fevereiro 25, 2008

A (quase) perfeição do Oscar 2008

O DESEJO
A 80ª edição do Oscar foi marcada por desejos e reparações. Primeiramente, porque há tempos não se tinha uma seleção de filmes tão boa. Ao saírem os indicados, era difícil ver alguém reclamando de injustiças. Mas ainda restava aquele receio de que o desfecho da festa pudesse deixar uma ressaca danada, como acontecera tantas outras vezes e - recentemente - em 2006, quando o franco favorito "O segredo de Brokeback Mountain" foi atropelado por "Crash - No limite" já na reta final. Por essa e outras, havia um grande desejo de que fosse diferente agora. E pelo menos dois dos indicados ao prêmio máximo poderiam ganhar sem causar grandes protestos. "Sangue negro" e "Onde os fracos não têm vez" vinham dividindo o posto de melhor filme segundo a crítica (e o público também), incensando - merecidamente - o trabalho dos diretores Paul Thomas Anderson e Joel & Ethan Coen. No entanto, havia ainda a possibilidade de que "Desejo e reparação" pudesse levar a estatueta, por ser um filme de estrutura mais clássica e convencional, bem a cara da Academia. Mas mesmo essa possibilidade, não seria de todo ruim, afinal a adaptação do livro "Reparação", do escritor Ian McEwan, foi muita elogiada.

A REPARAÇÃO
Ao ganhar o prêmio de melhor ator coadjuvante, Javier Bardem abriu o caminho para a consagração do filme dos irmãos Coen. Nenhuma controvérsia, nenhum deslize da Academia aqui, visto que a irrepreensível criação do assassino da pistola de ar comprimido assustou (e encantou) o planeta, já colocando o personagem naquela galeria de criminosos inesquecíveis (?!) do cinema. E aí veio a estatueta de roteiro adaptado para "Onde os fracos não têm vez". Merecidíssima, afinal, a partir de uma história que parecia inadaptável para a telona, nasceu um filme envolvente e (in)tenso, para ficar com poucos adjetivos. A última vez em que os irmãos Coen foram ao Oscar com tantas chances de prêmios foi em 1997. O filme era "Fargo" e chegou ao Shrine Auditorium indicado em sete categorias e saiu com apenas duas estatuetas: roteiro original e atriz (Frances McDormand). Mas muitas outras boas produções deles foram injustamente esnobadas pela Academia. "Gosto de sangue (1984)", "Arizona nunca mais (1987)", "Ajuste final (1990)", "Na roda da fortuna (1994)" e "O grande Lebowski (1998) não receberam nenhuma indicação. Laureado com a Palma de Ouro, direção e ator em Cannes, "Barton Fink - Delírios de Hollywood (1991)" não ganhou nada no Oscar. O divertidíssimo "E aí, meu irmão, cadê você? (2000)" só recebeu duas indicações (roteiro adaptado e fotografia) e saiu de mãos abanando. E o competente "O homem que não estava lá (2001)" só foi indicado para fotografia. Mas em 2008, a reparação foi feita: Joel & Ethan foram eleitos os melhores diretores e "Onde os fracos não têm vez" levou o Oscar de melhor filme. É bem verdade que após a morte do caçador Moss (Josh Brolin), a história - que vinha frenética - dá uma freada brusca. Essa elipse do encontro final entre o protagonista e o assassino - que seria o ponto alto da película, em função do magnetismo dos dois personagens - é uma grande falha. A partir dali, o interesse pelo desfecho cai muito. Entretanto, pela maestria com que eles contruíram os 4/5 iniciais do filme e pelo conjunto da obra dos Coen, valem as estatuetas.

