julho 18, 2008

"O escafandro e a borboleta"


(Le escaphandre et le papillon, 2007 - Julian Schnabel)
Pode não ser o título mais bacana da história do cinema, afinal a palavra “escafandro” causa uma certa estranheza no primeiro momento. Mas após assistir ao terceiro longa do diretor Julian Schnabel (os anteriores foram “Basquiat - Traços de uma vida” e “Antes do anoitecer”), chega-se à conclusão de que não há substantivos mais apropriados para nomear essa história de solidão e superação em que o peso e a clausura do corpo contrastam com a leveza e a liberdade do pensamento.
Jean-Do Bauby, interpretado com segurança e carisma por Mathieu Amalric, é um profissional conceituado (editor da revista Elle) que, após um acidente vascular cerebral (AVC), perde todos os movimentos corporais, menos os do olho esquerdo. Apesar da gravidade do caso, conhecido como “Síndrome do Encarceramento”, os médicos estão esperançosos, já que o cérebro segue funcionando perfeitamente. A partir dessa constatação, uma equipe de fisioterapia e fonoaudiologia aceita o desafio de criar um método de comunicação que possa acabar com aquele isolamento.
Como “O escafandro e a borboleta” é baseado em um livro de memórias, deduz-se não apenas que o desafio foi vencido, mas que o jornalista conseguiu ir muito além: escrever uma autobiografia usando apenas o piscar de um olho para soletrar as palavras é (quase) inacreditável. E mais impressionante ainda é a quantidade de pensamentos e descobertas que o campo de visão daquela retina passam a suscitar. Aqui, há que se destacar a brilhante adaptação de Ronald Harwood, pois com todos os elementos para criar um drama choroso, o roteiro de “O escafandro...” foge das lágrimas. Emociona sim, sem deixar, no entanto, de revelar o humor e a ironia que permanecem gritantes na vida do personagem central.
No início da projeção, vemos as imagens a partir do ponto de vista (monocular) do paciente, que acaba de sair de um coma. Esse recurso permite que a fotografia de Janusz Kaminski brinque com texturas e cores, explorando ambientes e rostos fora de foco, em enquadramentos “imperfeitos” e inusitados. É interessante a maneira como os coadjuvantes tiveram que atuar, com a cara praticamente colada na lente da câmera, posição imprescindível para interagir com o olhar de Jean-Do.
Os primeiros minutos do filme encerram o espectador nesse universo claustrofóbico do “escanfandrista”, como se quisesse que o seu dilema fosse vivido por quem assiste. Para garantir essa imersão, durante a meia hora inicial, nenhuma trilha incide sobre as cenas, não deixando margem para os devaneios e escapatórias a que a música é capaz de levar. Mas a monotonia cênica logo dará lugar a outros ares fora do ambiente hospitalar. Porque se o corpo do protagonista está preso, sua mente voa solta, resgatando o passado através de flashbacks que reconstroem a trajetória pré-AVC e mostrando imagens que ele inventa a partir dos desejos que ainda vivencia. Assim, memória e imaginação criam o trapolim para que o espectador mergulhe nas qualidades e defeitos desse homem que já foi casado, é pai relapso e filho afetuoso. Aliás, as cenas com (o velho e bom) Max von Sydow são brilhantes. E o elenco feminino - capitaneado pelas atrizes Emmanuele Seigner (ex-esposa), Marie-Josée Croze (fonoaudióloga) e Anne Consigny (assistente de redação) - também é responsável por muitos momentos emocionantes.
Não apresentar o jornalista como mocinho nem coitadinho é outro grande trunfo desse trabalho de Julian Schnabel. Por isso e também pelo fato de apenas o público conhecer os pensamentos de Jean-Do, há uma aproximação e identificação imediata com as situações e sentimentos retratados na tela, o que torna bem fácil entender porque um escafandrista pode voar.
Em tempo: o filme - que começa com a clássica “La mer”, na voz de Charles Trenet - termina com a belíssima “Green Grass”, interpretada por Tom Waits. Mas só vai ouvi-la quem ficar acompanhando os créditos até o finalzinho.

julho 15, 2008

"Desejo proibido"

(If these walls could talk 2, 2000 - Jane Anderson, Martha Coolidge e Anne Heche)
Produzido pela HBO Films, "Desejo proibido" conta três histórias de amor entre mulheres, intituladas pela época em que se passam ("1961", "1972" e "2000"). Cada parte tem elenco e direção distintos. Em comum, só a casa em que vivem as personagens. Apesar da imagem mais conhecida do filme ser a da capa acima, o episódio com Vanessa Redgrave (que levou o Emmy e o Globo de Ouro de atriz coadjuvante por essa atuação) é - para mim - o melhor. Ao retratar a dor de perder um amor no início da década de 1960, sem poder revelar sentimentos e lágrimas, a atriz dá um show de interpretação, tanto nas cenas de carinho (contracenando com Marian Seldes) como nas de indignação (com Paul Giamatti e Elizabeth Perkins). "1972" tem Michelle Williams (de "O segredo de Brokeback Mountain") e Chloe Sevigny (de "Brown Bunny" e "Meninos não choram") envolvidas com o feminismo xiíta dos anos 70 e o preconceito em torno das butches (mulheres que se vestem de forma mais masculina). Já o episódio final traz o dia-a-dia de Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) às voltas com o desejo de uma gravidez e as peripécias para atingir esse objetivo. Conclusão? A primeira parte vale o filme.

julho 13, 2008

"Sex and the city - O filme"

(Sex and the city, 2008 - Michael Patrick King)
Devo ser o único habitante do planeta que nunca viu um episódio sequer da série americana que deu origem a esse filme. Pois foi assim, sem conhecer nenhuma das famosas personagens, que fui assistir à versão-tela-grande de "Sex and the city", que continua a retratar a trajetória das quatro amigas inseparáveis a partir do ponto em que a tv parou de contar. Carrie (Sarah Jessica Parker) é uma escritora bem sucedida que resolve entrar para o time das casadas. Samantha (Kim Cattrall) é a femme insaciável segurando a onda e os desejos em função de uma união pautada pela gratidão. Miranda (Cynthia Nixon) vê o casamento indo para o ralo, principalmente depois de uma traição confessada. E, por fim, Charlotte (Krinstin Davis), a única a ter um relacionamento feliz, apesar da frustração de não conseguir engravidar. As situações criadas para ligar as vidas dessas personagens são mesmo interessantes e prendem a atenção com boas tiradas de humor sutil e inteligente... até o momento que a Carrie sofre uma grande decepção no dia do casamento. A partir daí, o filme perde o ritmo e a classe, com piadinhas bobas e infames. Para a mulherada, o desfile de modelitos é, com certeza, um grande atrativo que vai até a cena final.

"Homem de Ferro"

(Iron Man, 2008 - Jon Favreau)
É interessante que, justamente numa ficção baseada nos quadrinhos da Marvel, Robert Downey Jr. tenha encontrado munição para construir um personagem bem verossímil, numa grande atuação, talvez a melhor do ator. Confesso que o Homem de Ferro nunca foi meu herói preferido, mas essa produção do Jon Favreau conseguiu engrandecê-lo, superando inclusive o desafio nada fácil de prender a atenção do público ao contar a origem do super-herói, haja vista que, nesse gênero, as pessoas querem mais é ver ação. Com certeza, o caráter ambíguo de Tony Stark - um jovem bilionário da indústria bélica, inventor genial, sempre cercado por belíssimas mulheres que ele trata como brinquedinhos descartáveis - é um prato cheio para que Downey explore as contradições morais do personagem. Preso por terroristas para construir uma poderosa arma nuclear durante a Guerra do Iraque, ele cria uma armadura-de-aço-voadora que, passa a usar, ironicamente, para combater o crime e as guerras que seu negócio sempre ajudou a alimentar. As cenas em que Stark está aperfeiçoando e testando as potencialidades do "uniforme" do Homem-de-Ferro são hilárias, com explosões, tombos e curtição por parte dos robôs-auxiliares. Jeff Bridges está bem como o vilão do filme, apesar do seu monstrengo pra lá de over nos instantes finais.

julho 11, 2008

"Wall-E"

