Fotógrafo e namorada atropelam mulher e saem sem prestar socorro. A partir de então, vultos de um passado que ele quer esquecer começam a aparecer nas suas fotos. Com algumas situações absurdas e uns 3 ou 4 sustos bem dados, "Espíritos" até prende a atenção, mas não surpreende. A primeira hora tenta assustar com situações recorrentes em filmes de terror recentes: banheira com afogado transbordando água; moça-fantasma de cabelos negros, escorridos e molhados... Sem pensar muito, lembro-me de ter visto coisas semelhantes em "O chamado", "O chamado 2", "Água negra" e "O exorcismo de Emily Rose". Mas nos 30 minutos finais, a história ganha fôlego. A cena em que a namorada descobre a verdade sobre as aparições é bem interessante. E daí para a frente, são só revelações. Assim, o filme termina melhor.
abril 25, 2006
"Espíritos - A morte está ao seu lado"
"O Novo Mundo"
Ao contar a história da ocupação do estado da Virgínia no início do século XVII, o diretor usa o encantamento que toma conta de um oficial inglês e de uma indiazinha para retratar a relação entre colonizador e colonos, numa mistura de curiosidade e conflito. O que era óbvio para quem conhece o estilo do diretor parece estar frustrando a platéia que vai ver o filme "enganada sim" pela ação que é vendida no trailer: o cinema de Malick é contemplativo, com poucos diálogos e imagens belíssimas. Mas a história está toda ali, encantadora para quem está disposto a desvendá-la. Porque é assim que ele filma, a ação não está no primeiro plano, não é jogada na cara do público. Para ficar mais fácil de entender: se o cinema dele fosse literatura, seria poesia e não prosa. E exige mais que um simples olhar para ser decifrado, pede coração.
"A garota da vitrine"
Garota simples e pobre trabalha numa loja chique na 5th Avenue e sonha em encontrar um grande amor. Aparecem dois homens bem distintos: um rico e sedutor senhor e um jovem pobretão e desengonçado. Tanto um quanto o outro trazem delícias e dores para a vida da moça. E foi por esse detalhe que o filme me ganhou: o príncipe da nossa Cinderela não está em um homem só. "Garota da vitrine" surpreende ao falar de solidão, medo (de amar e de perder esse amor), insegurança, traição. Claire Danes (de "Tudo em família" e "Romeu+Julieta") leva o filme nas costas, está magnífica ao compor uma personagem que vive intensamente suas emoções. O filme só perde pontos ao buscar o riso fácil com as intervenções do garotão vivido por Jason Schwartzman (aliás, seu amadurecimento não convence de jeito nenhum e é outro ponto fraco da história). Ainda assim, o saldo final é altamente positivo.
abril 19, 2006
"As chaves de casa"
Pai encontra filho pela primeira vez quinze anos depois de um parto complicado do qual a mãe saiu sem vida e o garoto com problemas psíquicos e físicos. Parece um filme perfeito para arrancar lágrimas? Mas ainda bem que não é. "As chaves de casa" emociona muito mais pela maneira natural com que a história dos dois vai sendo construída, sem cobranças por parte de um, sem fantasias por parte do outro. Uma relação que vai-se mostrando promissora, mas nem por isso tranqüila e harmoniosa. Com boas atuações - inclusive da coadjuvante e sempre ótima Charlotte Rampling - e um roteiro honesto no que diz respeito à criação dos laços afetivos entre os protagonistas, Amelio nos entrega uma obra tocante e - acima de tudo - séria.
abril 13, 2006
"V de Vingança"
Os homens passam, as idéias não. No dia 5 de novembro de 1605, um cidadão inglês foi preso num túnel sob o Parlamento com várias bananas de dinamite. A tentativa de manifestação contra a Coroa Britânica foi silenciada com a forca e o esquartejamento. Mas até hoje, a data é comemorada na Inglaterra. "V de vingança" se passa numa Londres do ano 2020, governada por um tirano que impõe toda sorte de restrições aos ingleses. Um mascarado (Hugo Weaving, que fica o filme inteirinho com o rosto coberto) aparece para tirar a população da letargia, conclamando todos a estarem com ele no próximo "November 5th" para terminar o que deveria ter sido feito há quase 500 anos. Já nas primeiras cenas, ele se encontra com Evey (Natalie Portman), cujo passado tem elementos fundamentais para que ela se transforme na sua fiel parceira. Daí até o final, inúmeras revelações, questionamentos e dúvidas vão surgindo. Apesar disso, dificilmente alguém da platéia vai torcer para que alguma dê errado no dia "V". Ah, e tem música brasileira no longa: no momento em que o mascarado está preparando um breakfast, entra o som jazzie de "Garota de Ipanema".
abril 12, 2006
"Paradise now"
Khaled e Said são palestinos, amigos de infância e trabalham juntos numa oficina mecânica. Até o dia em que recebem a missão de se transformarem em homens-bomba para vingar mais um atentado israelense. Eles aceitam, não porque entendam, concordem ou coisa parecida: a sua cultura é aquela, vivem isso desde que nasceram. Apesar de tudo ter sido devidamente planejado, algo sai errado e os dois se vêem presos às bombas, entre a dúvida de seguir em frente por conta e risco ou voltar para casa. É o paraíso prometido podendo se transformar no inferno da vergonha, do fracasso. Ao retratar suas dúvidas e angústias, "Paradise Now" nos revela um círculo vicioso de matança que nada acrescenta em relação a um acordo de paz: é sangue pedindo mais sangue. As cenas tocantes são muitas. Ao condenar a ação dos homens-bomba, uma moça que se interessa por Said questiona: "Vocês já pararam para pensar em quem fica?", não se referindo somente à família e amigos, mas ao próprio povo palestino que herdará um outro atentado e tantas mortes como resposta. A última noite dos mártires com suas famílias também é de matar. O desfecho com a sala do cinema no mais absoluto silêncio e escuridão - enquanto sobem os créditos - é um soco no estômago e faz a platéia deixar a sessão imersa na mais pura reflexão.
