Ele é um nordestino humilde e trabalhador em busca da sobrevivência na cidade grande. Parece muito clichê? Ao assistir a "Estômago", você vai perceber que o filme de Marcos Jorge vai muito além disso, dissecando a gênese do poder e o seu lado mais perverso. Para mais detalhes, clique aqui.
maio 26, 2008
"Um beijo roubado"
Em trabalhos recentes, como “Amor à flor da pele (2000)” e “2046 - Os segredos do amor (2004)”, Wong Kar-Wai abordou as desilusões amorosas. No primeiro filme, elas são impostas pelas rígidas convenções sociais que pesam sobre a união de um casal de amantes na Hong Kong dos anos 1960. No segundo, o amor não se consuma porque o personagem está, na verdade, atrás de uma mulher do passado. Mas com “Um beijo roubado”, seu primeiro filme com atores não-chineses e todo falado em inglês, o diretor acena para a possibilidade de um desfecho diferente.
A história começa num café em Nova York, onde Elizabeth (boa estréia da cantora Norah Jones como atriz) chega em busca de informações sobre o namorado, freqüentador do local. Certa de que seu romance chegou ao fim, ela deixa as chaves do apartamento com Jeremy (Jude Law), proprietário do estabelecimento, para que sejam devolvidas ao ex. No entanto, a moça acaba retornando ao café todas as noites. Conversa vai, conversa vem, uma torta daqui, uma bebida dali, um vínculo se estabelece entre Elizabeth e Jeremy. Ainda assim, ela decide partir sem destino certo, percorrendo o interior do país enquanto descobre as estradas recônditas de sua própria alma. De cidade em cidade, vai trabalhando como garçonete, conhece outras histórias de solidão e prepara o caminho de volta para a alegria e os novos sonhos.
Por se transformar numa espécie de road-movie na sua segunda metade, “Um beijo roubado” abandona os ambientes fechados e opressores, comuns ao trabalho de Kar-Wai, e nos entrega a amplidão das paisagens desérticas dos EUA. Porém, as demais características do cinema do diretor estão todas lá: as cores fortes, as câmeras lentas, as canções apaixonadas e as belas mulheres. Nesse último quesito, se você reparar bem, verá traços de semelhança nos rostos das personagens de Norah Jones, Natalie Portman e Rachel Weisz, como se essa escolha de elenco estivesse nos dizendo que na dor somos todos (quase) iguais. E por falar em Rachel Weisz, ela nunca esteve tão deslumbrantemente sedutora como nesse papel da ex-esposa de um policial alcoólatra, vivido com brilhantismo pelo ator David Strathairn. Com certeza, a história dos dois é a parte mais (in)tensa do filme.
Mas é dentro do charmoso café nova-iorquino que se encontram os muitos elementos metafóricos que enriquecem o roteiro de “Um beijo roubado” e aguçam os sentidos de quem busca as delicadezes e sutilezas da obra de Wong Kar-Wai: a torta de blueberry intocada à espera de quem queira descobrir seu sabor; as chaves deixadas pelos amantes abandonados; as portas que não podem seguir trancadas para sempre; a câmera de segurança cujos registros servem para proteger sim, mas da solidão...
E eu não poderia terminar esse texto sem falar do tal roubo descrito no título do filme. Ainda que ele aconteça na primeira metade da película, o cineasta nos reserva os instantes finais para revelar o significado e as consequências daquele beijo, que já entrou para a galeria dos mais belos e criativos de todos os tempos. Quer ver outra grande decisão do diretor? Eu já dava como certo que a interpretação encantadora de Otis Redding para “Try a little tenderness”, que pontua boa parte da película, encheria a sala no exato momento em que os lábios se tocassem. Ledo engano! É o silêncio absoluto que entra em cena, deixando ainda mais inesquecível aquela promessa de felicidade.
A história começa num café em Nova York, onde Elizabeth (boa estréia da cantora Norah Jones como atriz) chega em busca de informações sobre o namorado, freqüentador do local. Certa de que seu romance chegou ao fim, ela deixa as chaves do apartamento com Jeremy (Jude Law), proprietário do estabelecimento, para que sejam devolvidas ao ex. No entanto, a moça acaba retornando ao café todas as noites. Conversa vai, conversa vem, uma torta daqui, uma bebida dali, um vínculo se estabelece entre Elizabeth e Jeremy. Ainda assim, ela decide partir sem destino certo, percorrendo o interior do país enquanto descobre as estradas recônditas de sua própria alma. De cidade em cidade, vai trabalhando como garçonete, conhece outras histórias de solidão e prepara o caminho de volta para a alegria e os novos sonhos.
Por se transformar numa espécie de road-movie na sua segunda metade, “Um beijo roubado” abandona os ambientes fechados e opressores, comuns ao trabalho de Kar-Wai, e nos entrega a amplidão das paisagens desérticas dos EUA. Porém, as demais características do cinema do diretor estão todas lá: as cores fortes, as câmeras lentas, as canções apaixonadas e as belas mulheres. Nesse último quesito, se você reparar bem, verá traços de semelhança nos rostos das personagens de Norah Jones, Natalie Portman e Rachel Weisz, como se essa escolha de elenco estivesse nos dizendo que na dor somos todos (quase) iguais. E por falar em Rachel Weisz, ela nunca esteve tão deslumbrantemente sedutora como nesse papel da ex-esposa de um policial alcoólatra, vivido com brilhantismo pelo ator David Strathairn. Com certeza, a história dos dois é a parte mais (in)tensa do filme.
Mas é dentro do charmoso café nova-iorquino que se encontram os muitos elementos metafóricos que enriquecem o roteiro de “Um beijo roubado” e aguçam os sentidos de quem busca as delicadezes e sutilezas da obra de Wong Kar-Wai: a torta de blueberry intocada à espera de quem queira descobrir seu sabor; as chaves deixadas pelos amantes abandonados; as portas que não podem seguir trancadas para sempre; a câmera de segurança cujos registros servem para proteger sim, mas da solidão...
E eu não poderia terminar esse texto sem falar do tal roubo descrito no título do filme. Ainda que ele aconteça na primeira metade da película, o cineasta nos reserva os instantes finais para revelar o significado e as consequências daquele beijo, que já entrou para a galeria dos mais belos e criativos de todos os tempos. Quer ver outra grande decisão do diretor? Eu já dava como certo que a interpretação encantadora de Otis Redding para “Try a little tenderness”, que pontua boa parte da película, encheria a sala no exato momento em que os lábios se tocassem. Ledo engano! É o silêncio absoluto que entra em cena, deixando ainda mais inesquecível aquela promessa de felicidade.
maio 20, 2008
Demas no SRZD 2
A história é muito boa, a trilha sonora é espetacular, o elenco está afiadíssimo com o espírito kar-waiano de filmar... Tudo funciona bem, mas o filme é - sem sombra de dúvida - da coadjuvante Rachel Weisz, linda como nunca antes, defendendo uma personagem amargurada pelo término de um relacionamento que parece não ter fim. Quer saber mais sobre "Um beijo roubado"? É só clicar aqui.
"Sicko - $O$ Saúde"
Costuma-se dizer que os filmes de Michael Moore são falsos documentários, por causa do caráter manipulador do diretor. Para mim, o que interessa é que ele toca na ferida e faz o público pensar bastante sobre os temas abordados. Foi assim com “Tiros em Columbine”, sobre a obsessão dos cidadãos norte-americanos por armas de fogo, mostrando – dentre outras coisas – a facilidade de adquiri-las, bastando chegar na loja, pedir o modelo desejado, pagar e sair. Algo tão simples como comprar uma camiseta.
Agora, em “Sicko - $O$ Saúde”, ele aponta sua câmera para a máfia dos planos de saúde na Terra do Tio Sam, com seus valores altíssimos (e inacessíveis para quase 50% da população) e restrições absurdas, incluindo pagamento de bônus aos médicos-peritos com percentual diretamente proporcional ao número de exames e procedimentos negados aos pacientes. Moore ilustra toda essa sordidez entrevistando um grupo de doentes americanos. Seus dramas beiram o absurdo.