(Wall-E, 2008 - Andrew Stanton)
Depois da recente e polêmica produção do diretor indiano M. Night Shyamalan ter abordado uma reação de auto-proteção da natureza para salvar o planeta da ação predatória do homem, eis que chegou às telas brasileiras, na semana passada, um outro longa que toca no assunto. Só que dessa vez, o mundo já está inabitável, sem uma forma de vida sequer. Mas sabe o que é mais interessante? O filme em questão é (mais) uma célebre animação da Pixar (isso mesmo, desenho animado), responsável por sucessos como “Toy Story”, “Monstros S/A”, “Procurando Nemo”, “Os Incríveis” e “Ratatouille”.
“Wall-E” começa com uma panorâmica do que parece ser uma grande metrópole com seus incontáveis e gigantescos arranha-céus. À medida que o plano vai-se fechando, percebemos que os edíficios são, na verdade, imensas torres de lixo. Em seguida, vemos um pequeno e solitário robô (que lembra o E.T. de Spielberg, com seus olhos grandes, pescoço longo e corpo compacto) , envolvido numa rotina diária de limpar a sujeira que os humanos acumularam na Terra, até esgotarem todos os recursos naturais e partirem numa viagem espacial a bordo da astronave Axioma, com o propósito de dar um tempo para o meio ambiente se recuperar e os robôs limparem tudo. Detalhe: já se passaram mais de 700 anos, nenhuma forma de vida foi detectada e Wall-E é a única máquina que ainda resiste.
Enquanto recolhe e compacta os entulhos, ele separa objetos que lhe parecem úteis ou trazem lúdicas lembranças, como isqueiros, lâmpadas, brinquedos, peças eletrônicas, etc. Mora numa espécie de conteiner, tem uma baratinha como amiga e adora assistir ao vídeo do musical “Alô, Dolly”, de 1969, com Barbra Streisand e Walter Matthau. É, o robozinho é de uma sensibilidade que vai divertir a criançada e encantar os marmanjos. E é essa sua rotina... até o dia em que uma nave pousa na cidade e deixa um moderníssimo robô-fêmea (Eva) com a missão de rastrear aquela região em busca de vida. Desconfiada e temperamental, ela vai cair nas graças de Wall-E. Juntos, eles irão protagonizar uma história de aventura, amor e descobertas que transformará a vida na Terra.
O que primeiro chama a atenção na nova animação da Pixar é a quase-ausência de diálogos. Nos primeiros 20 minutos, não há nenhum. E mesmo depois, eles se restrigem ao essencialmente necessário. Como no clássicos do cinema mudo, a interação surge em situações corriqueiras, que vão fazendo graça e arrancando risos à medida que desvendam o dia-a-dia dos personagens. É assim, por exemplo, quando o robozinho quase atropela sua baratinha de estimação ou quando Wall-E tenta fazer com que a superpoderosa (e igualmente desajeitada) Eva dê um giro em torno de si mesma, como fazem os dançarinos do seu musical preferido. Tanto silêncio numa produção inicialmente voltada para o público infantil parece ter sido uma decisão arriscada, mas - logo se percebe - perfeitamente sintonizada com a falta de comunicação e laços dos humanos do século XXIX, retratados como pessoas sedentárias, solitárias, que só se comunicam através dos meios eletrônicos, absurdamente influenciadas pela publicidade e muitíssimo consumistas. Qualquer semelhança com a atualidade não é mero acaso.
E o longa do diretor Andrew Stanton (o mesmo de “Procurando Nemo”) segue surpreendendo. É só ficar atento aos detalhes. Quando Wall-E assiste a “Alô, Dolly” pela primeira vez, o colorido do musical constrata com a monocromia do cenário daquele mundo desolado, onde predominam os tons terrosos do pó e da ferrugem. Já na astronvae onde “vegetam” os humanos, o set ilumina-se com as cores artificiais de uma existência fabricada. A trilha sonora - que conta com a participação do politicamente correto Peter Gabriel, compositor e intérprete da bela “Down to Earth” que encerra o desenho - também sinaliza que estamos diante de um produto diferente e diferenciado. Ao invés das costumeiras melodiazinhas melosas, ouvimos “La vie en rose” na voz de Louis Armstrong; duas ou três canções do já citado “Alô, Dolly”; e “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, em mais uma referência a “2001 – Uma odisséia no espaço”, sendo o robô que tenta controlar a Axioma a mais evidente delas. Por sua vez, as vozes de Wall-E e Eva remetem ao R2-D2 de “Guerra nas estrelas”.
Para a criançada, que não pega a maioria dessas alusões, fica uma linda história com foco no respeito à natureza e na ação transformadora da solidariedade, temas bastantes caros atualmente. Não fosse isso já suficiente, ainda há bastante diversão, que - na segunda metade do longa - fica a cargo das trapalhadas de Wall-E dentro da ultra-sofisticada nave espacial e dos amigos desajustados que ele encontra enquanto tenta escapar de uma perseguição. Por tudo isso e por tantas outras citações e cenas memoráveis (que eu deixo para você descobrir), o novo filme da Pixar é um marco da animação (e do cinema!). E já nasce com cara de clássico.

Quando o corpo pesa, a mente voa

Já imaginou um bom vivant, cercado de badalações e belas mulheres que, de uma hora para a outra, descobre-se com uma paralisia que só lhe permite mexer um olho? Complicado, não é? E se eu lhe disser que essa pessoa é real e ainda encontrou motivos para rir? Não acredita? Pois assista logo ao filme do Julian Schnabel que está em cartaz nos melhores cinemas do Brasil e você vai ver como a memória e a imaginação fizeram um escafandrista voar. Se quiser saber um pouquinho mais, clique aqui.

julho 04, 2008

O brilhante fim-dos-tempos da Pixar

Depois da recente e polêmica produção do diretor indiano M. Night Shyamalan ter abordado uma reação de auto-proteção da natureza para salvar o planeta da ação predatória do homem, eis que chegou às telas brasileiras, na semana passada, um outro longa que toca no assunto. É "Wall-E", a nova animação da Pixar, que faz referências a clássicos como “E.T”, “Guerra nas Estrelas” e “2001 - Uma odisséia no espaço” e já nasce com cara de clássico. Leia mais aqui.

"1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil"

(idem, 2008 - José Carlos Asbeg)
A semana passada foi marcada pela comemoração dos 50 anos da conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil. Não poderia, pois, haver programa mais apropriado do que assistir ao documentário do jornalista e (agora) cineasta José Carlos Asbeg. Mesmo não sendo um fã ardoroso do esporte, fiz questão de marcar presença (numa sessão com pouco público, diga-se de passagem): eu não seria louco de perder um filme que tem no elenco artistas como Garrincha, Didi, Pelé e Vavá (só para citar alguns) e que celebra o nascimento do futebol-arte, filho daquela que é considerada, quase unanimemente, a melhor seleção brasileira de todos os tempos.
“1958...” mostra como foi desatado o nó-na-garganta dos torcedores e jogadores daquela época. Depois de estar presente nas duas finais mundiais anteriores e sair como vice, o Brasil partia para a Suécia desacreditado, desconfiado, temeroso. Era o complexo de vira-latas, definido por Nelson Rodrigues como o sentimento de inferioridade que tomava conta do brasileiro quando entrava em contato com a força e a cultura dos países desenvolvidos. A expectativa era de que, mais uma vez, a seleção fosse amarelar na hora de decidir. O que se viu, no entanto, foi um time valente e criativo, com uma vontade ferrenha de trazer para casa o título inédito de melhor do mundo.
E aquele ano mostrava-se bem significativo: Juscelino Kubitschek era o presidente do crescimento e do progresso; a Brasília de Niemeyer e Lúcio Costa estava em construção; a música brasileira transformava-se com a cadência suave da Bossa Nova; e as bases do Cinema Novo - que ganharia o mundo em pouco tempo - já agitavam as idéias dos nossos cineastas. Tudo apontava para a verdadeira descoberta do Brasil. Mas seriam os pés dos brasileiros - com sua magia ao tocar uma bola - os primeiros a revelar aos quatro cantos a existência de uma grande nação verde-amarela ao sul do Equador.
Para falar do que significou erguer a Taça Jules Rimet em 29 de junho de 1958, o filme começa com as imagens da conquista (atenção para a abertura, com a câmera passeando por um painel cheio de autógrafos e recortes de jornais, que exaltam o baile que os jogadores-artistas deram nos seus adversários). Depois, recua no tempo, voltando a 1950, quando o Uruguai derrotou a seleção brasileira em pleno Maracanã, libertando o fantasma que assustaria o Brasil pelos próximos oito anos. Narrando toda a história, do descrédito ao triunfo, estão os protagonistas do espetáculo (claro!). São os depoimentos de Nilton Santos, Dino Sani, Mazzola, Zagallo, Zito, Moacir e Djalma Santos, entre outros, que conduzem o filme de Asbeg, ao som de uma trilha eclética que mistura valsa de Strauss com marchinha brasileira e pontua os muitos sentimentos provocados pelas lembranças emocionantes que vão surgindo ao longo dos seus 90 minutos de duração. E por falar em emoção, a cena em slow motion da caminhada do ‘príncipe’ Didi, do fundo de rede até o centro do gramado, com a bola debaixo do braço, após a Suécia ter inaugurado o marcador em Estocolmo, é espetacular: sua atitude serena consegue traduzir perfeitamente o peso da responsabilidade e a busca do equilíbrio que faria o time virar o placar.