E OS NOVOS ESTRAGOS
Pena mesmo é que "Sangue negro" tenha ficado somente com ator (Daniel Day-Lewis) e fotografia. Outra injustiça foi "Desejo e reparação" levar apenas trilha sonora. Aliás, acho que o filme merecia ter sido indicado em - pelo menos - outras três categorias: diretor (Joe Wright), ator (James McAvoy) e atriz (Keira Knightley). Também não concordei com o prêmio para atriz coadjuvante: Tilda Swinton está apenas correta em "Conduta de risco" e a estatueta me pareceu um consolo para o filme de Tony Gilroy. Deveria ter sido Cate Blanchett, por "Não estou lá" ou - até mesmo - Saoirse Ronan, por "Desejo e reparação". Todos têm falado muito de Javier Bardem no filme dos irmãos Coen, mas a atuação de Josh Brolin não deixa nada a desejar em relação à do ator espanhol. E, é claro, seu nome tinha de constar entre os indicados. Também não faço parte do grupo que tem incensado o roteiro de "Juno". Em nenhum momento, a história da adolescente que não soube evitar uma gravidez, mas que é supermadura para lidar com a doação do filho para um casal estéril, conseguiu me convencer e emocionar. A naturalidade com que a família da garota entende e aceita tudo é inverossímil. "Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da Rua Fleet", do Tim Burton, merecia ter levado o prêmio de figurino e poderia ter recebido indicações para maquiagem (ao invés dos batidos "Piratas do Caribe 3" ou "Norbit"), direção e filme (ambas no lugar de "Juno").
PS: E viva Marion Cotillard! Com todo respeito a Julie Christie, mas essa francesa é a razão de ser de "Um hino ao amor". Sem ela, o filme desafinaria.

11 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

concordo com a sua analise... e parabéns pelo texto, muito bom...
Eu sinceramente achei merecido, os 2 oscars para sangue Negro, obvio que poderia ter sido mais... e quanto a desejoe reparaçõa (não o vi), mas pelas criticas parece ser bom,mas não tiraria nenhum dos Oscars ganho para dar ao filme... o daniel day-lewis está perfeito, além do que a atriz foi merecidissima e a direção não pdoeria ser de outro a não ser dos irmãos...
a cerimõnia em si foi pessima, esquecendo alguns diretores e atores no 'In memorian', pe´ssimas apresentações musicais, destaque mesmo para a dupla de Ocen que foi muito emocionante, mas poderiam ter trabalhado melhor os cenários das demais... além da homenagem aos 80 anos, nada de que ficassena história, que marcasse com esse fato na cerimonia... os roteiristas fizeram mutia falta em mais uma decepcionante cerimonia... mas pelo menos o nivel dos participantes a ajudou a tornar-se interessante e justa...
abraços e parabéns pelo blog

Vinícius P. disse...

Gostei dos prêmios dessa edição, só achei que "Sangue Negro" e "Atonement" mereciam um reconhecimento maior. De qualquer forma fiquei extremamente satisfeito com as vitórias da Cotillard e da Swinton (discordo de seu comentário sobre a atriz). A cerimônia foi fraquinha, esperava bem mais por se tratar dos 80 anos do Oscar...

Eduardo Miranda disse...

Demas, excelente teu texto, ótima análise, nada a acrescentar. A lista dos indicados a filme estava muito boa. Eu queria muito ver Sangue Negro levar o prêmio de diretor e de filme, mas não deu. Desejo e Reparação também seria ótimo. Os Coen tb. Só não queria Juno.

Acho que a maior felicidade da noite foi ver Marion Cotillard. Além de excelente atriz, foi uma graça naquele agradecimento.

Grande abraço!
Edu

leila disse...

Oi Demas, tá muito bom o seu post. Esse ano estou atrasada nos filmes indicados. Vou ver Michael Clayton essa semana, e depois pegarei no DVD os outros indicados, que estão pra sair nos próximos dias. Dos irmãos Coen eu gosto de praticamente tudo, então acho que No Country for Old Men deve ter merecido o prêmio. : )

Sweet! disse...

Sorry! E eu tb não sou muito leitora deste, mas do Buarqueando. Aliás, devia ler mais este aqui, para ver se animo minha vida de cinemaníaca. Bj!