"Um lugar para recomeçar"
Einer perdeu o filho em um acidente de carro e culpa a nora por isso. E é justamente a moça quem vem pedir sua ajuda 11 anos depois, trazendo um trunfo que ele não conhecia: uma neta. O final da história dá para saber logo de cara. Ainda assim, é bem interessante acompanhar as (revira)voltas que Hallstrom (de "Chocolate", "Regras da vida", "Chegadas e partidas" e "Minha vida de cachorro") filma com maestria, extraindo boas interpretações de todo o elenco - Jennifer Lopez incluída. É bom ver Robert Redford numa grande atuação: a amargura, a rispidez e a tristeza de Einer duelam bem com seu lado justo e solidário, permitindo compor um personagem emocionalmente rico. Sem falar que o ator - mesmo assumindo todas rugas - mostra que não deixou de ser galã.
abril 11, 2006
"Clube da Lua"
Para falar da degradação de um país e das relações amorosas, Campanella conta a história do "Clube da Lua", um espaço de integração social que - nos anos 30 - sediou festas e inúmeras atividades comunitárias e nos dias atuais tem uma dívida impagável de 40 mil pesos com a prefeitura. O drama do clube é um espelho da crise política que assolou a Argentina a partir dos anos 90, é o reflexo da falta de cuidado que destrói relacionamentos... Ninguém sabe direito onde e quando começaram os problemas, mas percebem que tudo está desmoronando agora. O conflito se instala de vez quando um grupo de empresários manifestam interesse de comprar o clube para transformá-lo em um cassino, o que vai gerar 200 empregos diretos para a comunidade. Ramón (Ricardo Darín) é um dos sócios que faz de tudo para manter o espaço funcionando. E aí? Vai ganhar a razão ou a emoção? O dinheiro ou as recordações? "Clube da Lua" tem um elenco de peso, vários deles com participação em filmes como "O filho da noiva", "O abraço partido", "O pântano" e "A menina santa". Não gostei da fotografia muitoescura praticamente durante toda a projeção. Se era para passar o desconforto dos personagens, a semi-escuridão foi além e chegou às vias de sufocar a platéia. E o diretor poderia ter enxugado em 40 minutos a sua película. Ah, e como em "O filho da noiva", ainda entra uma cena entre os créditos finais, só que dessa vez bem desnecessária por se tratar de um repeteco. E piada não tem tanta graça quando ouvida uma segunda vez.
"A era do gelo 2"
Ao colocar os personagens do primeiro filme lidando com temas atuais (aquecimento global e derretimento das geleiras), "A era do gelo 2" conseguiu criar uma trama envolvente, cheia de ação (dá para imaginar o que acontece com a bicharada toda buscando uma "Arca de Noé", né?) e divertidíssima. Sid, a preguiça, continua demais (rio só de vê-lo em cena, mas devo admitir que a dublagem do Tadeu Melo ajuda um bocado também). A animação ganha com o destaque dado nessa continuação ao esquilo Scrat (símbolo já do desenho) e sua eterna busca à avelã perdida. Outro ponto positivo é a introdução de novos personagens: a mamute Ellie e os irmãos gambás dão mais fôlego ao trio de amigos protagonistas (a preguiça, o tigre e o mamute) e prometem mais aventuras para uma certeira continuação.
"Irma Vap: o retorno"
Vai ser difícil repetir o sucesso da peça "O mistério de Irma Vap" no cinema. Mas o filme vale, sem sombra de dúvida, pela atuação do Marco Nanini ao compor Cleide, a pequena grande cantora, uma homenagem descarada a Bette Davis de "O que terá acontecido a Baby Jane?".
abril 05, 2006
"2046 - Os segredos do amor"
(2046, 2004 - Wong Kar-Wai)2046 é o número do quarto que abrigou um idílio amoroso. É também o ano em que se passa a trama de um romance futurista. E ainda o número do trem que transporta os passageiros que buscam suas lembranças perdidas. Dito isso, vamos à história do filme: num passado recente, um amor não correspondido provoca estragos profundos na vida de um jornalista que - desempregado - vê-se obrigado a escrever um romance onde mistura ficção e acontecimentos autobiográficos. Volta ao hotel em que viveu o inesquecível amor e - diante da impossibilidade de ocupar o quarto 2046 - ocupa o aposento do lado. Acaba se envolvendo com três mulheres que, posteriormente, hospedam-se no 2046. Sua vida amorosa passa a oferecer os elementos literários para seu trabalho, e é esse detalhe que enriquece o roteiro de Kar-Wai, misturando personagens, tempo e espaço de maneira criativa e encantadora. Mas não é só isso que faz de "2046" um grande filme: os boleros, jazz, ópera e música instrumental pontuam as cenas de maneira perfeita; os enquadramentos - cheios de closes e câmera lenta - nos deixam fisicamente mais próximos dos personagens; a iluminação difusa privilegia as penumbras, como se ajudasse a esconder o que o escritor não consegue ou não quer revelar; e o elenco feminino rivaliza tanto na beleza quanto na competência (Maggie Cheung, Gong Li, Zhang Ziyi - que nunca esteve tão sensual - e Faye Wong - belíssima no papel da filha da dona do hotel e de uma andróide).
abril 03, 2006
"Maria Bethânia - Música é perfume"
Sob o olhar do suíço Gachot, a intérprete baiana fala sobre seu processo criativo, essa maneira tão autoral de colocar a marca dela nas composições dos outros. Estão no filme seu perfeccionismo, suas manias, seu bom e mau humor, suas lembranças de infância, ensaios e cenas do show "Brasileirinho", depoimentos do irmão Caetano, da mãe Canô, do venerado Chico Buarque, do maestro Jaime Alem e do "ministro" Gilberto Gil (este, num registro desnecessário, totalmente no sense). No entanto, fica o óbvio: um show de Bethânia é bem melhor que um filme sobre ela. Talvez seja por isso que os grandes momentos desse longa metragem são exatamente aqueles em que ela solta a voz.
março 29, 2006
"O plano perfeito"

(Inside man, 2006 - Spike Lee)
Um assalto a banco com muitos reféns. Tudo pensado nos mínimos detalhes. Mas a calma dos bandidos parece revelar outras intenções. E a intervenção do banqueiro entrega interesses maiores do que a preocupação com as cifras do cofre. Com um roteiro engenhoso, cheio de suspense e ação, Spike Lee fez um grande filme, afastando-se dos contéudos políticos-raciais que costuma abordar. Mas, calma: em segundo plano, essas discussões aparecem, seja no depoimento de um refém judeu; ou num cartaz referente ao "11 de Setembro" ou ainda nos porta-retratos na estante da sala de um milionário.