Não bastassem todos os detalhes descritos por quem participou ativamente do enredo daquele mundial, o diretor (como bom jornalista) quis ouvir a versão dos derrotados e viajou para o exterior a fim de entrevistar jogadores de todos os times que o Brasil enfrentara: Áustria, Inglaterra, União Soviética, País de Gales, França e Suécia. E se você pensa que os depoimentos foram só ovação, está enganado. Há a queixa de um francês sobre o lance que tirou o zagueiro Robert Jonquet do jogo pela semifinal e deixou a França com um jogador a menos, uma vez que a substituição não era permitida. Outro bom momento - e, dessa vez, engraçado - é quando um jogador soviético conta sua reação após a derrota por 2x0: arremessou a chuteira contra o armário do vestuário, dizendo “Não jogo mais. O que jogamos não é futebol. Futebol é o que eles jogam”. Isso tudo por causa dos dribles desconcertantes do genial Mané Garrincha, que ignorou a marcação dos russos e executou jogadas memoráveis que entraram para os anais do futebol e não saem da memória de quem as viu (ou está vendo agora).
Revezando imagens das partidas e dos entrevistados (também foram ouvidos jornalistas e dirigentes de então), Asbeg constrói um filme didático, em que o público acompanha os detalhes de cada jogo, na sequência em que eles aconteceram mesmo. E isso não é defeito - que fique claro - pois até ajuda o cinéfilo que não é apaixonado por futebol a compreender a grandiosidade do que ocorreu naquela copa do mundo. Na verdade, bem mais do que recuperar uma história de chutes e gols, “1958...” conta uma epopéia de transformações. Afinal, não se pode esquecer que aqueles craques partiram do Brasil como “vira-latas” e regressaram como heróis.
Em tempo: muito tem-se falado sobre a ausência de depoimentos de Pelé no longa de estréia de José Carlos Asbeg. Se a questão foi de agenda ou de cachê, não importa. As imagens do garoto de 17 anos demonstram muito bem o talento que o mundo passaria a conferir e idolatrar a partir dali. E falam por si.

junho 27, 2008

"Fim dos tempos"

(The happening, 2008 - M. Night Shyamalan)
Apesar de ter feito dois filmes antes de “O sexto sentido (1999)”, M. Night Shyamalan só surgiu para o grande público com a história do garoto que enxergava os mortos. No entanto, o sucesso alcançado na ocasião não voltou a se repetir na carreira do diretor. E olha que a sua produtividade é alta: em nove anos, realizou outros cinco longas. “Corpo Fechado”, “Sinais”, “A vila” e “A dama na água” dividiram opiniões, que foram do amor ao ódio com igual intensidade. A mesma coisa está ocorrendo agora com o seu recém-lançado “Fim dos tempos”.
E sabe qual é o problema que ele enfrenta? Estão levando a sério demais uma proposta de entretenimento de Shyamalan. Isso mesmo: “Fim dos tempos” é para ser curtido como um bom suspense e ponto. Não quer discutir teorias, mostrar efeitos especiais mirabolantes, nem apresentar nada incrivelmente novo. É diversão para quem se dispuser a entrar na brincadeira. De que outra maneira encarar o pretenso herói (o professor de Ciências) que - ao invés de investigar um fenômeno extraordinário - opta for fugir e, ainda por cima, conversar com as plantas? Justo ele que, em sala de aula, instiga os alunos a buscar respostas para estranhas ocorrências da natureza! E o que dizer de situações patéticas como a da esposa que esconde do marido a “grande traição” de ter tomado uma sobremesa com um colega de trabalho e ainda faz citação à perseguição psicótica da personagem de Glenn Close em “Atração fatal”? É tudo propositalmente bobo, às vezes fora mesmo do contexto de um suspense/terror. Mas vamos à história.
Estrelado por Mark Wahlberg (“Os donos da noite” e “Os infiltrados”), que interpreta o tal professor, o filme está centrado num estranho acontecimento: contaminados por uma toxina que destrói neurotransmissores relacionados ao instinto de sobrevivência, cidadãos norte-americanos passam a protagonizar um suicídio coletivo. Parece absurdo? Há um personagem que ratifica essa impressão ao dizer que achava que já tinha visto de tudo nesse mundo (olha o Shyamalan desbancando a seriedade outra vez). Como não poderia deixar de ser, terrorismo e armas químicas são as primeiras suspeitas. Mas a proporção descomunal com que o ataque é executado leva a outra hipótese. A tal substância venenosa estaria vindo das plantas, em resposta à depredação contínua e crescente do meio ambiente, numa espécie de mecanismo de proteção ao planeta, que elimina quem coloca o equilíbrio dos ecossistemas em risco. É uma premissa curiosa e instigante. E gera cenas incríveis que - se não chegam a causar pânico - provocam grande desconforto e atestam que a criatividade do diretor segue em alta: os corpos caindo do edifício e as mortes no asfalto em "efeito dominó" são dois exemplos emblemáticos. Na verdade, o ponto de partida da história é tão genial que bastam alguns minutos para que o público esteja completamente envolvido.
Bem no início de “Fim dos tempos”, enquanto a série de suicídios está ocorrendo, Elliot discute com seus alunos o desaparecimento da população de abelhas. A dedução de um dos pupilos é curiosa: os cientistas encontrarão uma resposta, mas daí a provar que ela é 100% pertinente já é outra história. Pois é esse caminho que os próximos 80 minutos de projeção irão trilhar. Shyamalan quer seduzir a platéia sem se preocupar em desvendar o mistério. Assim, vão sendo derrubadas todas as possibilidades de entendimento do fenômeno suicida, como aquela de que o ataque se daria somente onde existisse um grande número de pessoas. Destruído esse raciocínio, o suspense aparece até mesmo quando uma criança se diverte no balanço amarrado a um galho de árvore. É inevitável não esperar pelo instante em que a inocente brincadeira poderá despertar a ira da natureza.
Já nos momentos finais, quando parece não existir mais lugar seguro para se proteger, entra em cena uma senhora que vive isolada, morando sozinha, sem energia elétrica ou qualquer indício de comunicação. É nesse derradeiro oásis de proteção que a última certeza sobre a ação da misteriosa toxina será desmantelada, restando ao espectador render-se às seqüências de medo criadas dentro das quatro paredes daquela casa “quase” assombrada. E me parece ser apenas isso o que Shyamalan deseja com seu “Fim dos tempos”: criar tensão e, se possível, garantir alguns sustos, sem maiores comparações com o grande mestre que ele segue homenageando. E por falar nisso, dessa vez, sua participação hitchcockiana é apenas com a voz. Fique atento.

junho 25, 2008

" A enguia"


(Unagi, 1997 - Shohei Imamura)
Um esposo traído. Uma jovem que ama um homem casado. Emocionalmente perdidos e feridos, essa dupla se conhece no subúrbio de Tóquio: ele tentando recomeçar longe de tudo e de todos; ela querendo pôr um fim na vida. É o encontro da armadura de um com a fragilidade da outra, da dureza dele com a doçura dela. Que uma transformação virá, fica claro desde o início. Mas Imamura vai construindo sua história sem concessões, sem saídas fáceis. Os empecilhos para a (possível) felicidade surgem ininterruptamente... E a enguia com isso? Vamos a um pouco de biologia: é um peixe que se desloca com facilidade, migra dos riachos doces para o salgado mar, consegue viver em águas pouco oxigenadas, camufla-se junto a plantas e pedras... No filme, não por acaso, a enguia é o animal de estimação do homem que está buscando se adaptar a uma nova vida. Qualquer analogia não é mera coincidência e uma última semelhança é revelada no final do longa. A atuação de Kôji Yakusho (mais conhecido por "Babel" e "Memórias de uma gueixa") é perfeita, construindo um personagem que está sempre no limite, seja da violência, do ciúme ou da entrega, mas que ganha a cumplicidade do público já nas primeiras cenas. "A enguia" dividiu, em 1997, a Palma de Ouro em Cannes com o excelente e intrigante "Gosto de cereja", do mestre do cinema iraniano Abbas Kiarostami.