A fim de incitar ainda mais o público e os "mafiosos empresários e políticos", o diretor resolve visitar países como Canadá, Inglaterra e França - tão capitalistas quanto os EUA - para entender seus sistemas de saúde socializada. O que vemos a partir de então é inacreditável: em todas essas nações, o paciente é (muito bem) atendido, qualquer que seja sua necessidade, sem encargo algum. Há inclusive casos em que o hospital paga até a passagem de volta para casa, quando o enfermo não tem condições financeiras de fazê-lo.
“Para cuidar assim do seu povo, então esses governantes não devem pagar seus profissionais de saúde a contento”, instiga Moore num dado momento, para em seguida mostrar o Astra e o sobrado de US$ 1 milhão de um dos médicos europeus. “Então, o gargalo está no cidadão, que deve pagar uma carga tributária monstruosa”, continua Moore. Qual o quê! A maior preocupação de um casal de classe média entrevistado é com o preço do pescado e com as viagens de férias(!). E as mamães francesas?! Além da licença-maternidade, elas ganham o auxílio de uma assistente (entenda-se babá, faxineira, cozinheira...), de 2 a 3 vezes por semana, com tudo pago... pelo governo.
Mas é na parte final que vem a alfinetada maior: o provocador Moore leva o grupo de americanos para ser examinado e tratado em Cuba. E mais não direi. A não ser que saí do cinema estarrecido, escandalizado e indignado com o caos da sáude norte-americana. Por quê? Porque qualquer semelhança com o que enfrentamos no Brasil não é mera coincidência.
Agora, em “Sicko - $O$ Saúde”, ele aponta sua câmera para a máfia dos planos de saúde na Terra do Tio Sam, com seus valores altíssimos (e inacessíveis para quase 50% da população) e restrições absurdas, incluindo pagamento de bônus aos médicos-peritos com percentual diretamente proporcional ao número de exames e procedimentos negados aos pacientes. Moore ilustra toda essa sordidez entrevistando um grupo de doentes americanos. Seus dramas beiram o absurdo.
A fim de incitar ainda mais o público e os "mafiosos empresários e políticos", o diretor resolve visitar países como Canadá, Inglaterra e França - tão capitalistas quanto os EUA - para entender seus sistemas de saúde socializada. O que vemos a partir de então é inacreditável: em todas essas nações, o paciente é (muito bem) atendido, qualquer que seja sua necessidade, sem encargo algum. Há inclusive casos em que o hospital paga até a passagem de volta para casa, quando o enfermo não tem condições financeiras de fazê-lo.
“Para cuidar assim do seu povo, então esses governantes não devem pagar seus profissionais de saúde a contento”, instiga Moore num dado momento, para em seguida mostrar o Astra e o sobrado de US$ 1 milhão de um dos médicos europeus. “Então, o gargalo está no cidadão, que deve pagar uma carga tributária monstruosa”, continua Moore. Qual o quê! A maior preocupação de um casal de classe média entrevistado é com o preço do pescado e com as viagens de férias(!). E as mamães francesas?! Além da licença-maternidade, elas ganham o auxílio de uma assistente (entenda-se babá, faxineira, cozinheira...), de 2 a 3 vezes por semana, com tudo pago... pelo governo.
Mas é na parte final que vem a alfinetada maior: o provocador Moore leva o grupo de americanos para ser examinado e tratado em Cuba. E mais não direi. A não ser que saí do cinema estarrecido, escandalizado e indignado com o caos da sáude norte-americana. Por quê? Porque qualquer semelhança com o que enfrentamos no Brasil não é mera coincidência.
maio 19, 2008
"Apenas uma vez"
Na sua “Canção de protesto”, Caetano Veloso diz que “99 e um pouco mais por cento das músicas que existem são de amor”. Em “Apenas uma vez”, essa estatística chega a 100%. Isso mesmo: todas as canções do filme são de amor e não poderia ser diferente, uma vez que a proposta inicial do diretor e roteirista John Carney era fazer um longa-metragem onde as composições se encaixassem no roteiro para revelar as verdades dos seus personagens. Com isso, o público ganhou um musical que – se não possui o glamour associado ao gênero – tem uma trilha sonora arrebatadora, justamente por ser a alma da película.
Para conseguir realizar essa façanha com tamanho êxito, temos uma boa justificativa: foram chamados, para viver o casal de protagonistas, os músicos Glen Hansard e Markéta Irglová, que são responsáveis pela composição e/ou interpretação da maioria absoluta das canções ouvidas em “Apenas uma vez”. Ele já havia trabalhado com Alan Parker em “The Commitments – Loucos pela fama (1991)”e é vocalista da “The Frames”, banda de sucesso na Irlanda; ela – que tinha apenas 17 anos durante as gravações - é uma compositora e multiinstrumentista tcheca estreando como atriz. Na vida real, eles se conheceram quando Hansard fez uma viagem a Praga, onde tocaram juntos, o que rendeu a participação de Irglová no primeiro álbum solo dele e a indicação para interpretar a garota do filme.
Já em “Apenas uma vez”, o encontro se dá numa calçada de Dublin, onde uma jovem vendedora de flores – que aprendeu a tocar piano ainda pequena, incentivada pelo pai – é atraída pela apresentação de um cantor de rua. Imediatamente, uma afinidade se estabelece, até porque eles têm outra coisa em comum: o coração partido. É essa desilusão amorosa que alimenta as letras do músico. E é a intensidade dos sentimentos dele, revelada nas canções, que a pianista gostaria de ter encontrado no parceiro que a abandonou, quando ela resolveu deixar a República Tcheca para tentar a sorte na Irlanda. Está armado o cenário para que muitas emoções envolvam esses amantes abandonados.
Dali até o final do filme, as músicas se sucedem para revelar as histórias desses personagens, descrevendo seus medos e decepções, alegrias e sonhos, enquanto uma nova realidade vai sendo orquestrada por essa aproximação que promete mudar suas rotinas e vidas. Numa das cenas mais belas do longa, os dois vão até uma loja de instrumentos, onde ele mostra a letra de uma canção, seus acordes ao violão e a convida para acompanhá-lo no piano. É nesse momento que o público ouve “Falling slowly”, canção que levou o Oscar 2008. Impossível não se emocionar, o que acontece também durante a execução de “The hill”, composta pela garota e interpretada numa sala praticamente escura, como se assim ela pudesse ocultar o sofrimento que aquela canção carrega. O plano-sequência do final é igualmente espetacular: ah, se fosse possível decifrar aquele olhar atravessando a janela enquanto a câmera se distancia da cena...
Por representar mais da metade da duração do filme, a trilha sonora é, literalmente, a força-motriz de “Apenas uma vez”, uma produção de estrutura simples, baixo orçamento, com elenco pequeno e desconhecido. Ainda assim, John Carney reverteu a lógica, transformando pouco em muito, ao deixar que suas lentes registrassem uma história universal de descobertas, superação e gratidão, com um final tão delicado e verdadeiro quanto os sentimentos que transformaram dor e angústia em belíssimas canções.
Para conseguir realizar essa façanha com tamanho êxito, temos uma boa justificativa: foram chamados, para viver o casal de protagonistas, os músicos Glen Hansard e Markéta Irglová, que são responsáveis pela composição e/ou interpretação da maioria absoluta das canções ouvidas em “Apenas uma vez”. Ele já havia trabalhado com Alan Parker em “The Commitments – Loucos pela fama (1991)”e é vocalista da “The Frames”, banda de sucesso na Irlanda; ela – que tinha apenas 17 anos durante as gravações - é uma compositora e multiinstrumentista tcheca estreando como atriz. Na vida real, eles se conheceram quando Hansard fez uma viagem a Praga, onde tocaram juntos, o que rendeu a participação de Irglová no primeiro álbum solo dele e a indicação para interpretar a garota do filme.