"Capote"
O filme de Miller provocou em mim sensação parecida à do dia em que vi "Boa noite e boa sorte". É bem feito, tem um elenco afinado, mas não arrebata. Serviu para tirar a prova dos 9 em relação ao Oscar de melhor ator desse ano: a construção do personagem de Heath Ledger em "Brokeback Mountain" é muito superior ao trabalho de Philip Seymour Hoffman.
"O último Mitterrand"
Acometido por um câncer de próstata, o presidente François Mitterrand resolve narrar sua vida a um jovem jornalista de esquerda, revelando um lado bem pessimista em relação ao futuro da França após sua morte. Apesar da narrativa lenta, o filme de Guédiguian prende a atenção ao mesclar os comentários do estadista francês com os problemas emocionais do seu entrevistador. Impressiona a semelhança do ator Michel Bouquet com o líder político.
"Mulheres do Brasil"
7 mulheres, 5 histórias e 1 fracasso retumbante. A parte ficcional é fraquíssima; a documental, vergonhosa (diz nada ou quase nada de revelador). Elenco sub-aproveitado.
março 23, 2006
"Aeon Flux"
2011. Uma doença dizima 99% da população terrestre. O pequeno grupo que se salva vive numa cidade-redoma, protegida (?) da natureza ao redor, que retoma seu rumo. No entanto, a salvação tem um preço: 400 anos depois, as pessoas vivem sob o jugo de um núcleo de cientistas que - sob o pretexto de continuar protegendo a vida - controla tudo. Um grupo de rebeldes - liderado por Aeon Flux (Charlize Theron) - altamente treinado e munido de "brinquedinhos" da mais alta tecnologia resolve matar o líder dos cientistas e tomar o poder para retomar suas vidas. Mas o que parecia fácil, não se mostra assim. E a heroína vai tentar descobrir o que existe além do que se vê. "Aeon Flux" consegue prender a atenção com reviravoltas interessantes, efeitos especiais, muita ação e Charlize Theron mais linda do que nunca.
março 22, 2006
"A mulher do meu irmão"
Vivendo um casamento de 10 anos e sexualmente frio, esposa trai o marido empresário com o cunhado pintor. Noventa minutos e trocentos clichês depois, o filme termina sem deixar muitas saudades (a não ser da beleza estonteante de Bárbara Mori).
"A menina santa"
Depois de "O pântano", Lucrecia Martel confirma que tem um jeito muito peculiar de filmar os sentimentos humanos. É tudo muito intenso e muito real, colocando cada cena perto demais do espectador. Não existem grandes tragédias para movimentar seu filme, mas são os pequenos dramas dos seus personagens que nos fazem virar na poltrona, é a humanidade deles que nos incomoda. Em "A menina santa", a diretora argentina aborda a sexualidade reprimida de duas amigas que expurgam seus desejos nas aulas de catequese católica - onde discutem as várias formas utilizadas por Deus para fazer o chamado para seus filhos. Mas os desejos carnais falam tão alto para a "menina santa" que ela passa a enxergar o sexo como um sinal divino para salvar os homens. Assim, onde se vê abuso sexual, ela enxerga a oportunidade de redenção do pecador. Martel vai conduzindo tudo de forma lenta mas inquietante, expondo o clímax minutos antes do final. A última cena pode inquietar os que querem um desfecho com todas as letras e imagens, mas reforçam sobremaneira a "santidade" da protagonista: tranqüila e feliz - como todos os que praticam o bem - ela flutua na piscina do hotel onde mora, enquanto a vida do seu "protegido" está sendo revirada lá dentro. Apesar de tudo isso, "A menina santa" não me arrebatou e, contrariando a maioria, acho " O pântano" melhor.
"Cinema, aspirinas e urubus"
Um alemão se refugia da Segunda Guerra Mundial vendendo aspirinas no sertão nordestino, onde um sertanejo foge do desemprego, da miséria e da fome. Para um, longe das bombas, tudo é maravilha; para o outro, a seca é que é a destruidora potente. Aliás, os urubus sobrevoando o céu são sinais da morte que ronda por perto. Enquanto sonha em ir para a cidade grande, Ranulpho atravessa o Nordeste ajudando Johann. Suas visões de mundo tão diferentes vão reforçando a amizade que surge para - pouco mais tarde - sofrer um golpe certeiro: o Brasil declara apoio aos aliados e passa a perseguir os alemães que estejam no território nacional. "Cinema, aspirinas e urubus" é simples assim, como são muitas coisas na vida, sem que isso lhes tire a beleza. E ainda conta a seu favor com as atuações brilhantes dos protagonistas, a espontaneidade - que entrega verdade - dos figurantes e a luz estourada, fotografando o sertão de uma maneira tão real, que é quase possível sentir o calor da poltrona do cinema. Ao contar a história do seu tio-avô, Marcelo Gomes fez uma estréia promissora.
"Boa noite e boa sorte"
Badaladíssimo, esse filme só me pegou pela fotografia em p&b, pelas aparições musicais de Diane Reeves jazzeando magnificamente e pela atuação precisa de David Strathairn. No mais, é um recorte morno sobre o embate da imprensa contra a caça aos comunistas pelo senador McCarthy. É bem feito - não resta dúvida - mas não empolga.
"Abc do amor"
Lembra "O primeiro amor", só que com muito mais humor. E escalar Josh Hutcherson para viver o garoto apaixonado foi um grande acerto. Acompanhá-lo narrando suas impressões, negações e conclusões sobre as várias fases de uma conquista amorosa é hilário. No meio disso tudo, ainda tem os pais dele em processo de divórcio. Pena que por aqui só tenha chegado a cópia dublada.
"Quase um segredo"
Um grupo de amigos resolve dar uma lição em um garoto que está sempre surrando os colegas de escola. Durante a execução do plano, passam a conhecer um outro lado da suposta "vítima". Ainda assim, as coisas fogem do controle. "Quase um segredo" consegue manter um clima de suspense o tempo todo. O elenco mirim está perfeito, com atuações "adultas" para uma história que segue tranqüila, sem sobressaltos, até o final.