PS: Como parte das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, o Cinemark (!) do Shopping Santa Cruz (SP) levou ao público, de 13 a 19 de junho, um Festival de Cinema Japonês a preços populares (!!): R$ 4. [(!) porque o Cinemark só costuma exibir blockbusters. (!!) porque o preço dos ingressos lá (e em outras redes) é um absurdo. Cinema tinha de ser um entretenimento acessível e não a alternativa elitista que se tornou]. Mas voltando ao festival: foram exibidos "Ninguém pode saber (Hirokazu Kore-eda)", "O castelo animado (Hayao Miyazaki)", "Água quente sob uma ponte vermelha (Shohei Imamura)", A enguia (Shohei Imamura)", "Postman Blues (Hiroyuki Tanaka)", "Escola do Riso (Mamoru Hoshi)" e "O samurai do entardecer (Yoji Yamada)". Queria ter assistido aos quatro últimos (que eu ainda não conhecia). Vi três.

junho 20, 2008

Quem tem medo do Shyamalan?

Mark Wahlberg amedrontado em "Fim dos tempos"
Depois de "O sexto sentido", todo filme de M. Night Shyamalan vem provocando celeuma e controvérsias. Não está sendo diferente com "Fim dos tempos", que estreou mundialmente há uma semana. Só que dessa vez, as críticas parecem superar - com folga - os índices negativos de "Sinais" (aquele com extraterrestres), até então o mais achincalhado dos filmes do diretor indiano. Quer saber o que eu acho disso? Clique aqui.

"O Signo da Cidade"

(O Signo da Cidade, 2007 - Carlos Alberto Riccelli)
Quem anda pelas ruas de São Paulo percebe a mistura de constrastes que envolve essa bela e assustadora cidade. Os sinais mais evidentes, até por estarem sempre nas manchetes, são a violência, a poluição, os engarrafamentos monstruosos, a desigualdade social, o corre-corre da população, etc. Um olhar mais atento registra também a beleza dos seus parques, a qualidade e variedade da sua culinária, a riqueza da sua arquitetura, as incontáveis opções culturais, a agitação das suas noites-sem-fim, a generosidade dos paulistanos... E essa ambigüidade que - para o bem e para o mal - compõe a diversidade de Sampa é a força motriz de “O Signo da Cidade”.
Escrito e estrelado por Bruna Lombardi (cada vez mais bela) e dirigido por Carlos Alberto Riccelli, o filme é um instigante drama sobre os altos e baixos de um grupo de pessoas que - por um motivo ou outro - tem seus destinos entrelaçados. Ao se cruzarem, essas tantas vidas vão tecendo uma extensa malha de pequenas solidões, frustrações e angústias, representadas por separações, suicídio, dificuldades financeiras, doença, depressão, preconceito, aborto, traições, conflitos familiares e mais uma infinidade de desventuras.
Por tudo isso, fica evidente que o clima de “O Signo da Cidade” é pesado (e é mesmo!). E muitos elementos colaboram para passar essa idéia de sufoco e desespero: a fotografia com pouca luz em inúmeras cenas; o desconforto dos pequenos espaços (estúdio da rádio, camarim da casa de shows, quarto de hotel imundo, sala entulhada de objetos, etc); a câmera que (quase nunca) se distancia dos atores; as locações escuras dos becos e ruas... No entanto, em função da premissa que norteou o roteiro, de que todas as coisas estão interligadas e nada acontece por acaso, os momentos de solidariedade e transformação vão ganhando mais destaque à medida que o final se aproxima, convertendo-se numa aposta otimista dos seus realizadores diante da realidade cruel, individualista e cinzenta que segue reinando no iluminado século XXI.
O elenco - que mistura nomes conhecidos (Bruna Lombardi, Eva Wilma, Ana Rosa, Juca de Oliveira, Denise Fraga, Malvino Salvador, Graziella Moretto, Fernando Alves Pinto, Luís Miranda) a jovens talentos - é muito feliz ao abraçar com igual interesse as virtudes e imperfeições dos seus personagens. O fato de não serem totalmente bons ou maus, certos ou errados, confiantes ou inseguros auxilia na idenficação, fazendo com que o público se veja em muitas daquelas situações. E isso é um mérito inconstestável do filme, talvez o que mais contribua para render os elogios que vem recebendo de crítica e público.

junho 19, 2008

Liga escolhe os melhores dos anos 2000

David Lynch na frente com "Cidade dos Sonhos"
Há algumas semanas, a Liga dos Blogues Cinematográficos pediu a seus integrantes que escolhessem os 20 filmes mais significativos da década atual. Ontem, o resultado foi publicado no site da LBC, que acabou divulgando os 50 mais bem votados. Sem sombra de dúvidas, uma lista de grandes referências. Dos escolhidos, não assisti a "Amantes constantes" (6º), "Reis e rainhas" (15º), "Mal dos trópicos" (21º), "O singo do caos" (40º), "Santiago" (47º) e "Adeus, Dragon Inn" (49º).

No topo da minha lista: Manoel de Oliveira com "Um filme falado"

Confira abaixo os meus 20 indicados. Em vermelho, a posição que o filme conquistou no resultado final. O traço (-) significa que o longa ficou de fora na opinião dos votantes.

1. Um filme falado / Manoel de Oliveira (13)
2. Amor à flor da pele / Wong Kar-Wai (9)
3. Ninguém pode saber / Hirokazu Kore-eda (-)
4. Tudo ou nada / Mike Leigh (-)
5. O segredo de Brokeback Mountain / Ang Lee (22)
6. Cidade dos sonhos / David Lynch (1)
7. Antes do pôr-do-sol / Richard Linklater (3)
8. Promessas de um novo mundo / Bolado, Goldberg e Shapiro (-)
9. Brilho eterno de uma mente sem lembranças / M. Gondry (25)
10. Lady Chatterley / Pascale Ferran (38)
11. Dolls / Takeshi Kitano (35)
12. Elefante / Gus van Sant (2)
13. Caché / Michael Haneke (8)
14. Dogville / Lars von Trier (18)
15. Não estou lá / Todd Haynes (12)
16. Estamos bem mesmo sem você / Kim Rossi Stuart (-)
17. Moulin Rouge! / Baz Luhrmann (-)
18. Medos privados em lugares públicos / Alain Resnais (28)
19. Kill Bill: vol.1 / Quentin Tarantino (5)
20. Menina de ouro / Clint Eastwood (23)

junho 12, 2008

"Longe dela"

(Away from her, 2006 - Sarah Polley)
Ainda que uma cena importante de “Longe dela” evoque a primavera, a estação que predomina na estréia da jovem Sarah Polley como diretora é o inverno, com o gelo cobrindo e escondendo os campos, impondo sua (quase) completa monocromia. Não poderia haver cenário mais apropriado para contar uma história de perda e solidão.
Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie) estão juntos há mais de 40 anos. Esse relacionamento - que já passou por várias intempéries - enfrenta agora um inimigo cruel: o esquecimento. Ela está com a doença de Alzheimer e os sintomas começam a se acentuar, o que leva o casal a tomar a decisão de interná-la. Mas uma norma da clínica vai acelerar o inevitável: o paciente não pode receber visitas durante os 30 primeiros dias. Quando Grant retorna, Fiona já não o reconhece. Para piorar as coisas, ele percebe o interesse dela por um outro interno. E enquanto a esposa vai perdendo todas as lembranças, o marido se agarra a cada uma delas para continuar vivendo e lutando.
“Longe dela” é um filme de emoções fortes, construído em cima de uma montagem que vai e vem no tempo para revelar verdades, segredos, angústias e esperanças. Começa com Grant indo até a casa de Marian (Olympia Dukakis), cujo esposo Aubrey (Michael Murphy) é o objeto da paixão de Fiona. O motivo daquela visita é apenas uma mostra do que ele é capaz de fazer para proteger a amada. A partir dali, presente e passado se revezam para construir esse drama encantadoramente triste, baseado em um conto da canadense Alice Munro e adaptado pela própria diretora. Aliás, Sarah Polley - conhecida por suas atuações em “A vida secreta das palavras”, “Minha vida sem mim” e “O doce amanhã” - surpreende nesse primeiro trabalho atrás das câmeras pela profundidade e delicadeza com que mergulha em temas tão densos: na época das filmagens, ela tinha apenas 26 anos.
Julie Christie levou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar por seu desempenho cheio de sutilezas ao retratar a montanha-russa de sentimentos de Fiona. No entanto, Grant também é uma grande criação do ator Gordon Pinsent, num contra-peso perfeito à atuação da colega. Não falar da interpretação contida e, ainda assim, tão eloqüente de Michael Murphy seria injusto: apesar de Aubrey não pronunciar sequer uma palavra, seu olhar passa toda a carência, dependência e vazio que o personagem está sentindo.
Portanto, é seguro e coerente afirmar que a escolha do elenco foi o grande acerto para o sucesso de “Longe dela”. Pinsent e Christie constroem seus personagens com tanta verdade que, em pouco tempo de projeção, o público já se torna cúmplice (ou seria refém?) daquele sonho de reconquista e recomeço. E olha que a história não dá colher de chá. Ainda que algumas situações arranquem risos, o foco está na resignação, no arrependimento e na dor.
Prova disso é a bela cena em que Grant lê para Fiona os poemas de “Cartas da Islândia”, referência à terra natal da esposa. O título do livro já deixa claro que a tentativa de resgatar lembranças é vã. Islândia significa “Terra do gelo”. Ao pé da letra, é como se tudo que viesse de lá pertencesse ao frio, ao passo que a batalha em questão é pelo calor da paixão e o aconchego das recordações. Para encerrar o longa com chave de ouro, a canção “Helpless” - belíssima versão de k.d. lang para a composição de Neil Young - entra com os créditos finais, traduzindo com perfeição a melancolia e o desamparo que rondam todas as cenas do filme.

