junho 05, 2008

"Não estou lá"

(I'm not there, 2007 - Todd Haynes)
Ao sair do cinema, cheguei a pensar em não tecer comentários a respeito de “Não estou lá”. Afinal, não sou um grande conhecedor da obra de Bob Dylan. Mas um filme não deve ter vida própria, independentemente do que o público conheça a respeito do que ele quer contar? Os bons, sim! E o de Todd Haynes pertence a essa categoria.
Primeiramente porque é instigante e criativa a idéia de escalar vários atores para viver o mesmo personagem, representando características e fases distintas, transformando a vida do músico num gigantesco quebra-cabeça. E ainda que muitas peças não se encaixem, o resultado é inacreditavelmente esplêndido. Porque ao olhar para o que já foi montado, pode-se perceber outras tantas possibilidades devido às lacunas deixadas.
A edição primorosa de Jay Rabinowitz mistura todas as facetas do cantor norte-americano sem, no entanto, deixar que as percamos de vista um só momento. Para cada uma delas, o fotógrafo Edward Lachman cria um registro específico, com imagens coloridas, em preto-e-branco, contemplativas, frenéticas, granuladas e envelhecidas. Assim, o público identifica e acompanha trajetórias que vão do folk ao rock’n’roll, da família às drogas, do engajamento político à poesia, da popularidade à reclusão. Mas Dylan não é só isso, o que Haynes deixa bem claro já no título do filme: apesar das inúmeras referências, o músico não está plenamente retratado ali.
Toda essa riqueza conceitual poderia não chegar aonde deveria se não tivesse um elenco de peso para traduzi-la em atuações e caracterizações inspiradas, especialmente Cate Blanchett (indicada ao Oscar de coadjuvante pelo papel) e Christian Bale. Mas também estão muito bem o garoto Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Ben Whishaw (de “Perfume: a história de um assassino”) e Heath Ledger. Embaladas pelas canções de Dylan (a maioria delas interpretada pelo próprio compositor), as histórias defendidas por cada um desses atores ganham em peso, graça, emoção e envolvimento.
“Não estou lá” é, por tudo isso, uma cinebiografia rara, pelo menos no que diz respeito aos padrões hollywoodianos, que produziram recentemente “Ray (2004)” e “Johnny e June (2005)”, também sobre a vida de consagrados músicos norte-americanos. O diretor Todd Haynes foge dos lugares-comuns ligados à cronologia e à retratação fiel para deixar horizontes abertos sobre a multiplicidade de pensamentos e atitudes de um artista que faz parte do imaginário de milhões de pessoas. Com isso, ao invés de fazer apenas um filme, ele conseguiu criar uma obra-prima.

6 comentários:

fezoca disse...

Perfeito, Demas!

Pra mim esse filme foi puro deleite, tambem porque muitos dos dialogos entre os personagens sao letras das musicas do Dylan. A minha percepcao do formato de I'm Not There eh a de que essa eh a maneira que Dylan se mostrou pra nos, e essa eh a maneira como nos o vemos--um patchwork de personagens e fragmentos. Dylan é um homem so, que nao se mostra nunca, nao esta nem la nem aqui, mas mostra facetas, com as quais nos identificamos e nos apaixonamos.

beijao! :-)

Demas disse...

Fer,
essa percepção dos diálogos/letras eu não tive, justamente por não ser um conhecedor da obra do Dylan como você (de quem me lembrei durante a projeção do filme exatamente por saber que você conhece tuuuuuuudo dele). Ainda assim, essa essência "quebra-cabeça em que muitas peças não se encaixam" foi marcante.

Abraço

Vinícius P. disse...

Gostei desse filme, mas acho que é inferior a todos os outros do Todd Haynes (amo "Safe", "Velvet Goldmine" e "Longe do Paraíso"). Fica a sensação que faltou algo ao final, apesar do belo trabalho técnico. Minha nota foi 8/10. Abraço!

Demas disse...

Vinícius,
também gostei muito de "Longe do paraíso", mas a estética de "Não estou lá" me ganhou no ato.
Abração

Gabriela Morena disse...

Assisti essa semana em dvd por indicação de um amigo.
Adorei tudo, mas a parte da Cate Blanchett foi a melhor de todas.
Pra mim Bob Dylan é tudo aquilo e muito mais, umas horas o que sabe tudo e em outras o que não sabe nada.
Um homem com uma história musical feito a dele jamais poderia ser interpretado por um único ator.

Demas disse...

Gabriela,
com certeza, "Não estou lá" é um dos melhores filmes do ano passado e uma homenagem à altura do grande Dylan. Obrigado pela visita. Volte quando quiser. A casa é sua.
Abração