"Terra fria"
Com esse filme, a diretora de "A encantadora de baleias" deu um passo à frente. Ao retratar o preconceito em relação à contratação de mulheres em minas norte-americanas na década de 70, ela consegue arrancar uma boa atuação de Charlize Theron - que faz Josey, a funcionária que resolve mover o primeiro processo judicial contra a discrimação sexual da história dos EUA. Frances McDormand também está bem como integrante do sindicato dos mineradores. Apesar do final que me fez lembrar de filmes como "Será que ele é?" e "Sociedade dos Poetas Mortos", o desenrolar da história é bacana. Richard Jenkins tem um desempenho brilhante, revelando na medida a angústia de uma personagem que vive o drama de ser mineiro e pai de Josey.
março 21, 2006
"Fora de rumo"
Aqui, uma atração fatal com conseqüências inusitadas e desfecho clichê. Apesar de tudo, "Fora de rumo" prende a atenção. E se não temos uma Jennifer Aniston inspirada, Clive Owen e Vincent Cassel (esse, principalmente) dão conta do recado e transformam o filme num thriller interessante.
"Filhote"
"Filhote" consegue fazer rir ao tratar de um assunto sério: adoção de crianças por homossexuais. Tudo começa quando a irmã viajandona de Pedro, um dentista gay, resolve fazer uma viagem para a Índia. Ela lida com a sexualidade do irmão bem até demais. O garoto ficaria com o tio por duas semanas, mas um contratempo faz com que esses poucos dias se prolonguem. É interessante acompanhar as peripécias de Pedro para despistar o sobrinho enquanto tenta tocar a vida com as "amigas" e namorados.
"Para sempre na minha vida"
O filme começa com várias notícias reais de conflitos que estão acontecendo ao redor do mundo. Depois, o foco passa para a privatização de uma escola, com sua ocupação por um grupo de alunos que é contra. Mas no meiso dos politizados, estão também alguns que só querem saber da sua "primeira noite". E é esse último grupo que "Para sempre na minha vida" acompanha mais de perto. É bem filmado, mas tem um quê de Malhação que me frustou.
março 09, 2006
3 filmes
O tempo está escasso, inclusive para ver filmes. Imagina para atualizar o blog! Abaixo, algumas considerações sobre os 3 a que assisti nas últimas 2 semanas.
"Adeus minha concubina"
O que mudou de fato na China que abandonou a monarquia para abraçar o comunismo? Ao acompanhar a trajetória de dois grandes amigos que - sem família - passam a ser treinados desde garotos para integrarem a grande Ópera de Pequim, o filme vai retratando as mazelas que as transformações políticas vão infligindo ao povo chinês. Elenco impecável.
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"Quando as metralhadoras cospem"
Imagina um filme de gângster onde todo o elenco é formado por crianças e as armas - ao invés de balas - cospem doces e tortas. Esse musical - o primeiro longa de Parker - é delicioso de assistir. E ainda traz a menina Jodie Foster no elenco.
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Uma história de amor inter-racial contada de maneira encantadora e sem maniqueísmo. Ela é uma irlandesa católica e ele um paquistanês muçulmano. A separá-los, as intransigências da fé respaldadas por família e empregos. O final é maravilhoso.
fevereiro 23, 2006
"Reconstrução de um amor"
Todos nós sabemos dos estragos que a traição pode causar a uma relação. Por vezes, o mundo parece sair do eixo e muitas coisas perdem significados e valores. O encanto de "Reconstrução de um amor" está justamente na materialização desses sentimentos. Alex - mais uma atuação formidável de Nikolaj Lie Kaas (ver “Corações Livres”, de Susanne Bier) - vive um relacionamento tranqüilo, duradouro e aparentemente feliz com Simone. Até o dia em que conhece Aimeé num bar e trocam umas palavras. É a partir desse encontro que as coisas ficam interessantes: quando chega ao prédio em que mora, Alex não encontra seu apartamento (o imóvel desapareceu). Parece absurdo? Ele vai à casa de uns amigos e - surpresa! - eles não o reconhecem. Nem a namorada traída se lembra dele. Então, está todo mundo doido? É muito instigante e criativa a maneira como "Reconstrução" retrata as seqüelas da traição. Quando se vive uma história de amor, cria-se um mundo que não é só de um ou do outro, é dos dois. Natural, pois, que a infidelidade destrua esse universo, colocando-o de cabeça pra baixo. É exatamente assim que o filme lida com o tema. E quanto mais inacreditáveis se tornam as situações vividas por Alex, mais aumentam as possibilidades do espectador se deixar seduzir pelas cores – ora quentes, ora sombrias - dessa tela que o amor vai pintando a partir das situações vividas por quem decide compartilhar a vida com outra pessoa. Claro que o fato da mesma atriz interpretar a namorada traída e a amante contribui para deixar o roteiro "confuso" e, conseqüentemente, irritar boa parte da platéia. Mas em compensação, abre também um leque soberbo de leituras sobre o dia-a-dia das histórias de amor. Vejamos algumas delas: Aimeé é a mulher que Alex gostaria que Simone fosse (será por isso que as duas personagens são interpretadas pela mesma atriz, Maria Bonnevie?). Simone vê na atitude do namorado a negação do amor, de modo que não reconhece em Alex o homem que amava (será por isso que ela o vê como um estranho no primeiro encontro após a traição?). E se Simone se transformasse na mulher idealizada por Alex, será que ela suportaria ficar com ele? Se uma relação reatada costuma trazer a promessa de zerar tudo, de recomeçar, não seria natural que Alex e Simone tivessem que conquistar um ao outro novamente, reconstruir o amor que se perdeu? Não vou divagar mais sob o risco de entregar de vez o filme. Para mim, ficar confabulando - durante e após a sessão – sobre tantas possibilidades transformou "Reconstrução" numa pérola. Palmas para Christoffer Boe por contar a velha saga dos amantes num formato menos convencional, com roteiro não-linear e de interpretações fortes, repleto de respostas sobre o amor. Elas não estão claramente expostas, mas estão lá, à espera que o espectador as perceba. Um dossiê sobre o amor, é isso que "Reconstrução" é.
fevereiro 22, 2006
"Ponto final"
Desde a primeira cena, fica evidente que Allen vai abordar a trajetória do seu anti-herói sob o ponto de vista da sorte. É, sorte de ser apresentado ao "aluno certo que tem a irmã certa que tem os pais certos" para facilitar a ascensão social de um simples professor de tênis através de um belo matrimônio. O azar dele foi conhecer a estonteante Nola (Scarlett Johansson mais linda do que nunca numa atuação memorável). Mas o fato é que - apesar da história parecer promissora - o diretor nos entrega mais um filme mediano. Não sei se porque o trailer de "Match Point" já entregara 90% da história, a verdade é que esperar pelos 10% finais foi difícil. Mas não culpemos somente o trailer não, acho que - mesmo sem ele - tudo seria bem óbvio, a não ser pelo final. O elenco está todo afinado, com destaque para Johansson - claro! - e Jonathan Rhys-Meyers, o marido infiel. Aliás, são o elenco e o desfecho que impedem que o novo Allen caia na vala comum dos filmes descartáveis. Mas poderia ser bem melhor, né? Woody Allen tem cacife para mais, muito mais.