Já em “Apenas uma vez”, o encontro se dá numa calçada de Dublin, onde uma jovem vendedora de flores – que aprendeu a tocar piano ainda pequena, incentivada pelo pai – é atraída pela apresentação de um cantor de rua. Imediatamente, uma afinidade se estabelece, até porque eles têm outra coisa em comum: o coração partido. É essa desilusão amorosa que alimenta as letras do músico. E é a intensidade dos sentimentos dele, revelada nas canções, que a pianista gostaria de ter encontrado no parceiro que a abandonou, quando ela resolveu deixar a República Tcheca para tentar a sorte na Irlanda. Está armado o cenário para que muitas emoções envolvam esses amantes abandonados.
Dali até o final do filme, as músicas se sucedem para revelar as histórias desses personagens, descrevendo seus medos e decepções, alegrias e sonhos, enquanto uma nova realidade vai sendo orquestrada por essa aproximação que promete mudar suas rotinas e vidas. Numa das cenas mais belas do longa, os dois vão até uma loja de instrumentos, onde ele mostra a letra de uma canção, seus acordes ao violão e a convida para acompanhá-lo no piano. É nesse momento que o público ouve “Falling slowly”, canção que levou o Oscar 2008. Impossível não se emocionar, o que acontece também durante a execução de “The hill”, composta pela garota e interpretada numa sala praticamente escura, como se assim ela pudesse ocultar o sofrimento que aquela canção carrega. O plano-sequência do final é igualmente espetacular: ah, se fosse possível decifrar aquele olhar atravessando a janela enquanto a câmera se distancia da cena...
Por representar mais da metade da duração do filme, a trilha sonora é, literalmente, a força-motriz de “Apenas uma vez”, uma produção de estrutura simples, baixo orçamento, com elenco pequeno e desconhecido. Ainda assim, John Carney reverteu a lógica, transformando pouco em muito, ao deixar que suas lentes registrassem uma história universal de descobertas, superação e gratidão, com um final tão delicado e verdadeiro quanto os sentimentos que transformaram dor e angústia em belíssimas canções.
maio 11, 2008
Você é o que você vê
Recentemente, o jornal O Popular (GO) publicou uma reportagem sobre a dissertação de mestrado do psicólogo Keynes Fortes, que procura estabelecer uma relação entre o gênero de filme e a personalidade de quem o assiste, algo assim bem traduzido pelo título da matéria: "Diga-me o que vês e... (eu direi quem tu és)". Fortes entrevistou mais de 900 espectadores, distribuindo suas características comportamentais em 15 categorias cinematográficas. A repórter Rute Guedes ouviu alguns cinéfilos que falaram sobre suas preferências e corroboraram a tese do psicólogo. E você, o que pensa disso? Se quiser saber mais, é só clicar nos links acima.
maio 09, 2008
Demas no SRZD
A partir de hoje, estou com uma coluna semanal no site do jornalista Sidney Rezende. Assim, sempre às sextas-feiras, na editoria "Cultura", escreverei sobre algum filme que esteja em cartaz no país. Para começar, escolhi o musical "Apenas uma vez", vencedor do Oscar 2008 de canção original com a bela "Falling slowly". Para ler a crítica, clique aqui.
PS: Mas o Cine Dema(i)s seguirá seu ritmo normal, com mais comentários por aqui, a qualquer momento.
abril 28, 2008
Meme: filmes subestimados
Recebi o convite do Daniell para listar 5 filmes que eu considero subestimados pelo grande público. Quem me conhece sabe da minha dificuldade para listar melhores, piores e afins. Daí, ao invés de 5, citei o dobro. Então, vamos lá: aqui no Cine Dema(i)s, “convite feito é convite aceito”. Ah, e a ordem não obedece nenhuma preferência. Os comentários estão "linkados" nos títulos. Os números na frente de cada um são as médias alcançadas nas avaliações do IMDb e a quantidade de votantes.
1) Caiu do céu (7,2 / 8.901)
2) Pantaleão e as visitadoras (7,4 / 806)
3) Reconstrução de um amor (7,2 / 2.555)
4) O agente da estação (7,9 / 16.704)
5) O veneno da madrugada (6,2 / 45)
6) A festa de Babette (7,7 / 4.996)
7) Betty Blue (7,3 / 4.844)
8) A casa do lago (6,9 / 23.806)
9) Na cama (6,6 / 376)
10) Propriedade privada (7,2 / 346)
Tendo em vista que escolhi 10 filmes, vou subverter outra vez e convidar 10 blogueiros para continuarem essa corrente. Que fique claro para os convidados que bastam apenas 5 filmes e 5 novos convidados, ok? Passo a bola então para o Moacir (Cinefilia), Wallace (Crônicas Cinéfilas), Eduardo (Mira!), Janaina (Alfarrábio), Marina (Blowg), Fer (Cinefilia, Chatterbox e Chucrute com salsicha), Luis (El Mau), Suzi (Suzi), Beth (Tudo pode acontecer) e Kellen (Dedo de prosa).
março 14, 2008
"Estamos bem mesmo sem você"
No futebol, líbero é um zagueiro que, sem marcar especialmente nenhum adversário, tem por função aproveitar as ocasionais sobras de disputas de bola ou cobrir as eventuais falhas dos seus companheiros. E é nessa posição que se encaixa perfeitamente o pequeno Tommaso (Alessandro Morace em brilhante estréia) dentro do jogo desequilibrado de perdas e danos em que vive com o pai e a irmã mais velha.
Abandonados pela mãe, eles tentam tocar o barco familiar. O problema é que o mar em que navegam nunca está tranqüilo. O pai tenta suprir todas as lacunas - emocionais e caseiras - e está quase sempre à beira de um ataque de nervos. E os filhos, cheios de responsabilidades e cobranças, são apenas crianças tentando assumir uma postura adulta, o que acaba resultando em insegurança, medos, inconseqüência e desilusões...
O grande problema é que todas as vezes em que as coisas estão ficando mais calmas, a mãe retorna. E o marido - que cobra uma postura de vencedor, principalmente do filho - sempre cede. A fraqueza dele passa a ser co-responsável pelo caos emocional de todos, não ficando o papel de vilão apenas para a esposa desnaturada. Ao brincar de reestruturar o lar (porque ambos sabem que a reaproximação não vai durar), eles acabam abrindo mais feridas ao invés de cicatrizar as já existentes.
Num dos momentos mais tocantes de "Estamos bem mesmo sem você", Tommaso - que sonha ser jogador de futebol - se expõe deliberadamente ao fracasso, durante uma competição de natação, para mostrar que não quer mais saber daquele esporte. Ver o filho como um derrotado reforça um sentimento que o pai se recusa a enxergar em si mesmo, gerando mais briga, rancor e intolerância.
Mas passados alguns dias, é esse "basta!" do garoto que traz a reflexão e a possibilidade de harmonia para dentro de casa outra vez. Porque o fantasma da mãe-que-sempre-volta-para-tornar-a-ir-embora ainda irá assombrar, como revela a a última e mais emocionante cena do filme, protagonizada por Alessandro Morace, que é - sem sombra de dúvida - a estrela desse primeiro longa de Stuart, impregnando veracidade à montanha-russa de emoções do seu personagem. E olha que o núcleo de atores que compõe a família destroçada (Kim Rossi Stuart/pai, Barbora Bobulova/mãe e Marta Nobili/irmã) é praticamente impecável.
É curiosa a maneira como a fotografia realça a confusão de sentimentos que envolve toda a história. Quando a mãe está ausente e os abandonados parecem (muito) bem, ao tentar reconstruir suas vidas, são as sombras e penumbras que predominam. No entanto, a película se enche de cor e luz com o retorno da figura materna, apesar de toda a instabilidade, incerteza e angústia que ela traz consigo.
fevereiro 28, 2008
A política versus Anna e Marjane
As produções francesas "A culpa é do Fidel" e "Persépolis" têm muito mais em comum do que o idioma falado: ambas têm mulheres na direção e abordam a visão de crianças sobre as transformações políticas que adentram seus lares e deixam de cabeça para baixo tudo o que elas julgavam entender sobre o mundo.