junho 10, 2008

Os mais procurados

Nas últimas duas semanas, cerca de 75% das pessoas que visitaram este blog vieram buscar informações sobre dois filmes que são muito especiais para mim. Um deles é "A festa de Babette" (já comentado aqui e integrande da minha lista de filmes subestimados). O outro - que recebeu meu voto para figurar entre os melhores dos anos 2000 na enquete da LBC - é "Promessas de um novo mundo" e aborda o conflito Israel/Palestina a partir do olhar e das emoções de um grupo de crianças. Os dois são produções magníficas que, no entanto, ainda são pouco conhecidas do grande público. "Babette" foi ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 1988 e "Promessas" foi indicado pela Academia a melhor documentário em 2002.

junho 05, 2008

"Não estou lá"

(I'm not there, 2007 - Todd Haynes)
Ao sair do cinema, cheguei a pensar em não tecer comentários a respeito de “Não estou lá”. Afinal, não sou um grande conhecedor da obra de Bob Dylan. Mas um filme não deve ter vida própria, independentemente do que o público conheça a respeito do que ele quer contar? Os bons, sim! E o de Todd Haynes pertence a essa categoria.
Primeiramente porque é instigante e criativa a idéia de escalar vários atores para viver o mesmo personagem, representando características e fases distintas, transformando a vida do músico num gigantesco quebra-cabeça. E ainda que muitas peças não se encaixem, o resultado é inacreditavelmente esplêndido. Porque ao olhar para o que já foi montado, pode-se perceber outras tantas possibilidades devido às lacunas deixadas.
A edição primorosa de Jay Rabinowitz mistura todas as facetas do cantor norte-americano sem, no entanto, deixar que as percamos de vista um só momento. Para cada uma delas, o fotógrafo Edward Lachman cria um registro específico, com imagens coloridas, em preto-e-branco, contemplativas, frenéticas, granuladas e envelhecidas. Assim, o público identifica e acompanha trajetórias que vão do folk ao rock’n’roll, da família às drogas, do engajamento político à poesia, da popularidade à reclusão. Mas Dylan não é só isso, o que Haynes deixa bem claro já no título do filme: apesar das inúmeras referências, o músico não está plenamente retratado ali.
Toda essa riqueza conceitual poderia não chegar aonde deveria se não tivesse um elenco de peso para traduzi-la em atuações e caracterizações inspiradas, especialmente Cate Blanchett (indicada ao Oscar de coadjuvante pelo papel) e Christian Bale. Mas também estão muito bem o garoto Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Ben Whishaw (de “Perfume: a história de um assassino”) e Heath Ledger. Embaladas pelas canções de Dylan (a maioria delas interpretada pelo próprio compositor), as histórias defendidas por cada um desses atores ganham em peso, graça, emoção e envolvimento.
“Não estou lá” é, por tudo isso, uma cinebiografia rara, pelo menos no que diz respeito aos padrões hollywoodianos, que produziram recentemente “Ray (2004)” e “Johnny e June (2005)”, também sobre a vida de consagrados músicos norte-americanos. O diretor Todd Haynes foge dos lugares-comuns ligados à cronologia e à retratação fiel para deixar horizontes abertos sobre a multiplicidade de pensamentos e atitudes de um artista que faz parte do imaginário de milhões de pessoas. Com isso, ao invés de fazer apenas um filme, ele conseguiu criar uma obra-prima.

junho 01, 2008

"Estômago"

(Estômago, 2007 - Marcos Jorge)
A história do cinema é rica em filmes que têm a arte da gastronomia como principal tempero para seus enredos. Do macabro “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (Peter Greenaway, 1989)” ao fantasioso “Como água para chocolate (Alfonso Arau, 1992)”, do cômico “Ratatouille (Brad Bird, 2007)” ao comovente “A festa de Babette (Gabriel Axel, 1987), a lista é extensa e de conteúdo bem variado para satisfazer todos os gostos. “Estômago”, a estréia em longa-metragens do diretor Marcos Jorge, mistura elementos de todas essas películas para abordar a influência nefasta do poder sobre a alma humana.
O filme conta a história de Raimundo Nonato (João Miguel em mais um grande momento), nordestino que chega faminto à cidade grande com a esperança de mudar de vida. Ele traz do sertão a ingenuidade de quem busca companheirismo e solidariedade. Encontra maus-tratos e exploração. Sem saída, aceita trabalhar num botequim de quinta a troco da alimentação e de um quartinho imundo para dormir. Mas ali descobre seu dom: começa fazendo coxinha de frango e, pouco tempo depois, já é aprendiz de chef em um restaurante italiano.
No entanto, não é só de fome de comida que o filme trata. Tem apetite sexual de sobra na história. E aqui há que se abrir um parêntese para a atuação de Fabiula Nascimento na pele da garota de programa Íria, que está sempre mastigando, gerando situações inacreditavelmente cômicas, bem como a sede de vingança que colocará o inocente Nonato na cadeia. Confinado, ele adota o nome de Alecrim (erva com a qual faz verdadeiros milagres) e vai descobrir que naquela cela também existe humilhação e, principalmente, hierarquia. O que vemos a partir de então é o resultado de uma edição inteligente, que vai e volta no tempo, aproveitando muito bem os elementos cênicos e narrativos que permitem ligar as distintas histórias do personagem (antes e depois da prisão) até chegar aos desfechos idênticos, com a conquista de prestígio, ascensão e poder.
A transformação é mesmo a tônica de “Estômago”, seja ela referente aos alimentos ou às pessoas. E é a composição de João Miguel para o humilde nordestino com pretensões gastronômicas que confere aquela pitada criativa, capaz de fazer um prato saboroso e requintado a partir da combinação de ingredientes triviais . Quem assistiu a qualquer um dos seus filmes – como “Cinema, aspirinas e urubus” ou “O céu de Suely” – sabe ao que estou me referindo. Na fala dele, o texto ganha melodia, cadência e há graça em praticamente todas as cenas. Tal artimanha acaba conquistando o público que, quando menos percebe, já está aplaudindo a vitória da corrupção do bandido Alecrim sobre a integridade do cozinheiro Nonato.

maio 26, 2008

Demas no SRZD 3

"Estômago": a doce sedução do sabor do poder
Ele é um nordestino humilde e trabalhador em busca da sobrevivência na cidade grande. Parece muito clichê? Ao assistir a "Estômago", você vai perceber que o filme de Marcos Jorge vai muito além disso, dissecando a gênese do poder e o seu lado mais perverso. Para mais detalhes, clique aqui.