fevereiro 21, 2006
"Memória de quem fica"
Alejandro Doria, Alberto Lecchi, Marcelo Schapces, Carlos Sorin,
Juan Bautista Stagnaro, Adrián Suar & Mauricio Wainrot)
O filme reúne 10 cineastas argentinos para expressar suas visões sobre o atentado à Associação Israelita Argentina, ocorrido em 18 de julho de 1994, um dia após a conquista do tetracampeonato brasileiro na Copa dos Estados Unidos. Como narra Norma Aleandro bem no início, a proposta dos diretores é não deixar que o povo se esqueca dessa tragédia que, 10 anos depois, continua sem culpados, sem solução... Cada um retrata o incidente à sua maneira, ora em tom de documentário, ora de pura ficção; às vezes em silêncio, às vezes embalado por árias. Longe de serem repetitivas, as histórias vão-se somando para revelar todas as faces do acontecido. Não me lembro direito de quem dirigiu o quê, mas adoro o primeiro episódio (com os estilhaços da explosão voando sobre vários cenários); de um outro em tom mais documental que ouve os relatos de alguns portenhos sobre a mudança que aquele 18 de julho causou em suas vidas; outro que mostra a agonia de uma mãe no interior da Argentina aguardando notícias do filho na capital; outro sobre um tio que chega de surpresa a Buenos Aires para a cerimônia de circuncisão do sobrinho; e ainda um outro que mostra uma mulher contando o que fazia no dia do atentado e sua angústia com todas as tramóias seguintes para ocultar provas, arrastar o processo e não punir ninguém. "Memória de quem fica" é mais um título da boa fase do cinema portenho.
"Tartarugas podem voar"
Uma pequena aldeia no Curdistão vira campo de refugiados e abriga dezenas de meninos e meninas órfãos às vesperas da Guerra do Iraque. Enquanto os adultos se preocupam para saber notícias do conflito iminente, é da legião de órfãos a verdadeira alma do filme. São as crianças com suas cicatrizes e mutilações - físicas e emocionais - que mostram na aparência e nas atitudes a verdadeira face da guerra. O filme fica ainda mais intrigante quando um trio de irmãos chega para mexer com a normalidade (?) que parece tomar conta da vida daqueles órfãos: Adrin é uma garota que traz nos olhos uma dor indescritível; Hengov é o irmão mais velho que perdeu os braços na explosão de uma mina; Riga é um menininho cego de uns 4 anos. Uma coisa no passado dos 3 torna aquela relação insustentável e muito difícil a convivência deles com as demais crianças. A amargura de Adrin atravessa a tela e dói na gente. O filme é sombrio mesmo. E nem teria como ser diferente.
"Possessão"
Passados 25 anos do seu lançamento, "Possessão" ainda é um filme inquietante, tanto pelo que revela como pelo que esconde. A história começa com um casamento em crise, onde o esposo (Sam Neill) desconfia que sua mulher (Isabelle Adjani) tenha outro. E ela confirma. Abandona casa e marido, mas sempre volta - mais instável e desequilibrada - para ver o filho pequeno. O marido, por sua vez, se vê tomado pela obsessão de encontrar o pivô da traição. Em torno disso, vai surgindo um mundo paralelo à relação que um dia foi perfeita. Que monstro pode nascer da solidão, da traição ou da culpa? Traído e traidor não parecem ser as mesmas pessoas de outrora. Têm aparências semelhantes, mas são outras, com seus arrependimentos, medos e neuras. Que tipo de amor pode sobreviver a esse caos de sentimentos? Acho que são desses dilemas que Andrzej Zulawski quis tratar em "Possessão". Essa ambigüidade - que rodeia sentimentos e personalidades - está presente também na cidade que o diretor escolheu para rodar o filme: Berlim que - àquela época - eram duas, oriental e ocidental, dividida pelo Muro. A atuação de Isabelle Adjani é primorosa. A atriz parece ter mergulhado com vontade nas loucuras da personagem. E apesar de algumas tomadas daqueles olhos azuis serem de tirar o fôlego, sua beleza não é o foco principal das lentes do diretor. O fato é que ela conquistou a Palma de Ouro naquele ano. Enfim, com edição e movimentos de câmera que reforçam o desequilíbrio, a instabilidade e os delírios do casal em crise, "Possessão" é para ser visto e revisto várias vezes. Porque entender o amor e seus avessos não é nada fácil. Em tempo: esse mundo paralelo que a traição parece criar me fez lembrar de um outro filme, igualmente polêmico, questionador e belíssimo: "Reconstrução de um amor (Reconstruction, 2003)" do dinamarquês Christoffer Boe, também premiado em Cannes.
"Conversando com mamãe"
Com um certo atraso, chega aos cinemas goianienses esse longa argentino de 2004 que aborda a crise recente dos nossos vizinhos portenhos através das conversas de um filho desempregado (Eduardo Blanco) com sua mãe de 82 anos. Ex-economista, Jaime quer vender o imóvel em que a velhinha vive e levá-la para morar com sua família. O problema é que, desde que se casou, a relação deles se resume a telefones ligeiros. Sozinha, ela sempre preparou jantares a que ele nunca compareceu. Enquanto tenta convencê-la a deixar o apartamento, eles vão lavando a roupa suja de muitos anos, sempre com bom humor e ironicamente. A atriz China Zorrilla tem o tempo certo para a comédia e sua "mamá" é muito divertida, até mesmo quando narra seus dramas, dores e segredos. "Conversaciones" faz rir e emociona na dose certa. E ainda tem a participação da bela Silvina Bosco (de "O abraço partido") na pele da esposa de Jaime.