Em "A culpa é do Fidel", a pequena Anna vive em Paris, em 1970, quando é arrancada de sua realidade pequeno-burguesa pelo pesadelo do comunismo. Pelo menos é assim que a babá cubana (que odeia Fidel Castro) explica as mudanças de comportamento dos pais da menina. A verdade é que ela vê sua casa ser "invadida" pela esposa e filha do seu tio espanhol, assassinado pelo ditadura franquista. Esse incidente mexe com os valores do pai de Anna, que viaja ao Chile após a eleição de Salvador Allende, e volta politicamente engajado, abandona o emprego, muda-se com a família para um apartamento menor e proibe que a filha frequente as aulas de catecismo. Todas essas mudanças caem como uma bomba sobre o mundinho de Anna, que passa a fazer coro com a babá contra os barbudos vermelhos.
O encantamento do filme está praticamente nas mãos da pequena estreante Nina Kervel-Bey (guardem esse nome!), que cria uma protagonista adorável, cuja curiosidade, inteligência e petulância são as armas utilizadas para defender as suas verdades. Em tempo: é o segundo trabalho de direção de Julie Gavras, filha do cineasta grego Constantin Costa-Gavras (de "Z", "Amém" e "O corte").
Em "Persépolis", o filme começa com a jovem iraniana Marjane vivendo em Paris e relembrando os acontecimentos políticos que marcaram sua infância e adolescência. Baseada nos quadrinhos da própria diretora, essa animação em preto-e-branco também concentra sua graça na inteligência da pequena e questionadora Marjane, ao tentar entender as transformações que a Revolução Iraniana provocava no seu mundinho, no final da década de 1970, com a queda da ditadura do xá Reza Pahlevi e a ascenção da república do aiatolá Khomeini. É engraçada a cena em que a garotinha diz não saber porque "está todo mundo falando mal do xá", sem entender que não existia liberdade anteriormente para tal manifestação. Mas o sonho de mudanças dura pouco, uma vez que a política do aiatolá exerce um controle também tirano sobre a população iraniana, interferindo na sua maneira de agir e vestir. E é essa dura realidade que leva Marjane ao exílio na França, aos 14 anos.
Apesar do tema forte, a história tem várias situações engraçadas, das brigas infantis às primeiras desilusões amorosas: a cena em que o "príncipe encantado" é pintado como um (quase) ogro é hilária. O filme - que foi indicado ao Oscar de animação - é a estréia em longa-metragem dos diretores e tem Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni (mãe e filha na vida real) dublando mãe e filha na ficção. Para quem ainda não sabe o porquê do nome do filme, Persépolis era a capital do Império Persa e, em 1979, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
fevereiro 27, 2008
"Na natureza selvagem"
Alguém poderia tentar me explicar por que esse filme foi tão esnobado pela Academia? A saga do jovem Chris (Emile Hirsch numa atuação cativante) em busca de valores e sentimentos que não encontra em casa é um soco no estômago de uma sociedade materialista, fria e dissimulada como a nossa. E o fato da atitute do rapaz ser bem radical (ir para o Alasca sem avisar a ninguém, simplesmente desaparecendo) nos dá a dimensão da sua solidão e deslocamento. Numa montagem (indicada ao Oscar) cheia de idas e vindas, acompanhamos as possíveis razões do afastamento e os grandes encontros que vão acontecendo pelo caminho do andarilho, todos fabulosos, seja pelo conteúdo dos diálogos ou pela atuação dos coadjuvantes, com destaque para Catherine Keener (a hippie), Vince Vaughn (o fazendeiro), Hal Holbrook (indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel do viúvo solitário), Marcia Gay Harden e William Hurt (pais do protagonista). Sean Penn - que assina roteiro e direção - fez um trabalho fabuloso com todo o elenco, que transborda emoção em cada cena com a mesma intensidade com que a natureza se revela ao longo da projeção. E o que dizer da trilha sonora? Ela literalmente nos faz mergulhar na essência da história e nos segura na poltrona até que o último crédito desapareça da tela. "Na natureza selvagem" é para ser visto e revisto e revisto e revisto e...
fevereiro 25, 2008
A (quase) perfeição do Oscar 2008
A 80ª edição do Oscar foi marcada por desejos e reparações. Primeiramente, porque há tempos não se tinha uma seleção de filmes tão boa. Ao saírem os indicados, era difícil ver alguém reclamando de injustiças. Mas ainda restava aquele receio de que o desfecho da festa pudesse deixar uma ressaca danada, como acontecera tantas outras vezes e - recentemente - em 2006, quando o franco favorito "O segredo de Brokeback Mountain" foi atropelado por "Crash - No limite" já na reta final. Por essa e outras, havia um grande desejo de que fosse diferente agora. E pelo menos dois dos indicados ao prêmio máximo poderiam ganhar sem causar grandes protestos. "Sangue negro" e "Onde os fracos não têm vez" vinham dividindo o posto de melhor filme segundo a crítica (e o público também), incensando - merecidamente - o trabalho dos diretores Paul Thomas Anderson e Joel & Ethan Coen. No entanto, havia ainda a possibilidade de que "Desejo e reparação" pudesse levar a estatueta, por ser um filme de estrutura mais clássica e convencional, bem a cara da Academia. Mas mesmo essa possibilidade, não seria de todo ruim, afinal a adaptação do livro "Reparação", do escritor Ian McEwan, foi muita elogiada.
Ao ganhar o prêmio de melhor ator coadjuvante, Javier Bardem abriu o caminho para a consagração do filme dos irmãos Coen. Nenhuma controvérsia, nenhum deslize da Academia aqui, visto que a irrepreensível criação do assassino da pistola de ar comprimido assustou (e encantou) o planeta, já colocando o personagem naquela galeria de criminosos inesquecíveis (?!) do cinema. E aí veio a estatueta de roteiro adaptado para "Onde os fracos não têm vez". Merecidíssima, afinal, a partir de uma história que parecia inadaptável para a telona, nasceu um filme envolvente e (in)tenso, para ficar com poucos adjetivos. A última vez em que os irmãos Coen foram ao Oscar com tantas chances de prêmios foi em 1997. O filme era "Fargo" e chegou ao Shrine Auditorium indicado em sete categorias e saiu com apenas duas estatuetas: roteiro original e atriz (Frances McDormand). Mas muitas outras boas produções deles foram injustamente esnobadas pela Academia. "Gosto de sangue (1984)", "Arizona nunca mais (1987)", "Ajuste final (1990)", "Na roda da fortuna (1994)" e "O grande Lebowski (1998) não receberam nenhuma indicação. Laureado com a Palma de Ouro, direção e ator em Cannes, "Barton Fink - Delírios de Hollywood (1991)" não ganhou nada no Oscar. O divertidíssimo "E aí, meu irmão, cadê você? (2000)" só recebeu duas indicações (roteiro adaptado e fotografia) e saiu de mãos abanando. E o competente "O homem que não estava lá (2001)" só foi indicado para fotografia. Mas em 2008, a reparação foi feita: Joel & Ethan foram eleitos os melhores diretores e "Onde os fracos não têm vez" levou o Oscar de melhor filme. É bem verdade que após a morte do caçador Moss (Josh Brolin), a história - que vinha frenética - dá uma freada brusca. Essa elipse do encontro final entre o protagonista e o assassino - que seria o ponto alto da película, em função do magnetismo dos dois personagens - é uma grande falha. A partir dali, o interesse pelo desfecho cai muito. Entretanto, pela maestria com que eles contruíram os 4/5 iniciais do filme e pelo conjunto da obra dos Coen, valem as estatuetas.
