junho 12, 2008

"Longe dela"

(Away from her, 2006 - Sarah Polley)
Ainda que uma cena importante de “Longe dela” evoque a primavera, a estação que predomina na estréia da jovem Sarah Polley como diretora é o inverno, com o gelo cobrindo e escondendo os campos, impondo sua (quase) completa monocromia. Não poderia haver cenário mais apropriado para contar uma história de perda e solidão.
Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) estão juntos há mais de 40 anos. Esse relacionamento - que já passou por várias intempéries - enfrenta agora um inimigo cruel: o esquecimento. Ela está com a doença de Alzheimer e os sintomas começam a se acentuar, o que leva o casal a tomar a decisão de interná-la. Mas uma norma da clínica vai acelerar o inevitável: o paciente não pode receber visitas durante os 30 primeiros dias. Quando Grant retorna, Fiona já não o reconhece. Para piorar as coisas, ele percebe o interesse dela por um outro interno. E enquanto a esposa vai perdendo todas as lembranças, o marido se agarra a cada uma delas para continuar vivendo e lutando.
“Longe dela” é um filme de emoções fortes, construído em cima de uma montagem que vai e vem no tempo para revelar verdades, segredos, angústias e esperanças. Começa com Grant indo até a casa de Marian (Olympia Dukakis), cujo esposo Aubrey (Michael Murphy) é o objeto da paixão de Fiona. O motivo daquela visita é apenas uma mostra do que ele é capaz de fazer para proteger a amada. A partir dali, presente e passado se revezam para construir esse drama encantadoramente triste, baseado em um conto da canadense Alice Munro e adaptado pela própria diretora. Aliás, Sarah Polley - conhecida por suas atuações em “A vida secreta das palavras”, “Minha vida sem mim” e “O doce amanhã” - surpreende nesse primeiro trabalho atrás das câmeras pela profundidade e delicadeza com que mergulha em temas tão densos: na época das filmagens, ela tinha apenas 26 anos.
Julie Christie levou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar por seu desempenho cheio de sutilezas ao retratar a montanha-russa de sentimentos de Fiona. No entanto, Grant também é uma grande criação do ator Gordon Pinsent, num contra-peso perfeito à atuação da colega. Não falar da interpretação contida e, ainda assim, tão eloqüente de Michael Murphy seria injusto: apesar de Aubrey não pronunciar sequer uma palavra, seu olhar passa toda a carência, dependência e vazio que o personagem está sentindo.
Portanto, é seguro e coerente afirmar que a escolha do elenco foi o grande acerto para o sucesso de “Longe dela”. Pinsent e Christie constroem seus personagens com tanta verdade que, em pouco tempo de projeção, o público já se torna cúmplice (ou seria refém?) daquele sonho de reconquista e recomeço. E olha que a história não dá colher de chá. Ainda que algumas situações arranquem risos, o foco está na resignação, no arrependimento e na dor.
Prova disso é a bela cena em que Grant lê para Fiona os poemas de “Cartas da Islândia”, referência à terra natal da esposa. O título do livro já deixa claro que a tentativa de resgatar lembranças é vã. Islândia significa “Terra do gelo”. Ao pé da letra, é como se tudo que viesse de lá pertencesse ao frio, ao passo que a batalha em questão é pelo calor da paixão e o aconchego das recordações. Para encerrar o longa com chave de ouro, a canção “Helpless” - belíssima versão de k.d. lang para a composição de Neil Young - entra com os créditos finais, traduzindo com perfeição a melancolia e o desamparo que rondam todas as cenas do filme.

10 comentários:

André Setaro disse...

Gostei muito de suas análises críticas reveladoras do amante de cinema e excelente capacidade de percebção dos labirintos da arte do filme.

Demas disse...

Olá, André.
Seja muito bem-vindo ao Cine Dema(i)s e obrigado pelo comentário. Como disse lá no seu blog, venho me esforçando para entender mais e mais as sutilezas da riquíssima linguagem cinematográfica. Sei que ainda faltam muitos fotogramas para compreendê-la com propriedade (e por isso me interessei pela oficina "Oito faces do cinema contemporâneo"). Mas um dia, eu chego lá. Obrigado mesmo pela visita. Volte mais. A casa é sua.
Abração

cineresenhas disse...

Demas, como vai?
Depois de um longo intervalo, venho finalmente lhe visitar e deixar um comentário. E nada melhor do que deparar com a recente atualização de “Longe Dela”, um filme que tanto desejo assistir. Lendo o seu texto não imaginava que os personagens passavam por tantas barreiras assim. E Sarah Polley é uma atriz excepcional. O dez para o filme também confirma o seu talento como diretora.

Abraços!

Demas disse...

Alex,
que bom você resolveu aparecer outra vez, rsrsrs. Também andei meio sumido, mas agora pretendo atualizar o blog pelo menos uma vez por semana.
Pois veja "Longe dela" tão logo possa. Sarah Polley me surpreendeu realmente.
Abração

cineresenhas disse...

Demas, acredito que terei boas noites livres nestes próximos meses. Pararei um pouco de locar tantos filmes, pois o valor a pagar na devolução está me levando a falência, rs. Assim, fico aqui aguardando novas atualizações para poder ler e comentar quando possível.

Como de praxe, o Cinemark da minha cidade não exibe filmes que pouco atrai o publico, dando o seu circuito composto por dez salas para blockbusters chatinhos como "Homem de Ferro". Fazer o quê - é esperar mesmo o lançamento em DVD.

Abraço, excelente quarta-feira!

Demas disse...

Alex,
o valor do cinema aqui em Sampa é que está me levando a falência. Gostaria de ver mais coisas, mas o orçamento não permite. Por sorte, essa semana, o Cinemark (veja só) do Shopping Sta Cruz está exibindo um Festival de Cinema Japonês a R$ 4 a entrada. Já vi 3 filmes: "A enguia", "Escola do Riso" e "O samurai do entardecer", todos muito bons.
Abração

PS: Sabe que eu gostei de "Homem de Ferro"?

kellen disse...

um filme falado é uma maravilha mesmo. vontade de assistir de novo.
e deu vontade também de fazer uma lista dessa. hehe

Demas disse...

Pois faça as duas coisas, Kellen.
Assista a "Um filme falado" outra vez e faça a sua lista dos preferidos dos anos 2000. Prometo que passo lá para conferir. :)
Abração

Anônimo disse...

OI...tudo bem? já tihna lido alguns comentarios a respeito desse filme...e não pude ve-lo pelo simples fato de que em minha cidade(capital!)(CURITIBA!)só ficou em cartaz em um cinema Longe do centro(pequeno)apenas 15dias!E tinha concorrido ao "OSCAR"!Agora to esperando em DVD...alias falando em "OSCAR" os outros concorrentes já sairam em dvd e esse nada...

Demas disse...

Anônimo,
pois corra até a locadora assim que o dvd for lançado: o filme é muito bom.
Abração e obrigado pela visita.