fevereiro 16, 2006
"Johnny e June"
Infância pobre com pai durão e um grande trauma. Mas a música apontava uma saída. Vem o sucesso trazendo álcool, mulheres e drogas a reboque. Muitas cabeçadas e desencontros depois, a redenção chega através do amor. “Johnny e June” é a cinebiografia de Johnny Cash, um cantor de country que – num determinado momento de sua carreira – chegou a superar a vendagem dos Beatles. Mais do que mostrar a ascensão que o levou da pobreza ao estrelato, o filme quer contar uma história de amor (o título brasileiro deixa claro isso), daquelas cheias de percalços, mas destinada a ter um final feliz, bem ao gosto do grande público. Não é ruim, mas fica longe de empolgar. Phoenix e Witherspoon estão realmente bem, muito à vontade com seus personagens. No entanto, acho exagerados os altos elogios às atuações deles. Estão corretos e ponto. O coadjuvante Robert Patrick (que faz o pai de Cash), esse sim, merece destaque.
fevereiro 15, 2006
"Syriana - A indústria do petróleo"
Bob Baer (George Clooney) é agente da CIA há mais de 20 anos. Faz tudo - tudo mesmo - o que lhe mandam, porque acredita que isso é o melhor para seu país. Mas chega um dia em que a China ameaça atrapalhar os negócios dos EUA na região petrolífera do Oriente Médio. Escalado para investigar o príncipe Nasir Al-Subaai (que defende a negociação com os chineses), Baer vai provar do próprio veneno ao sentir na pele os efeitos colaterais da (falta de) moral da política norte-americana para defender seus interesses comerciais. E essa é apenas uma das histórias que o diretor nos apresenta. Para entender toda a intrincada trama que assola a indústria do petróleo, "Syriana" ainda aborda o tráfico de armas, a fusão de grandes empresas do ouro negro, o desemprego que leva jovens imigrantes desamparados ao fanatismo religioso, o ardiloso jogo de politicagem, traições e assassinatos. Tudo isso num roteiro inteligente e ágil que não permite um só momento de desatenção por parte do público. Clooney - que engordou quase 40 quilos para viver seu personagem - tem uma atuação correta e, como essas transformações físicas encantam a academia, pode levar seu Oscar por coadjuvante. No entanto, no meio de tantos bons atores que integram o elenco (Matt Damon, Chris Cooper, William Hurt, Amanda Peet, Christopher Plummer, Jeffrey Wright, etc), o destaque fica mesmo com Alexander Siddig que, ao construir seu príncipe Nasir, põe tanta humanidade no personage, a ponto de transformá-lo no herói de "Syriana".
fevereiro 14, 2006
"Orgulho & Preconceito"
Essa adaptação do romance de Jane Austen narra os obstáculos que o amor terá de superar - na Inglaterra do século XVIII - para vencer sentimentos tão intensos quanto o orgulho e o preconceito. Keira Knightley é Elizabeth Bennet: moça simples, que lê muito, que zomba da inteligência dos homens, que não tem papas na língua, enfim, que vive muito à frente do seu tempo. Mr. Darcy (Matthew Macfadyen) é um ilustre cavalheiro da alta sociedade londrina, homem de poucas palavras, um tanto quanto sisudo e, por isso mesmo, de aparência esnobe. Também não era para menos com uma família como a de Elizabeth, cuja mãe só pensa em casar - e bem - as 5 filhas. Apesar do final previsível, a história de amor entre a plebéia e o nobre traz muitas surpresas até chegar ao seu desfecho (e isso vale o filme). Gosto da direção de arte e dos figurinos; da fotografia - ora escura, ora luminosa - que ressalta muito bem o embate das classes sociais; não gosto da utilização da música (não é ela que tem que puxar as lágrimas, né?); acho que a interpretação de Keira não mereceu a indicação ao Oscar (apesar da moça não fazer feio). E Judi Dench - para variar - arrebenta nos poucos minutos em que aparece em cena.
"Menina de Ouro"
"Menina de Ouro" prova que Mr. Eastwood é como vinho bom na Meca do Cinema. Seus filmes estão cada vez melhores e impregnados de características peculiares desse cineasta que – outrora durão – tem-se especializado em fazer cinema com uma sensibilidade memorável: direção enxuta, trilha minimalista, atuações brilhantes, fotografia de tons sombrios... Muito já se falou sobre "Menina de Ouro", que tem encantado multidões e desagradado alguns poucos pelo roteiro previsível (sic). Sou obrigado a discordar desses últimos porque é somente na superfície, naquilo que a história tem de mais evidente – a luta de uma garota para convencer um treinador ranzinza a introduzi-la no mundo do ringues – que deduzimos (em parte) os rumos desse filme melancólico e encantador.
Se a arte de fazer cinema é aquela de contar sempre a mesma história de forma diferente, Eastwood é grandioso aqui. Apesar dos muitos clichês dos filmes de boxe estarem presentes em "Million Dollar Baby", ele consegue subvertê-los, colocando-os como trampolim para falar de sentimentos como rejeição, culpa, solidão, (in)decisão, confiança, (des)encantos, arrependimentos, medos, ceticismo, traições e, evidentemente, amor. São as reflexões e as emoções desencadeadas a partir deles que dão um nocaute em quem está tranqüilamente recostado na sua poltrona na sala de projeção. E o diretor faz isso tão bem que o público se sente como as adversárias da pugilista Maggie Fitzgerald (Hilary Swank em boa atuação, lembrando os tempos de "Meninos não choram"): tudo é luminoso até o momento em que o chão some dos pés e vem a escuridão. Acontece uma mudança de ritmo fabulosa no terço final de "Menina de Ouro". É quando todos aqueles sentimentos citados acima entram no ringue ao mesmo tempo e fica praticamente impossível deduzir o que irá acontecer. Nessa hora, cada espectador da platéia faz suas apostas e espera quietinho o final da luta – digo, do filme. Quando as luzes se acendem, fica evidente que o grande vencedor é o Cinema, com "C" maiúsculo mesmo. Seja pelo entretenimento, pelas lágrimas ou pela perícia em conduzir um grupo de atores por um caminho aparentemente conhecido, mas que – no entanto – leva a um horizonte inusitado, Clint Eastwood dá aula de bom cinema e mostra que Hollywood é bem mais que glamour. "Menino" de ouro esse diretor...
