecido por "Babel" e "Memórias de uma gueixa") é perfeita, construindo um personagem que está sempre no limite, seja da violência, do ciúme ou da entrega, mas que ganha a cumplicidade do público já nas primeiras cenas. "A enguia" dividiu, em 1997, a Palma de Ouro em Cannes com o excelente e intrigante "Gosto de cereja", do mestre do cinema iraniano Abbas Kiarostami.

PS: Como parte das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, o Cinemark (!) do Shopping Santa Cruz (SP) levou ao público, de 13 a 19 de junho, um Festival de Cinema Japonês a preços populares (!!): R$ 4. [(!) porque o Cinemark só costuma exibir blockbusters. (!!) porque o preço dos ingressos lá (e em outras redes) é um absurdo. Cinema tinha de ser um entretenimento acessível e não a alternativa elitista que se tornou]. Mas voltando ao festival: foram exibidos "Ninguém pode saber (Hirokazu Kore-eda)", "O castelo animado (Hayao Miyazaki)", "Água quente sob uma ponte vermelha (Shohei Imamura)", A enguia (Shohei Imamura)", "Postman Blues (Hiroyuki Tanaka)", "Escola do Riso (Mamoru Hoshi)" e "O samurai do entardecer (Yoji Yamada)". Queria ter assistido aos quatro últimos (que eu ainda não conhecia). Vi três.

junho 20, 2008

Quem tem medo do Shyamalan?

Mark Wahlberg amedrontado em "Fim dos tempos"
Depois de "O sexto sentido", todo filme de M. Night Shyamalan vem provocando celeuma e controvérsias. Não está sendo diferente com "Fim dos tempos", que estreou mundialmente há uma semana. Só que dessa vez, as críticas parecem superar - com folga - os índices negativos de "Sinais" (aquele com extraterrestres), até então o mais achincalhado dos filmes do diretor indiano. Quer saber o que eu acho disso? Clique aqui.

"O Signo da Cidade"

(O Signo da Cidade, 2007 - Carlos Alberto Riccelli)
Quem anda pelas ruas de São Paulo percebe a mistura de constrastes que envolve essa bela e assustadora cidade. Os sinais mais evidentes, até por estarem sempre nas manchetes, são a violência, a poluição, os engarrafamentos monstruosos, a desigualdade social, o corre-corre da população, etc. Um olhar mais atento registra também a beleza dos seus parques, a qualidade e variedade da sua culinária, a riqueza da sua arquitetura, as incontáveis opções culturais, a agitação das suas noites-sem-fim, a generosidade dos paulistanos... E essa ambigüidade que - para o bem e para o mal - compõe a diversidade de Sampa é a força motriz de “O Signo da Cidade”.
Escrito e estrelado por Bruna Lombardi (cada vez mais bela) e dirigido por Carlos Alberto Riccelli, o filme é um instigante drama sobre os altos e baixos de um grupo de pessoas que - por um motivo ou outro - tem seus destinos entrelaçados. Ao se cruzarem, essas tantas vidas vão tecendo uma extensa malha de pequenas solidões, frustrações e angústias, representadas por separações, suicídio, dificuldades financeiras, doença, depressão, preconceito, aborto, traições, conflitos familiares e mais uma infinidade de desventuras.
Por tudo isso, fica evidente que o clima de “O Signo da Cidade” é pesado (e é mesmo!). E muitos elementos colaboram para passar essa idéia de sufoco e desespero: a fotografia com pouca luz em inúmeras cenas; o desconforto dos pequenos espaços (estúdio da rádio, camarim da casa de shows, quarto de hotel imundo, sala entulhada de objetos, etc); a câmera que (quase nunca) se distancia dos atores; as locações escuras dos becos e ruas... No entanto, em função da premissa que norteou o roteiro, de que todas as coisas estão interligadas e nada acontece por acaso, os momentos de solidariedade e transformação vão ganhando mais destaque à medida que o final se aproxima, convertendo-se numa aposta otimista dos seus realizadores diante da realidade cruel, individualista e cinzenta que segue reinando no iluminado século XXI.
O elenco - que mistura nomes conhecidos (Bruna Lombardi, Eva Wilma, Ana Rosa, Juca de Oliveira, Denise Fraga, Malvino Salvador, Graziella Moretto, Fernando Alves Pinto, Luís Miranda) a jovens talentos - é muito feliz ao abraçar com igual interesse as virtudes e imperfeições dos seus personagens. O fato de não serem totalmente bons ou maus, certos ou errados, confiantes ou inseguros auxilia na idenficação, fazendo com que o público se veja em muitas daquelas situações. E isso é um mérito inconstestável do filme, talvez o que mais contribua para render os elogios que vem recebendo de crítica e público.