"Um beijo roubado"

(My blueberry nights, 2007 - Wong Kar-Wai)
Em trabalhos recentes, como “Amor à flor da pele (2000)” e “2046 - Os segredos do amor (2004)”, Wong Kar-Wai abordou as desilusões amorosas. No primeiro filme, elas são impostas pelas rígidas convenções sociais que pesam sobre a união de um casal de amantes na Hong Kong dos anos 1960. No segundo, o amor não se consuma porque o personagem está, na verdade, atrás de uma mulher do passado. Mas com “Um beijo roubado”, seu primeiro filme com atores não-chineses e todo falado em inglês, o diretor acena para a possibilidade de um desfecho diferente.
A história começa num café em Nova York, onde Elizabeth (boa estréia da cantora Norah Jones como atriz) chega em busca de informações sobre o namorado, freqüentador do local. Certa de que seu romance chegou ao fim, ela deixa as chaves do apartamento com Jeremy (Jude Law), proprietário do estabelecimento, para que sejam devolvidas ao ex. No entanto, a moça acaba retornando ao café todas as noites. Conversa vai, conversa vem, uma torta daqui, uma bebida dali, um vínculo se estabelece entre Elizabeth e Jeremy. Ainda assim, ela decide partir sem destino certo, percorrendo o interior do país enquanto descobre as estradas recônditas de sua própria alma. De cidade em cidade, vai trabalhando como garçonete, conhece outras histórias de solidão e prepara o caminho de volta para a alegria e os novos sonhos.
Por se transformar numa espécie de road-movie na sua segunda metade, “Um beijo roubado” abandona os ambientes fechados e opressores, comuns ao trabalho de Kar-Wai, e nos entrega a amplidão das paisagens desérticas dos EUA. Porém, as demais características do cinema do diretor estão todas lá: as cores fortes, as câmeras lentas, as canções apaixonadas e as belas mulheres. Nesse último quesito, se você reparar bem, verá traços de semelhança nos rostos das personagens de Norah Jones, Natalie Portman e Rachel Weisz, como se essa escolha de elenco estivesse nos dizendo que na dor somos todos (quase) iguais. E por falar em Rachel Weisz, ela nunca esteve tão deslumbrantemente sedutora como nesse papel da ex-esposa de um policial alcoólatra, vivido com brilhantismo pelo ator David Strathairn. Com certeza, a história dos dois é a parte mais (in)tensa do filme.
Mas é dentro do charmoso café nova-iorquino que se encontram os muitos elementos metafóricos que enriquecem o roteiro de “Um beijo roubado” e aguçam os sentidos de quem busca as delicadezes e sutilezas da obra de Wong Kar-Wai: a torta de blueberry intocada à espera de quem queira descobrir seu sabor; as chaves deixadas pelos amantes abandonados; as portas que não podem seguir trancadas para sempre; a câmera de segurança cujos registros servem para proteger sim, mas da solidão...
E eu não poderia terminar esse texto sem falar do tal roubo descrito no título do filme. Ainda que ele aconteça na primeira metade da película, o cineasta nos reserva os instantes finais para revelar o significado e as consequências daquele beijo, que já entrou para a galeria dos mais belos e criativos de todos os tempos. Quer ver outra grande decisão do diretor? Eu já dava como certo que a interpretação encantadora de Otis Redding para “Try a little tenderness”, que pontua boa parte da película, encheria a sala no exato momento em que os lábios se tocassem. Ledo engano! É o silêncio absoluto que entra em cena, deixando ainda mais inesquecível aquela promessa de felicidade.

maio 20, 2008

Demas no SRZD 2

Rachel Weisz: a musa de "Um beijo roubado"
A história é muito boa, a trilha sonora é espetacular, o elenco está afiadíssimo com o espírito kar-waiano de filmar... Tudo funciona bem, mas o filme é - sem sombra de dúvida - da coadjuvante Rachel Weisz, linda como nunca antes, defendendo uma personagem amargurada pelo término de um relacionamento que parece não ter fim. Quer saber mais sobre "Um beijo roubado"? É só clicar aqui.

"Sicko - $O$ Saúde"

(Sicko, 2007 - Michael Moore)
Costuma-se dizer que os filmes de Michael Moore são falsos documentários, por causa do caráter manipulador do diretor. Para mim, o que interessa é que ele toca na ferida e faz o público pensar bastante sobre os temas abordados. Foi assim com “Tiros em Columbine”, sobre a obsessão dos cidadãos norte-americanos por armas de fogo, mostrando – dentre outras coisas – a facilidade de adquiri-las, bastando chegar na loja, pedir o modelo desejado, pagar e sair. Algo tão simples como comprar uma camiseta.
Agora, em “Sicko - $O$ Saúde”, ele aponta sua câmera para a máfia dos planos de saúde na Terra do Tio Sam, com seus valores altíssimos (e inacessíveis para quase 50% da população) e restrições absurdas, incluindo pagamento de bônus aos médicos-peritos com percentual diretamente proporcional ao número de exames e procedimentos negados aos pacientes. Moore ilustra toda essa sordidez entrevistando um grupo de doentes americanos. Seus dramas beiram o absurdo.
A fim de incitar ainda mais o público e os "mafiosos empresários e políticos", o diretor resolve visitar países como Canadá, Inglaterra e França - tão capitalistas quanto os EUA - para entender seus sistemas de saúde socializada. O que vemos a partir de então é inacreditável: em todas essas nações, o paciente é (muito bem) atendido, qualquer que seja sua necessidade, sem encargo algum. Há inclusive casos em que o hospital paga até a passagem de volta para casa, quando o enfermo não tem condições financeiras de fazê-lo.
“Para cuidar assim do seu povo, então esses governantes não devem pagar seus profissionais de saúde a contento”, instiga Moore num dado momento, para em seguida mostrar o Astra e o sobrado de US$ 1 milhão de um dos médicos europeus. “Então, o gargalo está no cidadão, que deve pagar uma carga tributária monstruosa”, continua Moore. Qual o quê! A maior preocupação de um casal de classe média entrevistado é com o preço do pescado e com as viagens de férias(!). E as mamães francesas?! Além da licença-maternidade, elas ganham o auxílio de uma assistente (entenda-se babá, faxineira, cozinheira...), de 2 a 3 vezes por semana, com tudo pago... pelo governo.
Mas é na parte final que vem a alfinetada maior: o provocador Moore leva o grupo de americanos para ser examinado e tratado em Cuba. E mais não direi. A não ser que saí do cinema estarrecido, escandalizado e indignado com o caos da sáude norte-americana. Por quê? Porque qualquer semelhança com o que enfrentamos no Brasil não é mera coincidência.

maio 19, 2008

"Apenas uma vez"

(Once, 2006 - John Carney)
Na sua “Canção de protesto”, Caetano Veloso diz que “99 e um pouco mais por cento das músicas que existem são de amor”. Em “Apenas uma vez”, essa estatística chega a 100%. Isso mesmo: todas as canções do filme são de amor e não poderia ser diferente, uma vez que a proposta inicial do diretor e roteirista John Carney era fazer um longa-metragem onde as composições se encaixassem no roteiro para revelar as verdades dos seus personagens. Com isso, o público ganhou um musical que – se não possui o glamour associado ao gênero – tem uma trilha sonora arrebatadora, justamente por ser a alma da película.
Para conseguir realizar essa façanha com tamanho êxito, temos uma boa justificativa: foram chamados, para viver o casal de protagonistas, os músicos Glen Hansard e Markéta Irglová, que são responsáveis pela composição e/ou interpretação da maioria absoluta das canções ouvidas em “Apenas uma vez”. Ele já havia trabalhado com Alan Parker em “The Commitments – Loucos pela fama (1991)”e é vocalista da “The Frames”, banda de sucesso na Irlanda; ela – que tinha apenas 17 anos durante as gravações - é uma compositora e multiinstrumentista tcheca estreando como atriz. Na vida real, eles se conheceram quando Hansard fez uma viagem a Praga, onde tocaram juntos, o que rendeu a participação de Irglová no primeiro álbum solo dele e a indicação para interpretar a garota do filme.
Já em “Apenas uma vez”, o encontro se dá numa calçada de Dublin, onde uma jovem vendedora de flores – que aprendeu a tocar piano ainda pequena, incentivada pelo pai – é atraída pela apresentação de um cantor de rua. Imediatamente, uma afinidade se estabelece, até porque eles têm outra coisa em comum: o coração partido. É essa desilusão amorosa que alimenta as letras do músico. E é a intensidade dos sentimentos dele, revelada nas canções, que a pianista gostaria de ter encontrado no parceiro que a abandonou, quando ela resolveu deixar a República Tcheca para tentar a sorte na Irlanda. Está armado o cenário para que muitas emoções envolvam esses amantes abandonados.
Dali até o final do filme, as músicas se sucedem para revelar as histórias desses personagens, descrevendo seus medos e decepções, alegrias e sonhos, enquanto uma nova realidade vai sendo orquestrada por essa aproximação que promete mudar suas rotinas e vidas. Numa das cenas mais belas do longa, os dois vão até uma loja de instrumentos, onde ele mostra a letra de uma canção, seus acordes ao violão e a convida para acompanhá-lo no piano. É nesse momento que o público ouve “Falling slowly”, canção que levou o Oscar 2008. Impossível não se emocionar, o que acontece também durante a execução de “The hill”, composta pela garota e interpretada numa sala praticamente escura, como se assim ela pudesse ocultar o sofrimento que aquela canção carrega. O plano-sequência do final é igualmente espetacular: ah, se fosse possível decifrar aquele olhar atravessando a janela enquanto a câmera se distancia da cena...
Por representar mais da metade da duração do filme, a trilha sonora é, literalmente, a força-motriz de “Apenas uma vez”, uma produção de estrutura simples, baixo orçamento, com elenco pequeno e desconhecido. Ainda assim, John Carney reverteu a lógica, transformando pouco em muito, ao deixar que suas lentes registrassem uma história universal de descobertas, superação e gratidão, com um final tão delicado e verdadeiro quanto os sentimentos que transformaram dor e angústia em belíssimas canções.