Se a arte de fazer cinema é aquela de contar sempre a mesma história de forma diferente, Eastwood é grandioso aqui. Apesar dos muitos clichês dos filmes de boxe estarem presentes em "Million Dollar Baby", ele consegue subvertê-los, colocando-os como trampolim para falar de sentimentos como rejeição, culpa, solidão, (in)decisão, confiança, (des)encantos, arrependimentos, medos, ceticismo, traições e, evidentemente, amor. São as reflexões e as emoções desencadeadas a partir deles que dão um nocaute em quem está tranqüilamente recostado na sua poltrona na sala de projeção. E o diretor faz isso tão bem que o público se sente como as adversárias da pugilista Maggie Fitzgerald (Hilary Swank em boa atuação, lembrando os tempos de "Meninos não choram"): tudo é luminoso até o momento em que o chão some dos pés e vem a escuridão. Acontece uma mudança de ritmo fabulosa no terço final de "Menina de Ouro". É quando todos aqueles sentimentos citados acima entram no ringue ao mesmo tempo e fica praticamente impossível deduzir o que irá acontecer. Nessa hora, cada espectador da platéia faz suas apostas e espera quietinho o final da luta – digo, do filme. Quando as luzes se acendem, fica evidente que o grande vencedor é o Cinema, com "C" maiúsculo mesmo. Seja pelo entretenimento, pelas lágrimas ou pela perícia em conduzir um grupo de atores por um caminho aparentemente conhecido, mas que – no entanto – leva a um horizonte inusitado, Clint Eastwood dá aula de bom cinema e mostra que Hollywood é bem mais que glamour. "Menino" de ouro esse diretor...
PS: O texto foi escrito à época do lançamento do filme. Publico aqui em função do resultado do "Alfred 2006", uma espécie de Oscar da "Liga dos Blogues Cinematográficos". A Liga é formada por mais de 60 blogueiros (eu, inclusive) que escrevem sobre cinema e a terceira edição do Alfred consagrou "Menina de Ouro" como o melhor filme de 2005.
fevereiro 09, 2006
"A marcha dos pingüins"
O filme conta a saga dos pingüins-imperadores para o ritual do acasalamento nas inóspitas geleiras da Antártida . Pelo que o documentário apresenta de curiosidades e obstáculos, essa batalha pela perpetuação da espécie já tem elementos suficientes para prender atenção do público. No máximo, seria necessária uma narração ocasional para explicar algumas etapas desse romance polar. As imagens belíssimas e as situações dramáticas enfrentadas pelas aves marinhas falam por si, dispensando os "diálogos" e "monólogos" que são colocados nos seus bicos.
fevereiro 06, 2006
"Memórias de uma gueixa"
Antes da 2ª Guerra Mundial, uma japonesinha de olhos azuis é vendida pelos pais para uma okiya (casa de gueixas) em Kyoto. Sua trajetória de criada até o posto de gueixa mais cobiçada e invejada do hanamachi (bairro das gueixas) tem apelo de melodrama. Assim, ela - sempre correta e boazinha - enfrenta toda a sorte de maldades e mentiras para tentar conquistar seus sonhos (ainda que um deles - viver um grande amor - seja proibido para uma moça da sua "categoria"). A gueixa de olhos é azuis é vivida pela bela e talentosa Zhang Ziyi (de "O caminho para casa", "O tigre e o dragão" e "O clã das adagas voadoras"). Para mim, um quase-problema do filme é que a antagonista, a gueixa-má, é a ainda mais deslumbrante e igualmente talentosa Gong Li (de "Lanternas Vermelhas", "2046" e "Eros"). Assim, ficava difícil torcer pela mocinha quando essa estupenda vilã entrava em cena. O roteiro linear - e até certo ponto previsível - ganha o reforço de atributos técnicos impecáveis como fotografia, direção de arte e figurinos. O problema é que Rob Marshall não é Zhang Yimou.
fevereiro 02, 2006
"O segredo de Brokeback Mountain"
(Brokeback Mountain, 2005 - Ang Lee)Segundo dados do IMBb, já são 90 indicações e 40 prêmios. E é pouco, merece muito - mas muito - mais. Ang Lee trabalha essa história de amor de forma magistral: é sutil quando tem de ser, é intensa quando não é preciso esconder, é contraditória quando não é fácil aceitar, é sincera em todos os momentos. E só poderia ser retratado assim o amor entre dois caubóis norte-americanos às vésperas da Guerra do Vietnã. E o segredo - conhecido já por todo mundo antes de entrar na sala do cinema - é o que menos importa: o filme nos entrega muitas outras emoções. As atuações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são preci(o)sas e "Brokeback Mountain" deve muito do seu sucesso a eles. Fotografia, música e edição impecáveis (eu só tiraria um flashback sobre um incidente na infância de um dos caubóis). E a direção de Ang Lee - objetiva, segura e sensível - merece todas as ovações. É o filme do ano.
. . . . . (5 dias mais tarde) . . . . .
No final de semana, revi "O segredo de Brokeback Mountain". A sensação de ter assistido a um grande filme se repetiu. Ressalto aqui a interpretação de Heath Ledger, falando para dentro, quase inaudível. A composição do personagem vale a indicação ao Oscar por traduzir de forma inequívoca sua angústia, solidão e ambigüidade emocional. Para o ator - de quem tinha visto apenas filmes risíveis, com a exceção de "A última ceia" - foi um grande salto. Quanto a Jake Gyllenhaaal, entregou o que eu esperava (e isso não é pouco): ele já mostrara belas atuações, como em "Donnie Darko" e "Vida que segue". O trabalho dos dois funcionou muito bem (e olha que - para atores tão jovens em papéis tão intensos - não deve ter sido fácil). A busca de Jack pela felicidade e o medo de Ennis em compartilhar sentimentos transformou a relação dos caubóis num barril de pólvora, onde uma só faísca era suficiente para fazer explodir tanto desejos quanto repulsas. Conduzir o filme sobre esse fio de navalha foi o grande desafio e, também, a grande realização de Ang Lee.

. . . . . (quase 1 mês e meio depois) . . . . .
