agosto 22, 2008

"Lemon tree"

O eterno conflito entre israelenses e palestinos já rendeu filmes fortes e tocantes, como o documentário “Promessas de um mundo novo”, de 2001, em que o assunto é tratado a partir do ponto de vista de sete crianças. Ou “Paradise now”, de 2005, com dois homens-bombas sendo questionados sobre os significados e conseqüências de um novo atentado suicida. “Lemon tree” discute a questão novamente, dessa vez a partir de um incidente inusitado (baseado em fato real) e sob a perspectiva feminina.
Salma Zidane (Hiam Abbass) é uma viúva palestina e vive da venda das conservas de limão que produz em casa. Os frutos são colhidos no próprio pomar, plantado pelo pai há mais de 50 anos. O problema é que o limoal também fica ao lado da mansão do ministro da Defesa de Israel, seu mais novo vizinho, e o Serviço Secreto decide que os limoeiros devem ser arrancados por questão de segurança. O terreno é considerado perigoso, podendo servir de esconderijo para ataques terroristas. Mas a coisa ganha vulto quando Salma resolve entrar na justiça para garantir a permanência das árvores que simbolizam sua subsistência e suas raízes. Para a empreitada, ela consegue o apoio do jovem advogado Ziad (Ali Suliman) e está disposta a ir até o fim pelos seus direitos.
Eran Riklis (“A noiva síria”, 2004) poderia ter feito um filme focado (apenas) na questão política, com a batalha judicial representando o enfrentamento das nações rivais. Mas ainda bem que ele foi mais longe. Além da personagem central, o roteiro - assinado pelo diretor e por Suha Arraf - nos entrega outra figura forte e relevante: Mira Navon, a esposa do ministro israelense, interpretada com propriedade pela estreante (e que estréia!) Rona Lipaz-Michael. Sem trocar uma palavra (até por causa da barreira da língua: uma fala hebraico e a outra, árabe), seus olhares - através da cerca que separa suas casas e vidas - falam de cumplicidade e entendimento. Apesar de estarem em lados e situações opostas, elas são mulheres e têm muito em comum: ambas estão longe dos filhos, carregam carências afetivas e vivem sob o mesmo jugo machista. E é esse viés sociocultural que concede grandeza a “Lemon tree”.
Há uma infinidade de contrastes nesses dois universos femininos (como existe também entre os povos que as duas mulheres representam). Uma vive cercada de luxo e segurança (guarda-costas, câmeras e guaritas), à sombra do marido poderoso e sua única preocupação é com a festa de inauguração da mansão ao lado do pomar da discórdia. Já a outra mora sozinha num casebre simples, sem nenhum conforto e tem de dar um duro danado para complementar, com as compotas de limão, a ajuda de US$ 150 que um dos filhos lhe envia dos Estados Unidos. Ainda assim, entre elas se estabelece um clima de afinidade e respeito. E se dependesse das duas, as arestas seriam aparadas de maneira mais simples e cordial. Como na cena em que Salma vira bicho ao ver soldados israelenses colhendo seus limões sem que ela fosse consultada. A viúva considera aquela invasão um ultraje e Mira a compreende, devolvendo-lhe um sensato pedido de desculpas.
Analisando com calma, há razões pertinentes nas atitudes de ambos os lados dos limoeiros. No entanto, é curioso (e sintomático do abismo entre judeus e palestinos) que os vizinhos se enfrentem nos tribunais sem nunca terem conversado sobre o impasse que os aflige. Parece assim que, ao retratar o pomar como uma metáfora da disputa de terra que se arrasta há mais de dois séculos, “Lemon tree” levanta a bandeira de que a intransigência e a falta de diálogo só podem levar ao caos. E a seqüência final é exemplar: terreno de discórdias não dá frutos e a felicidade não pode florescer num lugar tão estéril.
Em tempo: a escolha do elenco foi muita acertada. Da protagonista aos coadjuvantes, o que vemos são atuações comoventes, convincentes e arrebatadoras. Com uma turma assim, fica impossível não mergulhar nessa história de interesses, intolerância e solidão.

4 comentários:

lola aronovich disse...

Parece um filme muito interessante. Vou pegar quando sair em dvd (porque nos cinemas daqui não vai chegar nunca). Abração!

Demas disse...

Lola,
o filme é realmente encantador.
O que essas duas atrizes fazem
em cena é Cinema com "C" maiúsculo.
Abração

Rafael Carvalho disse...

Tenho muita vontade de ver A Noiva Síria, mas sempre deixo pra depois. Agora, com mais um novo filme do mesmo diretor, quem sabe não me animo para ver logo? E verei Lemon Tree assim que chegar em DVD, a temática do conflito entre israelenses e palestinos, quando tratados com originalidade, pode trazer boas coisas.

Demas disse...

E traz mesmo, Rafael. "Lemon tree" é inteligente, intrigante, imperdível.
Abração