Pena mesmo é que "Sangue negro" tenha ficado somente com ator (Daniel Day-Lewis) e fotografia. Outra injustiça foi "Desejo e reparação" levar apenas trilha sonora. Aliás, acho que o filme merecia ter sido indicado em - pelo menos - outras três categorias: diretor (Joe Wright), ator (James McAvoy) e atriz (Keira Knightley). Também não concordei com o prêmio para atriz coadjuvante: Tilda Swinton está apenas correta em "Conduta de risco" e a estatueta me pareceu um consolo para o filme de Tony Gilroy. Deveria ter sido Cate Blanchett, por "Não estou lá" ou - até mesmo - Saoirse Ronan, por "Desejo e reparação". Todos têm falado muito de Javier Bardem no filme dos irmãos Coen, mas a atuação de Josh Brolin não deixa nada a desejar em relação à do ator espanhol. E, é claro, seu nome tinha de constar entre os indicados. Também não faço parte do grupo que tem incensado o roteiro de "Juno". Em nenhum momento, a história da adolescente que não soube evitar uma gravidez, mas que é supermadura para lidar com a doação do filho para um casal estéril, conseguiu me convencer e emocionar. A naturalidade com que a família da garota entende e aceita tudo é inverossímil. "Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da Rua Fleet", do Tim Burton, merecia ter levado o prêmio de figurino e poderia ter recebido indicações para maquiagem (ao invés dos batidos "Piratas do Caribe 3" ou "Norbit"), direção e filme (ambas no lugar de "Juno").
PS: E viva Marion Cotillard! Com todo respeito a Julie Christie, mas essa francesa é a razão de ser de "Um hino ao amor". Sem ela, o filme desafinaria.
janeiro 23, 2008
Heath Ledger

O primeiro trabalho de Ledger a que assisti foi "O patriota (2000)", do Roland Emmerich. E não gostei. Depois, vi "A última ceia (2001)", do Marc Foster, em que ele faz um suicida. Ali, sua atuação já me chamou a atenção. Mas foi com "O segredo de Brokeback Mountain (2005)" que ele passou para o time dos atores cuja presença no casting me fazem querer ir ao cinema. Tanto pela coragem de abraçar uma personagem polêmica como o cowboy Ennis Del Mar quanto pela atuação brilhante, Ledger tornou-se um dos meus jovens atores preferidos. Depois da obra-prima de Ang Lee, só fui ver o ator australiano outra vez em "Candy (2006)", do Neil Armfield, em que ele interpreta um viciado em heroína. Mais um bom trabalho. Em dezembro de 2007, aproveitei o recesso das festas de fim-de-ano para ver alguns filmes que deixei passar em branco nas telonas e dei uma atualizada na filmografia de Ledger. Vi "Coração de cavaleiro", "Casanova", "Honra & coragem: as quatro plumas" e "Os irmãos Grimm". E confirmei a certeza de estar diante de um talentoso jovem ator. Anteontem, conferi o trailer de "Batman - O cavaleiro das trevas". E não restou dúvida: o filme é do Coringa, é de Heath Ledger.
"Casanova"
Um filme de atores, onde as caracterizações são a alma do que se vê na tela. É isso que o "Casanova" de Hallström é. Assim, a tão conhecida saga de Casanova ganha graça através da atuações de Heath Ledger, Lena Olin, Jeremy Irons, Oliver Platt e Sienna Miller. Claro que ao subverter a lógica da história e colocar uma mulher que resiste às investidas do conquistador, o diretor agregou novidade e frescor ao seu projeto. Em função disso, o interesse vai aumentando à medida que o filme avança. Sem falar do cenário: quase toda a película foi filmada em Veneza, explorando toda o encanto de seus canais, becos e mansões.
"Coração de cavaleiro"
Apesar de "A última ceia", a presença de Legder - ainda mais como protagonista - não era suficiente para me levar ao cinema. Assim, essa aventura teen passou batida, apesar dos vários comentários sobre sua trilha sonora, repleta de rock'n'roll, numa história com lutas medievais. Ledger é um simples escudeiro que resolve substituir o mestre cavaleiro numa disputa para ganhar uma grana e não morrer de fome. Como apenas os nobres podiam participar daqueles torneios, ele se faz passar por um deles, com a ajuda de um escritor (Paul Bettany em mais uma excelente interpretação) que forja os documentos que comprovam a descendência do desconhecido cavaleiro. Superação, amor, risos e - claro - muitas batalhas conduzem o filme a um final esperado, mas com algumas surpresas pelo caminho.
"Os irmãos Grimm"
Na Europa dominada por Napoleão Bonaparte, dois jovens irmãos ganham a vida com truques mirabolantes para "enfrentar" monstros e livrar as aldeias de suas assombrações. O que eles não esperavam é que fossem contratados para combater uma maldição verdadeira, sob a pena de perderem as próprias cabeças. Nas mãos de Gilliam, essa aventura transforma-se numa boa comédia, cheia de referências às origens dos grandes contos-de-fada dos Grimm. Mérito também do timing perfeito dos atores Heath Ledger e Matt Damon e da presença sempre luminosa de Monica Bellucci.
"Honra & coragem: as quatro plumas"
Heath Ledger é um dedicado soldado do exército britânico, onde o pai é um militar do alto escalão. Mas quando, no final do século XIX, o jovem é chamado para lutar no Sudão, pede baixa do seu posto. Não é por medo, nem por amor à noiva que vai deixar. Ele simplesmente sabe que sua vocação não está nos campos de batalha. Por essa atitude, recebe quatro plumas brancas - símbolo de covardia - da amada e de três amigos da corporação. O resto do filme é sua jornada desesperada para provar que - ao contrário do que pensavam todos - o que o impelira a desistir das armas não fora a ausência de coragem, mas o respeito aos próprios sentimentos. É uma história que emociona, dirigida com maestria por Shekar Kapur (de "Elizabeth"/1998 e "Elizabeth: a era de ouro"/2007), com belíssimas imagens nas areias do deserto e boas atuações de Ledger, Djimon Hounson e Kate Hudson. É verdade que o final bem hollywoodiano atrapalha um pouquinho, mas sem comprometer.
dezembro 07, 2007
"No vale das sombras"
Na sua segunda investida como diretor, Haggis volta as lentes para a sociedade americana e a guerra do Iraque. Tommy Lee Jones - numa interpretação contida e serena - é um militar aposentado que se orgulha do seu país, do seu governo e do exército norte-americano... até o dia em que seu filho - que lutara no Golfo - desaparece e é considerado um desertor. Como ele não acredita nessa hipótese, parte em busca da verdade, confrontando militares, investigadores e colegas do jovem combatente. Nesse percurso lento e doloroso pelo passado recente do filho, o pai vai mergulhando na realidade crua, dilacerante e nada gloriosa das guerras, cheia de medos, mentiras, traumas e descasos. As verdades que vão sendo reveladas mostram as feridas abertas com que os cidadãos norte-americanos têm convivido desde os atentados de 11 de setembro. E em "No vale das sombras", Haggis coloca-se como porta-voz desse sentimento. A cena final (que poderia ser bem mais impactante se não tivesse uma outra quase idêntica no começo do filme) é um evidente pedido de socorro.
"Os donos da noite"
O filme começa. Uma sequência de fotos em preto-e-branco mostrando ações policiais passam pela tela, sem nenhum som. De repente, um corte para a exuberante Amada Juarez (Eva Mendes) masturbando-se para o namorado (Joaquin Phoenix), com todas as cores e ao som de um clássico das discotecas dos anos 80. Que mudança! E olha que essa nem vai ser a mais surpreendente de "Os donos da noite". Phoenix é Bobby, um cara que sabe curtir a vida. Ele dirige um badalado nightclub no Bronx, ponto de tráfico dominado pela máfia russa, cujo chefão o trata como "filho". Fora isso, ele tem irmão (Mark Wahlberg) e pai (Robert Duvall) que são membros do alto escalão da polícia novaiorquina. Já deu para ver que o reencontro familiar será questão de tempo, né? Se você estranhou o fato de um queridinho dos mafiosos ser parente próximo de combatentes do narcotráfico, isso parece não ter incomodado o roteirista e diretor James Gray. (Primeiro deslize). Mas se você engolir isso (e eu aconselho que o faça), vai assistir - até por volta dos 20 minutos finais - a um thriller policial espetacular, com situações envolventes e convincentes, num jogo de gato-e-rato cheio de surpresas, onde felinos e roedores são igualmente inteligentes e audaciosos. É tensão verdadeiramente crescente e sufocante até o final da sessão (e isso não é pouca coisa não!). A cena da perseguição nas ruas da cidade sob chuva torrencial é fantástica. O segundo deslize vem exatamente nas últimas cenas (conforme mencionado anteriormente), quando tudo descamba para um dramalhão bobo, com soluções fáceis (o embate entre bandido e mocinho no capinzal é frustrante) e mensagens edificantes. Ainda assim, vale a pena ver.