Não é somente a amplidão dos vales da Montanha Brokeback que fazem analogia à grandeza do sentimento que envolve os dois caubóis. Também seu relevo parece retratar a relação de altos e baixos dos dois: descoberta, desejo, sexo, dúvidas, medo, separação, reencontro, certezas, fogo, sonho, medo, separação, saudade, dor, frustração, reencontro, prazer, alegria, aconchego, despedida, medo, medo, medo, medo, medo, sonho, separação, dor, sofrimento, amor, medo... Enquanto um busca a felicidade, o outro abraça a dor. É o medo afugentando todas as coisas boas que cercam o casal. O ritmo lento - mas em nenhum momento arrastado - com que Ang Lee conduz essa história de amor e a música minimalista de Santaolalla só fazem acentuar cada um dos sentimentos que explodem na tela. É por isso que, ao final da sessão de "O segredo de Brokeback Mountain", o silêncio pesa sobre uns, as lágrimas sufocam outros e os suspiros parecem gelar os corações de todos... mesmo quando se assiste ao filme pela terceira vez.
fevereiro 01, 2006
"A passagem"
Ainda estou juntando os cacos. Marc Forster mistura tanto as identidades das personagens em " A passagem", que desde ontem venho pensando, colando fragmentos, relembrando diálogos para ver se monto o quebra-cabeça, se desvendo os mistérios desse filme. Imagina um psiquiatra (Ewan McGregor) - cuja namorada (Naomi Watts) é artista e já tentou suicidar-se - cuidando de um paciente (Ryan Gosling, de "Tolerância Zero") também artista que irá tirar a própria vida em 3 dias. É brincando com essas e tantas outras coincidências que o diretor constrói um filme frenético com uma edição idem, que celebra a loucura da história - ora com cortes abruptos, ora com fusões sutis - de maneira magnificamente eletrizante. No final das contas, não nos é entregado o que é sonho ou realidade. Mas, talvez, isso seja o bacana desse thriller psicológico. Em tempo: o trio de protagonistas dá um show.
janeiro 31, 2006
"Manderlay"
Em “Manderlay”, as marcações teatrais e a quase absoluta ausência de elementos no cenário já não causam o impacto do seu antecessor. Essa surpresa, eu esperava mesmo era da história: a chegada de Grace a uma propriedade escravocrata em 1933 – quando a abolição já tinha sido decretada nos EUA há 70 anos – promete conflitos, desafios e revelações. E o filme entrega tudo isso, mas – apesar das várias analogias interessantes que a posição libertária e democrática de Grace podem provocar – “Manderlay” me envolveu e inquietou menos que “Dogville”. Ainda assim, está longe de ser um exemplar menor de Lars von Trier e consegue manter o interesse pelo que virá na parte final de sua trilogia sobre a “Terra das Oportunidades”. Bryce Dallas Howard está bem como a filha do gângster que quer mudar o mundo, mas falta-lhe – não o talento, mas – um certo não-sei-quê de maturidade que Nicole Kidman esbanjou para construir sua personagem no filme anterior.
janeiro 30, 2006
"Munique"
Não é que o filme não tenha qualidades - ele as tem sim! As atuações são bacanas, o roteiro não desliza, as locações e reconstituição de época estão ok, a fotografia meio lavada - em tons acinzentados - passa bem o clima da desolação que precisa ser mostrada. Mas contar a história do desdobramento do assassinato da comissão olímpica israelense em Munique pedia mais do que explosões e alguns mea culpas. Porque a vingança com suas perseguições e matanças à moda terrorista (com tudo voando pelos ares) por quase 3 horas não surpreende, choca menos a cada bomba, é esperada e recebida com bocejos (na sessão em que eu estava, mais de 20 pessoas deixaram a sala antes do término da projeção). Lá vou eu repetir "King Kong" mas - convenhamos! - uma hora a menos de duração faria um bem a "Munique" que a Universal e a Dreamworks nem fazem idéia! O que o filme tem de mais interessante - e no fundo, acho que era isso que eu esperava assistir - só aparece na meia hora final: o questionamento sobre todas aquelas mortes, a constatação de que sangue só traz mais sangue de volta, as culpas, as angústias... enfim, se o lado mais íntimo dos ativistas israelenses, com suas dúvidas e medos, tivesse sido o foco de "Munique", o filme seria muito melhor. Tenho certeza!
janeiro 26, 2006
"Oliver Twist"
Mais uma vez, a adaptação do romance de Dickens para o cinema ficou bacana, correta, respeitosa, cenários e figurinos primorosos, atuações perfeitas (o garoto Barney Clark, de 11 anos, que faz o personagem-título é uma gracinha), fotografia deslumbrante, direção correta. Ainda assim, gostei mais do "Oliver Twist" do David Lean (e olha que já não ficara muito deslumbrado com essa versão em p&b de 1948). Talvez seja porque a fábula do órfão sofrido e bonzinho que foge para Londres e é acolhido por uma gangue de larápios-mirins agenciada pelo inescrupuloso - e asqueroso - Fagin (vivido aqui pelo sempre eficiente Ben "Gandhi" Kingsley) não me toque muito. É tudo muito bonito, bem feito, mas não me toca. Vai entender... Em tempo: o cachorro do picareta Bill Sykes, comparsa do Fagin, é show; um exemplo de como o adestramento de animais tem gerado "personagens" cativantes.
janeiro 25, 2006
"Tudo em família"
Nem foi o excesso de clichês que me incomodou tanto nessa comédia sobre um Natal em família onde a futura noiva (Sarah Jessica Parker ótima, como já era de se esperar) do primogênito será apresentada aos "parentes". O que me intrigou mesmo foi a maneira gratuita com que todo mundo - sem exceção - antipatizou e/ou destratou a infeliz convidada. Depois que eu aceitei essa premissa do filme, veio o pior: a fórmula fácil (e preguiçosa) escolhida para desatar os nós e desfazer as amarras entre os personagens. Uma doença daqui, uma troca de casais dali, um presente de lá; tudo muito simples para relações que pareciam tão intricadas. Ainda assim, achei o filme divertido (se bem que o clichezão do ônibus, pelamordedeus...) e, além da Mrs. Parker, se saem bem Rachel McAdams (a cunhada malvada), Luke Wilson (o cunhado viajandão) e Diane Keaton (a matriarca do clã dos Stones) - apesar dela estar longe de suas melhores atuações.
PS: Vi os trailers de "Match Point" com a Scarlett Johansson e de "Munique" com o Eric Bana (de "Hulk" e "Tróia"). O primeiro me impressionou bastante pelo que o triângulo amoroso traz de tensão e obsessão num filme de Woody Allen (!). Já o segundo... (com o tique nervoso de limpar a garganta da Meredith de "Tudo em família") ... Spielberg é Spielberg - para o bem e para o mal - e esse "Munique" me pareceu meio dejà-vu. Quero ver, mas não espero muito não.
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