maio 11, 2008

Você é o que você vê

Cena de "4 meses, 3 semanas e 2 dias": aborto em questão
Recentemente, o jornal O Popular (GO) publicou uma reportagem sobre a dissertação de mestrado do psicólogo Keynes Fortes, que procura estabelecer uma relação entre o gênero de filme e a personalidade de quem o assiste, algo assim bem traduzido pelo título da matéria: "Diga-me o que vês e... (eu direi quem tu és)". Fortes entrevistou mais de 900 espectadores, distribuindo suas características comportamentais em 15 categorias cinematográficas. A repórter Rute Guedes ouviu alguns cinéfilos que falaram sobre suas preferências e corroboraram a tese do psicólogo. E você, o que pensa disso? Se quiser saber mais, é só clicar nos links acima.

maio 09, 2008

Demas no SRZD

Trilha sonora é a alma de "Apenas uma vez"
A partir de hoje, estou com uma coluna semanal no site do jornalista Sidney Rezende. Assim, sempre às sextas-feiras, na editoria "Cultura", escreverei sobre algum filme que esteja em cartaz no país. Para começar, escolhi o musical "Apenas uma vez", vencedor do Oscar 2008 de canção original com a bela "Falling slowly". Para ler a crítica, clique aqui.
PS: Mas o Cine Dema(i)s seguirá seu ritmo normal, com mais comentários por aqui, a qualquer momento.

abril 28, 2008

Meme: filmes subestimados

Recebi o convite do Daniell para listar 5 filmes que eu considero subestimados pelo grande público. Quem me conhece sabe da minha dificuldade para listar melhores, piores e afins. Daí, ao invés de 5, citei o dobro. Então, vamos lá: aqui no Cine Dema(i)s, “convite feito é convite aceito”. Ah, e a ordem não obedece nenhuma preferência. Os comentários estão "linkados" nos títulos. Os números na frente de cada um são as médias alcançadas nas avaliações do IMDb e a quantidade de votantes.

1) Caiu do céu (7,2 / 8.901)
3) Reconstrução de um amor (7,2 / 2.555)
4) O agente da estação (7,9 / 16.704)
5) O veneno da madrugada (6,2 / 45)
6) A festa de Babette (7,7 / 4.996)
7) Betty Blue (7,3 / 4.844)
8) A casa do lago (6,9 / 23.806)
9) Na cama (6,6 / 376)
10) Propriedade privada (7,2 / 346)

Tendo em vista que escolhi 10 filmes, vou subverter outra vez e convidar 10 blogueiros para continuarem essa corrente. Que fique claro para os convidados que bastam apenas 5 filmes e 5 novos convidados, ok? Passo a bola então para o Moacir (Cinefilia), Wallace (Crônicas Cinéfilas), Eduardo (Mira!), Janaina (Alfarrábio), Marina (Blowg), Fer (Cinefilia, Chatterbox e Chucrute com salsicha), Luis (El Mau), Suzi (Suzi), Beth (Tudo pode acontecer) e Kellen (Dedo de prosa).

março 14, 2008

"Estamos bem mesmo sem você"

(Anche libero va bene, 2006 - Kim Rossi Stuart)
No futebol, líbero é um zagueiro que, sem marcar especialmente nenhum adversário, tem por função aproveitar as ocasionais sobras de disputas de bola ou cobrir as eventuais falhas dos seus companheiros. E é nessa posição que se encaixa perfeitamente o pequeno Tommaso (Alessandro Morace em brilhante estréia) dentro do jogo desequilibrado de perdas e danos em que vive com o pai e a irmã mais velha.
Abandonados pela mãe, eles tentam tocar o barco familiar. O problema é que o mar em que navegam nunca está tranqüilo. O pai tenta suprir todas as lacunas - emocionais e caseiras - e está quase sempre à beira de um ataque de nervos. E os filhos, cheios de responsabilidades e cobranças, são apenas crianças tentando assumir uma postura adulta, o que acaba resultando em insegurança, medos, inconseqüência e desilusões...
O grande problema é que todas as vezes em que as coisas estão ficando mais calmas, a mãe retorna. E o marido - que cobra uma postura de vencedor, principalmente do filho - sempre cede. A fraqueza dele passa a ser co-responsável pelo caos emocional de todos, não ficando o papel de vilão apenas para a esposa desnaturada. Ao brincar de reestruturar o lar (porque ambos sabem que a reaproximação não vai durar), eles acabam abrindo mais feridas ao invés de cicatrizar as já existentes.
Num dos momentos mais tocantes de "Estamos bem mesmo sem você", Tommaso - que sonha ser jogador de futebol - se expõe deliberadamente ao fracasso, durante uma competição de natação, para mostrar que não quer mais saber daquele esporte. Ver o filho como um derrotado reforça um sentimento que o pai se recusa a enxergar em si mesmo, gerando mais briga, rancor e intolerância.
Mas passados alguns dias, é esse "basta!" do garoto que traz a reflexão e a possibilidade de harmonia para dentro de casa outra vez. Porque o fantasma da mãe-que-sempre-volta-para-tornar-a-ir-embora ainda irá assombrar, como revela a a última e mais emocionante cena do filme, protagonizada por Alessandro Morace, que é - sem sombra de dúvida - a estrela desse primeiro longa de Stuart, impregnando veracidade à montanha-russa de emoções do seu personagem. E olha que o núcleo de atores que compõe a família destroçada (Kim Rossi Stuart/pai, Barbora Bobulova/mãe e Marta Nobili/irmã) é praticamente impecável.
É curiosa a maneira como a fotografia realça a confusão de sentimentos que envolve toda a história. Quando a mãe está ausente e os abandonados parecem (muito) bem, ao tentar reconstruir suas vidas, são as sombras e penumbras que predominam. No entanto, a película se enche de cor e luz com o retorno da figura materna, apesar de toda a instabilidade, incerteza e angústia que ela traz consigo.

fevereiro 28, 2008

A política versus Anna e Marjane

As produções francesas "A culpa é do Fidel" e "Persépolis" têm muito mais em comum do que o idioma falado: ambas têm mulheres na direção e abordam a visão de crianças sobre as transformações políticas que adentram seus lares e deixam de cabeça para baixo tudo o que elas julgavam entender sobre o mundo.
(A culpa é do Fidel!/La faute à Fidel!, 2006 - Julie Gavras)
Em "A culpa é do Fidel", a pequena Anna vive em Paris, em 1970, quando é arrancada de sua realidade pequeno-burguesa pelo pesadelo do comunismo. Pelo menos é assim que a babá cubana (que odeia Fidel Castro) explica as mudanças de comportamento dos pais da menina. A verdade é que ela vê sua casa ser "invadida" pela esposa e filha do seu tio espanhol, assassinado pelo ditadura franquista. Esse incidente mexe com os valores do pai de Anna, que viaja ao Chile após a eleição de Salvador Allende, e volta politicamente engajado, abandona o emprego, muda-se com a família para um apartamento menor e proibe que a filha frequente as aulas de catecismo. Todas essas mudanças caem como uma bomba sobre o mundinho de Anna, que passa a fazer coro com a babá contra os barbudos vermelhos.
O encantamento do filme está praticamente nas mãos da pequena estreante Nina Kervel-Bey (guardem esse nome!), que cria uma protagonista adorável, cuja curiosidade, inteligência e petulância são as armas utilizadas para defender as suas verdades. Em tempo: é o segundo trabalho de direção de Julie Gavras, filha do cineasta grego Constantin Costa-Gavras (de "Z", "Amém" e "O corte").