junho 19, 2008

Liga escolhe os melhores dos anos 2000

David Lynch na frente com "Cidade dos Sonhos"
Há algumas semanas, a Liga dos Blogues Cinematográficos pediu a seus integrantes que escolhessem os 20 filmes mais significativos da década atual. Ontem, o resultado foi publicado no site da LBC, que acabou divulgando os 50 mais bem votados. Sem sombra de dúvidas, uma lista de grandes referências. Dos escolhidos, não assisti a "Amantes constantes" (6º), "Reis e rainhas" (15º), "Mal dos trópicos" (21º), "O singo do caos" (40º), "Santiago" (47º) e "Adeus, Dragon Inn" (49º).

No topo da minha lista: Manoel de Oliveira com "Um filme falado"

Confira abaixo os meus 20 indicados. Em vermelho, a posição que o filme conquistou no resultado final. O traço (-) significa que o longa ficou de fora na opinião dos votantes.

1. Um filme falado / Manoel de Oliveira (13)
2. Amor à flor da pele / Wong Kar-Wai (9)
3. Ninguém pode saber / Hirokazu Kore-eda (-)
4. Tudo ou nada / Mike Leigh (-)
5. O segredo de Brokeback Mountain / Ang Lee (22)
6. Cidade dos sonhos / David Lynch (1)
7. Antes do pôr-do-sol / Richard Linklater (3)
8. Promessas de um novo mundo / Bolado, Goldberg e Shapiro (-)
9. Brilho eterno de uma mente sem lembranças / M. Gondry (25)
10. Lady Chatterley / Pascale Ferran (38)
11. Dolls / Takeshi Kitano (35)
12. Elefante / Gus van Sant (2)
13. Caché / Michael Haneke (8)
14. Dogville / Lars von Trier (18)
15. Não estou lá / Todd Haynes (12)
16. Estamos bem mesmo sem você / Kim Rossi Stuart (-)
17. Moulin Rouge! / Baz Luhrmann (-)
18. Medos privados em lugares públicos / Alain Resnais (28)
19. Kill Bill: vol.1 / Quentin Tarantino (5)
20. Menina de ouro / Clint Eastwood (23)

junho 12, 2008

"Longe dela"