Demas disse...

Rodrigo,
a direção de Paul Thomas Anderson é primorosa também; "Sangue negro", idem. Acredito que, num futuro próximo, será esse o filme de maior expressão dessa safra.
Obrigado pela visita. Volte quando quiser: a casa é sua.
Abração

Vinícius,
também acho que SN e DeR mereciam mais prêmios. E é verdade, a cerimônia foi bem básica, prova da falta que os roteiristas fizeram. E o que foi aquela chatice das apresentações das canções. Se continuar daquele jeito, poderiam limar as apresentações das próximas edições: a cerimônia vai terminar uma meia hora mais cedo :)
Abração

Edu,
a surpresa (autêntica) da Marion Cotillard foi o grande momento da noite. Adoro a imagem da Cate Blanchett quase pulando da poltrona quando o nome da francesa foi anunciado. Surpresa geral!
Também queria ter visto SN e DeR levando mais coisas. Mas tínhamos indicados (bons) demais e estatuetas de menos para atender essa demanda de desejos, rs.
Abração

Leila,
o filme dos Coen mereceu sim, assim como o mereceriam também "Sangue Negro" e "Desejo e reparação". Talvez fosse o ano em que a Academia poderia ter pulverizado mais os votos para prestigiar tão boas realizações. Achei que uma só estatueta para DeR e duas para SN foi injusto.
Abração e obrigado pela visita. Espero você outras vezes, viu?

Sweet,
pois venha mais vezes ao Cine Dema(i)s. Você é tão bem-vinda aqui quanto é no Buarqueando.
Abração

Anônimo disse...

Gostei muito do blog. Abri um recentemente, onde vou inserir minhas humildes resenhas dos últimos 5 anos, se tudo der certo nos próximos cinco anos... :) Se desejar, dê uma olhada em

http://cinemagia.wordpress.com

Sou co-autor também de um dedicado a Agatha Christie, em:

http://acasatorta.wordpress.com

Um abraço e parabéns mais uma vez.

Moa disse...

Cara, você me dá inveja. Hehehe. Você conseguiu ver todos esses filmes? Eu só vi o do Cronenberg e, cá pra nós, achei o Viggo Mortensen MUITO BOM. Ah! Vi Sweeney Todd também e concordo que o Tim Burton merecia uma indicação, mas acho que a Academia não gosta muito dele.

Adorei seu post. Me deu vontade de ver os outros. ;^)

Abração!

Demas disse...

Anônimo,
obrigado pela visita. Já dei uma passadinha no seu blog. Voltarei depois com mais tempo.
Abração

Moa,
vi sim. À tarde, se não estou envolvido em algum trabalho, estou no cinema, geralmente, emendando duas sessões. Quero ver o do Cronenberg ainda essa semana. Pelo jeito, a parceria com Mortensen vai de vento em popa.
Abração

Wallace Andrioli Guedes disse...

Assisti a esse Oscar de uma forma meio atípica, pq foi a primeira vez que vejo a cerimônia sem ter assistido a nenhum dos indicados a melhor filme. Por isso, só pude torcer me baseando em expectativas acerca dos filmes, e os dois que mais me atraem são mesmo Onde os Fracos Não Têm Vez e Sangue Negro. No entanto, uma semana após a cerimônia consegui assistir Conduta de Risco e confesso que me encantei, tanto pela direção do Gilroy, quanto pelos desempenhos do Clooney, do Wilkinson e da Swinton. Talvez a vitória dela tenha sido merecida ...
Abraços.

Demas disse...

Wallace,
como já disse antes, a Tilda Swinton não está ruim em "Conduta de risco", mas tampouco tem uma atuação arrebatadora. Ainda acho que a Cate Blanchett deveria ter levado.
Quanto aos indicados a melhor filme, excetuando-se "Juno" e "Conduta de risco", qualquer dos outros 3 que levasse me deixaria contente, inclusive, "Desejo e reparação".
Abraço