(Persépolis/Persepolis, 2007 - Marjane Satrapi & Vincent Paronnaud)
Em "Persépolis", o filme começa com a jovem iraniana Marjane vivendo em Paris e relembrando os acontecimentos políticos que marcaram sua infância e adolescência. Baseada nos quadrinhos da própria diretora, essa animação em preto-e-branco também concentra sua graça na inteligência da pequena e questionadora Marjane, ao tentar entender as transformações que a Revolução Iraniana provocava no seu mundinho, no final da década de 1970, com a queda da ditadura do xá Reza Pahlevi e a ascenção da república do aiatolá Khomeini. É engraçada a cena em que a garotinha diz não saber porque "está todo mundo falando mal do xá", sem entender que não existia liberdade anteriormente para tal manifestação. Mas o sonho de mudanças dura pouco, uma vez que a política do aiatolá exerce um controle também tirano sobre a população iraniana, interferindo na sua maneira de agir e vestir. E é essa dura realidade que leva Marjane ao exílio na França, aos 14 anos.
Apesar do tema forte, a história tem várias situações engraçadas, das brigas infantis às primeiras desilusões amorosas: a cena em que o "príncipe encantado" é pintado como um (quase) ogro é hilária. O filme - que foi indicado ao Oscar de animação - é a estréia em longa-metragem dos diretores e tem Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni (mãe e filha na vida real) dublando mãe e filha na ficção. Para quem ainda não sabe o porquê do nome do filme, Persépolis era a capital do Império Persa e, em 1979, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

fevereiro 27, 2008

"Na natureza selvagem"

(Into the wild, 2007 - Sean Penn)
Alguém poderia tentar me explicar por que esse filme foi tão esnobado pela Academia? A saga do jovem Chris (Emile Hirsch numa atuação cativante) em busca de valores e sentimentos que não encontra em casa é um soco no estômago de uma sociedade materialista, fria e dissimulada como a nossa. E o fato da atitute do rapaz ser bem radical (ir para o Alasca sem avisar a ninguém, simplesmente desaparecendo) nos dá a dimensão da sua solidão e deslocamento. Numa montagem (indicada ao Oscar) cheia de idas e vindas, acompanhamos as possíveis razões do afastamento e os grandes encontros que vão acontecendo pelo caminho do andarilho, todos fabulosos, seja pelo conteúdo dos diálogos ou pela atuação dos coadjuvantes, com destaque para Catherine Keener (a hippie), Vince Vaughn (o fazendeiro), Hal Holbrook (indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel do viúvo solitário), Marcia Gay Harden e William Hurt (pais do protagonista). Sean Penn - que assina roteiro e direção - fez um trabalho fabuloso com todo o elenco, que transborda emoção em cada cena com a mesma intensidade com que a natureza se revela ao longo da projeção. E o que dizer da trilha sonora? Ela literalmente nos faz mergulhar na essência da história e nos segura na poltrona até que o último crédito desapareça da tela. "Na natureza selvagem" é para ser visto e revisto e revisto e revisto e...

fevereiro 25, 2008

A (quase) perfeição do Oscar 2008

O DESEJO
A 80ª edição do Oscar foi marcada por desejos e reparações. Primeiramente, porque há tempos não se tinha uma seleção de filmes tão boa. Ao saírem os indicados, era difícil ver alguém reclamando de injustiças. Mas ainda restava aquele receio de que o desfecho da festa pudesse deixar uma ressaca danada, como acontecera tantas outras vezes e - recentemente - em 2006, quando o franco favorito "O segredo de Brokeback Mountain" foi atropelado por "Crash - No limite" já na reta final. Por essa e outras, havia um grande desejo de que fosse diferente agora. E pelo menos dois dos indicados ao prêmio máximo poderiam ganhar sem causar grandes protestos. "Sangue negro" e "Onde os fracos não têm vez" vinham dividindo o posto de melhor filme segundo a crítica (e o público também), incensando - merecidamente - o trabalho dos diretores Paul Thomas Anderson e Joel & Ethan Coen. No entanto, havia ainda a possibilidade de que "Desejo e reparação" pudesse levar a estatueta, por ser um filme de estrutura mais clássica e convencional, bem a cara da Academia. Mas mesmo essa possibilidade, não seria de todo ruim, afinal a adaptação do livro "Reparação", do escritor Ian McEwan, foi muita elogiada.

A REPARAÇÃO
Ao ganhar o prêmio de melhor ator coadjuvante, Javier Bardem abriu o caminho para a consagração do filme dos irmãos Coen. Nenhuma controvérsia, nenhum deslize da Academia aqui, visto que a irrepreensível criação do assassino da pistola de ar comprimido assustou (e encantou) o planeta, já colocando o personagem naquela galeria de criminosos inesquecíveis (?!) do cinema. E aí veio a estatueta de roteiro adaptado para "Onde os fracos não têm vez". Merecidíssima, afinal, a partir de uma história que parecia inadaptável para a telona, nasceu um filme envolvente e (in)tenso, para ficar com poucos adjetivos. A última vez em que os irmãos Coen foram ao Oscar com tantas chances de prêmios foi em 1997. O filme era "Fargo" e chegou ao Shrine Auditorium indicado em sete categorias e saiu com apenas duas estatuetas: roteiro original e atriz (Frances McDormand). Mas muitas outras boas produções deles foram injustamente esnobadas pela Academia. "Gosto de sangue (1984)", "Arizona nunca mais (1987)", "Ajuste final (1990)", "Na roda da fortuna (1994)" e "O grande Lebowski (1998) não receberam nenhuma indicação. Laureado com a Palma de Ouro, direção e ator em Cannes, "Barton Fink - Delírios de Hollywood (1991)" não ganhou nada no Oscar. O divertidíssimo "E aí, meu irmão, cadê você? (2000)" só recebeu duas indicações (roteiro adaptado e fotografia) e saiu de mãos abanando. E o competente "O homem que não estava lá (2001)" só foi indicado para fotografia. Mas em 2008, a reparação foi feita: Joel & Ethan foram eleitos os melhores diretores e "Onde os fracos não têm vez" levou o Oscar de melhor filme. É bem verdade que após a morte do caçador Moss (Josh Brolin), a história - que vinha frenética - dá uma freada brusca. Essa elipse do encontro final entre o protagonista e o assassino - que seria o ponto alto da película, em função do magnetismo dos dois personagens - é uma grande falha. A partir dali, o interesse pelo desfecho cai muito. Entretanto, pela maestria com que eles contruíram os 4/5 iniciais do filme e pelo conjunto da obra dos Coen, valem as estatuetas.

E OS NOVOS ESTRAGOS
Pena mesmo é que "Sangue negro" tenha ficado somente com ator (Daniel Day-Lewis) e fotografia. Outra injustiça foi "Desejo e reparação" levar apenas trilha sonora. Aliás, acho que o filme merecia ter sido indicado em - pelo menos - outras três categorias: diretor (Joe Wright), ator (James McAvoy) e atriz (Keira Knightley). Também não concordei com o prêmio para atriz coadjuvante: Tilda Swinton está apenas correta em "Conduta de risco" e a estatueta me pareceu um consolo para o filme de Tony Gilroy. Deveria ter sido Cate Blanchett, por "Não estou lá" ou - até mesmo - Saoirse Ronan, por "Desejo e reparação". Todos têm falado muito de Javier Bardem no filme dos irmãos Coen, mas a atuação de Josh Brolin não deixa nada a desejar em relação à do ator espanhol. E, é claro, seu nome tinha de constar entre os indicados. Também não faço parte do grupo que tem incensado o roteiro de "Juno". Em nenhum momento, a história da adolescente que não soube evitar uma gravidez, mas que é supermadura para lidar com a doação do filho para um casal estéril, conseguiu me convencer e emocionar. A naturalidade com que a família da garota entende e aceita tudo é inverossímil. "Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da Rua Fleet", do Tim Burton, merecia ter levado o prêmio de figurino e poderia ter recebido indicações para maquiagem (ao invés dos batidos "Piratas do Caribe 3" ou "Norbit"), direção e filme (ambas no lugar de "Juno").
PS: E viva Marion Cotillard! Com todo respeito a Julie Christie, mas essa francesa é a razão de ser de "Um hino ao amor". Sem ela, o filme desafinaria.

janeiro 23, 2008

Heath Ledger


O primeiro trabalho de Ledger a que assisti foi "O patriota (2000)", do Roland Emmerich. E não gostei. Depois, vi "A última ceia (2001)", do Marc Foster, em que ele faz um suicida. Ali, sua atuação já me chamou a atenção. Mas foi com "O segredo de Brokeback Mountain (2005)" que ele passou para o time dos atores cuja presença no casting me fazem querer ir ao cinema. Tanto pela coragem de abraçar uma personagem polêmica como o cowboy Ennis Del Mar quanto pela atuação brilhante, Ledger tornou-se um dos meus jovens atores preferidos. Depois da obra-prima de Ang Lee, só fui ver o ator australiano outra vez em "Candy (2006)", do Neil Armfield, em que ele interpreta um viciado em heroína. Mais um bom trabalho. Em dezembro de 2007, aproveitei o recesso das festas de fim-de-ano para ver alguns filmes que deixei passar em branco nas telonas e dei uma atualizada na filmografia de Ledger. Vi "Coração de cavaleiro", "Casanova", "Honra & coragem: as quatro plumas" e "Os irmãos Grimm". E confirmei a certeza de estar diante de um talentoso jovem ator. Anteontem, conferi o trailer de "Batman - O cavaleiro das trevas". E não restou dúvida: o filme é do Coringa, é de Heath Ledger.