dezembro 05, 2007
"Medos privados em lugares públicos"
O amor é particular e reservado, só quem tem o sentimento no peito sabe o que verdadeiramente se passa. Já o relacionamento é coletivo, entrega-se - no mínimo para outra pessoa - o que somos e sentimos. Talvez por isso, circulando entre personagens maravilhosos, bem construídos e interpretados por um elenco espetacular (com Sabine Azéma à frente), quem se destaca mesmo no filme é a neve, que cai incessantemente sobre uma Paris dos dias atuais. Nós vemos os flocos brancos já na panorâmica inicial e - até mesmo - dentro de casa. E eles simbolizam muito bem o frio que ronda todas as situações dessa história de solidão. "Medos privados em lugares públicos" não é outra coisa senão a busca constante por companhia. Assim, temos Lionel (o garçom do bar de um grande hotel) que conversa todas as noites com Dan (um cliente desempregado) que está saindo com Gaelle (uma solteirona que marca encontros através de classificados de jornal) que mora com o irmão mais velho Thierry (corretor de imóveis que não consegue encontrar - para a cliente Nicole - o apartamento ideal) que é apaixonado por Charlotte (secretária da imobiliária e senhora muito religiosa) que cuida de um idoso doente que é pai do garçom solitário do início dessa ciranda. A teia de sentimentos com que Alain Resnais trabalha é vasta e nos envolve completamente ao longo de 2 horas que não vemos passar. É como se ele colocasse todos os personagens num labirinto (aquele plano do alto, com Nicole e Thierry "descobrindo" o apartamento reforça bem essa sensação). E todos parecem perdidos, no meio de seus segredos e frustrações, sem saber que caminho tomar, e sempre separados do outro por barreiras físicas - já não bastassem as emocionais: divisórias, cortinas, paredes, grade, folhas de jornal... A própria neve parece um véu a esconder o outro lado da rua, a congelar a possibilidades de entrega e calor. E até mesmo quando tentam romper os bloqueios, os personagens se escondem atrás de apelidos, de desculpas, de fantasias eróticas, de fotografias... Nada mais do que o medo de se expor, o medo do outro.
"A vida dos outros"
A história se passa pouco antes da queda do Muro de Berlim. Wiesler (Ulrich Mühe) é um agente da Stasi - polícia política da República Democrática Alemã - e professor da Escola de Segurança do Estado. Aliás, o filme começa com uma demonstração de como arrancar a confissão de um suspeito. Seu método deixa indignado até os próprios alunos. O clima na Alemanha Oriental é de perseguição aos traidores do regime. Wiesler desconfia, inclusive, de Georg Dreyman, o único dramaturgo não-subversivo da RDA. A partir de uma insinuação do Ministro da Cultura (cujos interesses ficam claros no decorrer da projeção), o agente começa a espionagem, com grampos e escutas espalhados pelo apartamento do escritor. E relatórios minuto-a-minuto de todos os encontros e conversas. Naquele universo fértil de amizades, amor, desejos, música e literatura, Wiesler encontra bem mais do que procurava. Tal descoberta deixa a investigação ainda mais complicada, fazendo com que o espião repense sua conduta e estratégia. Talvez essa mudança seja o único "senão" de "A vida dos outros". E se ela não chega a convencer, contribui - por outro lado - para elevar a intensidade das emoções na segunda metade do filme, cheia de suspense e surpresas. A atuação de todo o elenco é - sem exceção - muito boa. Mas - justiça seja feita - Ulrich Mühe consegue se destacar, com uma interpretação contida - sofrida até - do agente que descobre o que não devia. Preste atenção na expressão dele com um livro de Bertold Bretch nas mãos e - claro - na cena da livraria.
dezembro 03, 2007
"O último concerto de rock"
São Francisco, 1976. Após 16 anos de sucesso, os integrantes da "The Band" decidem encerrar a gloriosa carreira da banda com um show de despedida no dia de Ação de Graças. Poderia ter sido um simples adeus, mas virou uma celebração quando os músicos resolveram convidar um grupo de artistas para cantar com eles e - ninguém menos que - Martin Scorsese para fazer o registro. O diretor norte-americano vinha do bem-sucedido "Taxi Driver" e estava realizando "New York , New York". Aceitou o convite. O tempo para a produção era curtíssimo e a grana mais ainda. Scorsese conseguiu - com um amigo produtor - parte do cenário da ópera "La Traviata", trabalhou com poucas câmeras e utilizou a luz com parcimônia e criatividade. O diretor sugeriu a inserção de pequenas entrevistas entre as canções. Com os depoimentos de Robbie Robertson, Rick Dango, Levon Helm, Garth Hudson e Richard Manuel, o filme ganhava uma história e Scorsese criava seu documentário - aparecendo, inclusive, em muitas cenas. Entre as estrelas que dividiram o palco com os anfitriões estavam - para citar apenas algumas - Joni Mitchell, Bob Dylan, Neil Young, Emmylou Harris (sim, ela mesma, a intérprete da canção "A love that will never grow old", da trilha de "Brobeback Mountain"), Ringo Starr, Staple Singers e Muddy Waters. Aliás, por pouco as imagens dessa lenda do blues não ficaram de fora. Como o show era extenso (7 horas) e a quantidade de rolos de filme reduzida, as câmeras tinham de ser desligadas de tempos em tempos, até mesmo para dar um descando para os seus operadores. Quando Scorsese percebeu a maravilha que estava perdendo, ordenou que todos os cinegrafistas voltassem a postos. Mas até se posicionarem outra vez, a canção "Manish boy" já estava quase no fim. Por sorte, um dos cinegrafistas não tinha interrompido suas filmagens (observe que a performance de Waters é mostrada praticamente a partir de um só ângulo). Essas e outras curiosidades estão nos comentários. Não dá para dizer mais: veja o filme e curta o show (não necessariamente nessa ordem).
novembro 29, 2007
"O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford"
Ao entregar já no título o que poderia ser o mistério da história, o diretor neozelandês faz um filme onde o foco está muito mais na construção dos personagens do que na ação propriamente dita. Assim, ao longo de duas horas e meia, acompanhamos o duelo velado entre o bandido-herói e seu algoz. A história se passa no final do século XIX, quando Jesse James - aos 34 anos - já tornara-se um mito, com seus delitos narrados em libretos. Bob Ford é um garoto de 19 anos cujo sonho é fazer parte do bando de James, que àquela altura planejava um último assalto antes da aposentadoria. Uma ligação de afeto e desconfiança se estabelece imediatamente entre os dois. E é exatamente sobre essa antítese sentimental que o filme vai construindo todo seu suspense. Jesse James não é um herói tradicional, 100% mocinho. Sua cabeça está a prêmio. Ele desconfia da própria sombra. É violento e - algumas vezes - injusto. Robert Ford é o fã que quer ser igual ao seu ídolo. Aliás, quer mais: quer se tornar o próprio objeto de sua veneração. Brad Pitt já levou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza. E não é preciso mais do que 30 minutos de projeção para entender porquê: do bandido justiceiro ao pai de família devotado, uma série de emoções - que vão da frieza e contenção à loucura e explosão - acompanha e enriquece seu personagem. E o ator soube trazer à tona cada uma delas de maneira memoravelmente cativante. Para isso, teve um parceiro à altura: Casey Affleck consegue impregnar seu Bob Ford de uma ambigüidade moral que incomoda desde a primeira cena. Até passar de adorador a assassino, vai criando um antagonista visivelmente instável, enquanto sonha virar herói. E o faz não por bravura, mas por medo. É esse o fantasma que irá acompanhá-lo até a morte. "O assassinato de Jesse James..." é repleto de plano e contra-plano, como pede o embate emocional desenhado pelo roteiro. E seu ritmo é deliciosamente lento, dando tempo para que a platéia possa "degustar" toda a nuance de sentimentos revelada em cada cena. A narração em off é utilizada de maneira inteligente e inusitada, antecipando o que irá acontecer. E sempre que esse recurso aparece, o diretor opta por distorcer a imagem, ficando nítido o centro da tela e borradas as laterais, traduzindo assim sua maneira de contar a saga de Jesse James: foco apenas nos conflitos interiores, como se tudo o mais que acontece ao redor (quase) não importasse.