(Away from her, 2006 - Sarah Polley)
Ainda que uma cena importante de “Longe dela” evoque a primavera, a estação que predomina na estréia da jovem Sarah Polley como diretora é o inverno, com o gelo cobrindo e escondendo os campos, impondo sua (quase) completa monocromia. Não poderia haver cenário mais apropriado para contar uma história de perda e solidão.
Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) estão juntos há mais de 40 anos. Esse relacionamento - que já passou por várias intempéries - enfrenta agora um inimigo cruel: o esquecimento. Ela está com a doença de Alzheimer e os sintomas começam a se acentuar, o que leva o casal a tomar a decisão de interná-la. Mas uma norma da clínica vai acelerar o inevitável: o paciente não pode receber visitas durante os 30 primeiros dias. Quando Grant retorna, Fiona já não o reconhece. Para piorar as coisas, ele percebe o interesse dela por um outro interno. E enquanto a esposa vai perdendo todas as lembranças, o marido se agarra a cada uma delas para continuar vivendo e lutando.
“Longe dela” é um filme de emoções fortes, construído em cima de uma montagem que vai e vem no tempo para revelar verdades, segredos, angústias e esperanças. Começa com Grant indo até a casa de Marian (Olympia Dukakis), cujo esposo Aubrey (Michael Murphy) é o objeto da paixão de Fiona. O motivo daquela visita é apenas uma mostra do que ele é capaz de fazer para proteger a amada. A partir dali, presente e passado se revezam para construir esse drama encantadoramente triste, baseado em um conto da canadense Alice Munro e adaptado pela própria diretora. Aliás, Sarah Polley - conhecida por suas atuações em “A vida secreta das palavras”, “Minha vida sem mim” e “O doce amanhã” - surpreende nesse primeiro trabalho atrás das câmeras pela profundidade e delicadeza com que mergulha em temas tão densos: na época das filmagens, ela tinha apenas 26 anos.
Julie Christie levou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar por seu desempenho cheio de sutilezas ao retratar a montanha-russa de sentimentos de Fiona. No entanto, Grant também é uma grande criação do ator Gordon Pinsent, num contra-peso perfeito à atuação da colega. Não falar da interpretação contida e, ainda assim, tão eloqüente de Michael Murphy seria injusto: apesar de Aubrey não pronunciar sequer uma palavra, seu olhar passa toda a carência, dependência e vazio que o personagem está sentindo.
Portanto, é seguro e coerente afirmar que a escolha do elenco foi o grande acerto para o sucesso de “Longe dela”. Pinsent e Christie constroem seus personagens com tanta verdade que, em pouco tempo de projeção, o público já se torna cúmplice (ou seria refém?) daquele sonho de reconquista e recomeço. E olha que a história não dá colher de chá. Ainda que algumas situações arranquem risos, o foco está na resignação, no arrependimento e na dor.
Prova disso é a bela cena em que Grant lê para Fiona os poemas de “Cartas da Islândia”, referência à terra natal da esposa. O título do livro já deixa claro que a tentativa de resgatar lembranças é vã. Islândia significa “Terra do gelo”. Ao pé da letra, é como se tudo que viesse de lá pertencesse ao frio, ao passo que a batalha em questão é pelo calor da paixão e o aconchego das recordações. Para encerrar o longa com chave de ouro, a canção “Helpless” - belíssima versão de k.d. lang para a composição de Neil Young - entra com os créditos finais, traduzindo com perfeição a melancolia e o desamparo que rondam todas as cenas do filme.

junho 10, 2008

Os mais procurados

Nas últimas duas semanas, cerca de 75% das pessoas que visitaram este blog vieram buscar informações sobre dois filmes que são muito especiais para mim. Um deles é "A festa de Babette" (já comentado aqui e integrande da minha lista de filmes subestimados). O outro - que recebeu meu voto para figurar entre os melhores dos anos 2000 na enquete da LBC - é "Promessas de um novo mundo" e aborda o conflito Israel/Palestina a partir do olhar e das emoções de um grupo de crianças. Os dois são produções magníficas que, no entanto, ainda são pouco conhecidas do grande público. "Babette" foi ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 1988 e "Promessas" foi indicado pela Academia a melhor documentário em 2002.

junho 05, 2008

"Não estou lá"