novembro 27, 2007
"Propriedade privada"
A maneira desrespeitosa com que um dos filhos se refere à mãe, na primeira cena de "Propriedade Privada", já entrega o caos emocional em que vive aquela família. Divorciada há 15 anos, Pascale (Isabelle Huppet em mais uma soberba interpretação) mora com dois filhos já bem grandinhos, mas dependentes e imaturos. Quando a mãe resolve que deve vender a casa para dar uma quinada na vida em busca da própria felicidade, os pimpolhos (interpretados pelos irmãos Jérémie - de “A criança”, já comentado aqui - e Yannick Rénier) se vêem perdendo o teto e o bom senso. François tenta entender e até se encaixar nessa nova realidade. Já Thierry parte para o confronto. A partir desse ponto, vemos o tamanho do abismo em que se encontram aquelas relações e vamos conhecendo melhor cada integrante dessa rede de angústias e conflitos. Se dentro de casa, a luz é pouca; tampouco temos fora dela uma atmosfera ensolarada, o que também contribui para deixar o espectador um tanto sufocado diante do clima tenso que vai-se delineando ao longo dessa história de ruptura e explosão iminente. Aliás, a ausência de trilha sonora (a não ser no finalzinho) parece ser outra opção para não dar alívio nenhum à platéia. Se - como já foi dito - Huppert arrebenta na composição dessa mãe distante, muitas vezes omissa, os Rénier também constroem muito bem suas personagens, com brincadeiras e brigas que nos lembram os irmãos bíblicos Caim e Abel. Aliás, todo o elenco - enxuto e absurdamente entrosado - merece reverência. "Propriedade Privada" é um filme cuja contenção de planos, diálogos, luz e som só contribui para desnudar o conflito que oprime seus protagonistas.
julho 17, 2007
"Marcas da vida"
Jackie é uma funcionária da vigilância urbana de Glasgow. Ao ficar observando os movimentos suspeitos (e não) da população através de um sistema de câmeras espalhadas por toda a cidade, ela parece querer esconder os seus traumas. Na festa de casamento de sua cunhada, é sutilmente revelado o motivo da tristeza e da solidão daquela mulher. Fora do trabalho, não tem vida (a não ser pelos encontros fortuitos e vazios com um homem casado). No entanto, ela reencontra um homem que tem muito a ver com o seu passado e angústia. Obcecada, passa a vigiá-lo eletrônica e pessoalmente, freqüentando os ambientes do moço. Ela tem um plano para acertar as contas e vai levá-lo às últimas consequências até fazer justiça com as próprias mãos. Trabalho de estréia em longas da diretora inglesa, "Marcas da vida" consegue criar um suspense que nos envolve e nos faz acompanhar a amargura de Jackie minuto após minuto, tentando adivinhar o que ela será capaz de fazer. E o roteiro inteligente e sagaz vai nos surpreendendo até mesmo quando achamos que está tudo terminado. É um filme silencioso, de poucas falas, mas absurdamente eloquente, que foi festejado em Cannes e no BAFTA e que tem passado quase batido por aqui.
"Ratatouille"
Remy é um ratinho do interior da França que - diferente dos seus companheiros - não gosta de lixo, tem um olfato apuradíssimo e um sonho bem peculiar: ser um chef de cozinha. Um acidente com sua colônia acaba por lançá-lo nos esgotos de Paris. Dali para os fogões de um restaurante, é uma corridinha. Ao colocar um roedor no comando de panelas e temperos, a Disney cria uma fábula de superação, onde o sonho está ao alcance de quem acredita. O desenho é tecnicamente perfeito, tem uma história encantadora, situações muito engraçadas e uma cena (já) antológica: aquela em que o cruel crítico gastronômico é tocado pela magia de um prato preparado pelo ratinho. Para ver e rever e rever...
PS: "Quase abduzido (Lifted)" é o nome do curta de animação que antecede a projeção de "Ratatouille" e narra a desventura de um extra-terrestre ao tentar praticar sua primeira abdução. Gargalhadas garantidas.
"O tigre e a neve"
A guerra agora é a do Iraque, para onde vai o professor - vivido por Benigni - a fim de cuidar de sua amada, uma escritora que fazia uma entrevista para o seu próximo livro, quando foi vítima de um atentado. Se em "A vida é bela", o diretor conseguiu contar uma história trágica com um certo encanto, aqui ele se perde em equívocos e trapalhadas e põe tudo a perder. Nada emociona.
"Harry Potter e a Ordem da Fênix"
Tão sombria quanto "O prisioneiro de Azkaban", essa quinta parte da saga do bruxinho de Hogwarts traz menos ação e mais drama, mais tensão. O crescimento e as mudanças físicas dos atores-mirins pareceM emprestar mais credibilidade aos personagens, que se vêm às voltas com as artimanhas de Você-Sabe-Quem para acertar de vez as contas com Harry Potter. O garoto, por sua vez, vai contar com a ajuda da Ordem de Fênix, uma organização secreta de bruxos, da qual seus pais participaram. E ele vai precisar mesmo, porque a nova diretora de Hogwarts - interpretada magistralmente por Imelda Staunton, de "Vera Drake" - faz de tudo para controlar quaisquer movimentos que possam atrapalhar os planos de Lorde Voldemort. A sobriedade com que David Yates conta essa história, sem excessos, com as emoções na medida certa, é ponto forte no belo resultado final. Mas é claro que existem algumas (diga-se de passagem, muito boas) cenas - como as do gêmeos sabotando o dia de provas ou da perseguição na Galeria das Profecisas - com a marca registrada da grandiloqüência e do tom aventuresco da série. Que venha "O enigma do Príncipe".
"A conquista da honra"
1945. A bandeira dos Estados Unidos é colocada sobre o Monte Suribachi, na Ilha de Iwo Jima. A foto daquele instante histórico era tudo de que o governo norte-americano precisava para levantar fundos e dar continuidade à guerra. E os jovens combatentes que aparecem no registro fotográfico viraram garotos-propaganda dessa jogada de marketing, percorrendo o país inteiro pedindo donativos. Tudo maravilhoso se não fosse por um detalhe: eles não eram os protagonistas daquela façanha. Os soldados que ergueram a bandeira pela primeira vez não foram fotografados. O "click" que ganhou o mundo e o prêmio Pulitzer foi, na verdade, uma encenação. Assim, o filme aborda o dilema moral desses garotos que sabiam que não eram merecedores de toda aquela glória e que os verdadeiros heróis estavam mortos na ilha japonesa. A fotografia de cores bem lavadas do filme, com tudo praticamente em tons de cinza, reforça esse sentimento de vergonha e de anti-heroísmo, como se a ausência de cores pudesse ocultar aquela farsa. A narrativa não-linear funciona bem e - se nos confunde em alguns momentos - é para retratar a perturbação que os soldados farsantes enfrentavam. A narração em off é desnecessária, assim como aqueles didáticos e explícitos 20 minutos finais.
"Paixão sem limites"
Essa história de amor densa - e tensa ao extremo - passa longe do romantismo que o título em português sugere. A bela Natasha Richardson (filha da veterana Vanessa Redgrave) é a esposa de um psiquiatra londrino que é nomeado superintendente de um sanatório. Refinada, essa mulher passa a viver isolada da alta sociedade londrina nos anos 1950 e, entediada, envolve-se com um sedutor paciente, internado por ter matado toda a família. Essa relação de entrega e posse pega fogo em todos os sentidos, fugindo do controle dos seus protagonistas, colocando em xeque a sanidade mental dos dois. O diretor Mackenzie consegue criar um filme intenso que prende a atenção, surpreende em muitos momentos e tem um final para lá de coerente. Não é preciso dizer que as atuações de Natasha Richardson e de Ian McKellen (como o médico preterido ao cargo de superintendente) contribuem sobremaneira para o clima de transe que envolve quem assiste a essa produção.