(I'm not there, 2007 - Todd Haynes)
Ao sair do cinema, cheguei a pensar em não tecer comentários a respeito de “Não estou lá”. Afinal, não sou um grande conhecedor da obra de Bob Dylan. Mas um filme não deve ter vida própria, independentemente do que o público conheça a respeito do que ele quer contar? Os bons, sim! E o de Todd Haynes pertence a essa categoria.
Primeiramente porque é instigante e criativa a idéia de escalar vários atores para viver o mesmo personagem, representando características e fases distintas, transformando a vida do músico num gigantesco quebra-cabeça. E ainda que muitas peças não se encaixem, o resultado é inacreditavelmente esplêndido. Porque ao olhar para o que já foi montado, pode-se perceber outras tantas possibilidades devido às lacunas deixadas.
A edição primorosa de Jay Rabinowitz mistura todas as facetas do cantor norte-americano sem, no entanto, deixar que as percamos de vista um só momento. Para cada uma delas, o fotógrafo Edward Lachman cria um registro específico, com imagens coloridas, em preto-e-branco, contemplativas, frenéticas, granuladas e envelhecidas. Assim, o público identifica e acompanha trajetórias que vão do folk ao rock’n’roll, da família às drogas, do engajamento político à poesia, da popularidade à reclusão. Mas Dylan não é só isso, o que Haynes deixa bem claro já no título do filme: apesar das inúmeras referências, o músico não está plenamente retratado ali.
Toda essa riqueza conceitual poderia não chegar aonde deveria se não tivesse um elenco de peso para traduzi-la em atuações e caracterizações inspiradas, especialmente Cate Blanchett (indicada ao Oscar de coadjuvante pelo papel) e Christian Bale. Mas também estão muito bem o garoto Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Ben Whishaw (de “Perfume: a história de um assassino”) e Heath Ledger. Embaladas pelas canções de Dylan (a maioria delas interpretada pelo próprio compositor), as histórias defendidas por cada um desses atores ganham em peso, graça, emoção e envolvimento.
“Não estou lá” é, por tudo isso, uma cinebiografia rara, pelo menos no que diz respeito aos padrões hollywoodianos, que produziram recentemente “Ray (2004)” e “Johnny e June (2005)”, também sobre a vida de consagrados músicos norte-americanos. O diretor Todd Haynes foge dos lugares-comuns ligados à cronologia e à retratação fiel para deixar horizontes abertos sobre a multiplicidade de pensamentos e atitudes de um artista que faz parte do imaginário de milhões de pessoas. Com isso, ao invés de fazer apenas um filme, ele conseguiu criar uma obra-prima.

junho 01, 2008

"Estômago"

(Estômago, 2007 - Marcos Jorge)
A história do cinema é rica em filmes que têm a arte da gastronomia como principal tempero para seus enredos. Do macabro “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (Peter Greenaway, 1989)” ao fantasioso “Como água para chocolate (Alfonso Arau, 1992)”, do cômico “Ratatouille (Brad Bird, 2007)” ao comovente “A festa de Babette (Gabriel Axel, 1987), a lista é extensa e de conteúdo bem variado para satisfazer todos os gostos. “Estômago”, a estréia em longa-metragens do diretor Marcos Jorge, mistura elementos de todas essas películas para abordar a influência nefasta do poder sobre a alma humana.
O filme conta a história de Raimundo Nonato (João Miguel em mais um grande momento), nordestino que chega faminto à cidade grande com a esperança de mudar de vida. Ele traz do sertão a ingenuidade de quem busca companheirismo e solidariedade. Encontra maus-tratos e exploração. Sem saída, aceita trabalhar num botequim de quinta a troco da alimentação e de um quartinho imundo para dormir. Mas ali descobre seu dom: começa fazendo coxinha de frango e, pouco tempo depois, já é aprendiz de chef em um restaurante italiano.
No entanto, não é só de fome de comida que o filme trata. Tem apetite sexual de sobra na história. E aqui há que se abrir um parêntese para a atuação de Fabiula Nascimento na pele da garota de programa Íria, que está sempre mastigando, gerando situações inacreditavelmente cômicas, bem como a sede de vingança que colocará o inocente Nonato na cadeia. Confinado, ele adota o nome de Alecrim (erva com a qual faz verdadeiros milagres) e vai descobrir que naquela cela também existe humilhação e, principalmente, hierarquia. O que vemos a partir de então é o resultado de uma edição inteligente, que vai e volta no tempo, aproveitando muito bem os elementos cênicos e narrativos que permitem ligar as distintas histórias do personagem (antes e depois da prisão) até chegar aos desfechos idênticos, com a conquista de prestígio, ascensão e poder.
A transformação é mesmo a tônica de “Estômago”, seja ela referente aos alimentos ou às pessoas. E é a composição de João Miguel para o humilde nordestino com pretensões gastronômicas que confere aquela pitada criativa, capaz de fazer um prato saboroso e requintado a partir da combinação de ingredientes triviais . Quem assistiu a qualquer um dos seus filmes – como “Cinema, aspirinas e urubus” ou “O céu de Suely” – sabe ao que estou me referindo. Na fala dele, o texto ganha melodia, cadência e há graça em praticamente todas as cenas. Tal artimanha acaba conquistando o público que, quando menos percebe, já está aplaudindo a vitória da corrupção do bandido Alecrim sobre a integridade do cozinheiro Nonato.