"Eragon"
Houve uma época em que os Cavaleiros do Dragão defendiam o mundo e eram praticamente imortais. Mas tornaram-se arrogantes com o passar do tempo. Foram, por fim, dizimados por um governante tirano e explorador (ele mesmo um ex-cavaleiro), que ordenou que todos os dragões fossem extintos. Até o dia em que um garoto acha uma estranha pedra azul na floresta. Tal encontro vai meter o jovem em muitas encrencas que culminarão com o cumprimento da profecia de que um cavaleiro do dragão renasceria para libertar seu povo. "Eragon" é uma aventura bem feita, um filme para ser assistido com um balde de pipoca do lado.
"Sob o domínio do medo"
David (Dustin Hoffman) é um matemático que se mudou para o interior da Inglaterra em busca de paz para concluir seus estudos. Sua esposa (Susan George), bonita, jovem e sensual demais para os padrões daquela pequena aldeia, começa a mexer com a imaginação da população masculina. O caos se instaura quando o casal resolve contratar o grupo de trabalhadores para reformar sua garagem. Por parecer um fraco (inclusive, sexualmente) no meio de uma comunidade de homens rudes e beberrões, o matemático é cercado por desprezo, inclusive dos seus empregados, que não se intimidam e passam a invadir a vida dos "estrangeiros" de todas as maneiras. O que se vê a partir do momento em que David se sente literalmente acuado é a explosão da ira pela defesa da honra, da propriedade, da própria integridade física e moral. É soco no estômago. É Peckinpah em grande estilo.
"A grande família - O filme"
Após passar mal, Lineu vai ao médico. Suspeitando estar com uma doença grave, resolve ocultar tudo da família. Preocupado e deprimido, desiste de ir ao tradicional baile em que conheceu Nenê. É aí que aparece um ex-pretendente de sua esposa. Enciumado e com a cabeça cheia de caraminholas por causa dos conselhos do patrão Mendonça, ele chega - inclusive - a ensaiar um romance com uma funcionária da sua repartição (Dira Paes, numa participação especial). Por ter o mesmo formato da televisão, o filme parece longo demais, com o episódio sendo esticado à exaustão (será por isso que a estória é contada de 3 formas diferentes a partir das supostas mudanças de atitute do personagem Lineu?). Mas graças à afinidade do elenco e à "pureza" do humor realizado pela trupe toda, "A grande família" escapa do desastre total. Mas poderia ser bem melhor.
"Perfume: a história de um assassino"
"Perfume", o livro de Süskind, fez parte da minha adolescência. Impressionou-me muito a saga daquele jovem pelo odor que colocaria o mundo a seus pés. E essa história me perseguiu por anos a fio, nas conversas entre amigos sobre bons romances. E qual não foi minha surpresa ao saber que ele saltaria das págians para as telonas. Apesar da direção de arte e da fotografia deslumbrantes, a narrativa não consegue reproduzir o mesmo clima de suspense que a literatura conseguiu. As mortes se sucedem, mas não escandalizam quem assiste, não instigam. E assim, a monotonia vai se instalando na ação do filme, enquanto o assassino perfumista segue seu objetivo: produzir o perfume perfeito. Mas justiça seja feita: a cena da catarse final é espetacular. E a atriz Rachel Hurd-Wood, mais ruiva do que nunca, parece uma pintura, de tão bela.
"Deja vu"
Ao ver o trailer com Denzel Washington fazendo o policial super-herói, a impressão que se tem é exatamente a de já ter visto aquilo antes. Mas ao reinventar a história da máquina do tempo numa trama cheia de idas e vindas, do presente ao passado recente, o filme consegue nos envolver, garantindo um bom programa de ação para aquele domingo modorrento.
"O diabo veste Prada"
Essa comédia é um exemplo perfeito do que uma grande atriz pode fazer por um filme. Sem um sorrisinho sequer, Meryl Streep consegue nos fazer gargalhar com a tirania de sua personagem, uma celebridade do mundo da moda às voltas com todas as picuinhas desse universo. Esqueça o resto e foque toda sua atenção nela. É satisfação garantida.
junho 05, 2007
"Na cama"
Uma festa, poucas palavras e muito desejo num quarto de motel. Totalmente estranhos um ao outro (e até por isso mesmo), eles começam a falar de suas vidas, revelando medos e segredos, contando piadas e idealizando sonhos. Entre uma transa e outra, os desconhecidos vão descobrindo afinidades (ou será que elas só aparecem porque aquela fantasia irá acabar quando pagarem a conta?). Guardadas as devidas proporções, "Na cama" é o "Antes do pôr-do-sol" latinoamericano. Repleto de diálogos inteligentes e com atuações muito boas de Blanca Lewin e Gonzalo Valenzuela, o longa chileno faz um mergulho na solidão e revela personagens tão carentes e encantadores que nos faz torcer por um final feliz (por mais absurdo que isso possa parecer).
junho 04, 2007
"Diamante de sangue"
Fim dos anos 1990, guerra civil em Serra Leoa. Salomon (Djimon Hounson) é separado da esposa e filhos e levado como "escravo" a um campo de mineração de diamantes. Encontra uma imensa pedra cor-de-rosa e a esconde, no exato momento em que o governo ataca os rebeldes. Ele é preso e a história do diamante encontrado chega aos ouvidos do mercenário Danny Archer (Leo DiCaprio), que propõe tirá-lo da prisão e ajudá-lo a reencontrar sua família. Muito corre-corre, tiros e explosões no meio da miséria e das desigualdades africanas. Não fosse pelo final redentor, seria um filme bem coerente.
junho 03, 2007
"Homem-Aranha 3"
Superprodução de efeitos especiais extraordinários que traz o Homem-Aranha enfrentando dois novos vilões (Homem-Areia e Venom), a ira do filho do Duende Verde (cuja sequência de duelo com o super-herói das teias logo no início da projeção é, de longe, a melhor do filme) e o lado sombrio da vingança peterparkeriana (o uniforme negro nos apresenta uma outra personalidade do Aranha). Tudo parece perfeito para o sucesso (e, comercialmente, as bilheterias confirmam isso), mas a terceira parte da trilogia aracnídea consegue ser apenas um quase bom filme.
"Babel"
Um tiro ingenuamente disparado no alto das montanhas atinge uma turista americana que viaja pelo Marrocos com o esposo, levantando a possibilidade de uma ação terrorista. Num local sem recursos, o ferimento - aparentemente simples - retarda a volta do casal para casa, onde uma empregada mexicana havia ficado cuidando das crianças. A doméstica, que vive de forma ilegal nos Estados Unidos, se vê diante de um impasse: tem de atravessar a fronteira para o casamento do seu filho, mas não contava com o não-retorno dos patrões: levar ou não levar "los niños", eis a questão. As investigações indicam que o tiro foi disparado de um rifle cujo dono mora em Tóquio e tem uma filha adolescente surda-muda cheia de conflitos e traumas. Bem por alto, essa é sinopse de Babel (título interessante porque, a exemplo do aconteceu na torre bíblica, existe um problema de comunicação entre os personagens: independentemente do idioma falado, eles não conseguem se entender). Não achei o filme o "horror" que tantos pintaram. Mas é óbvio que o roteiro já não guarda o frescor das produções anteriores do diretor, como "Amores brutos" e "21 gramas". O recurso de uma história se entrelaçando com a outra já não surpreende tanto (sem falar que a parte da japonesinha problemática não consegue se colar ao restante da obra). Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael García Bernal estão muito bem, mas quem rouba a cena é a atriz Adriana Barraza (sua interpretação da "housecleaner" clandestina rendeu-lhe uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante).
"Zodíaco"
Califórnia, final da década de 1960. Casal de namorados é morto na beira de uma estrada. Alguns dias depois, o assassino escreve para os jornais revelando detalhes do crime e exigindo a publicação de uma carta cifrada, sob a pena de fazer novas vítimas. A imprensa cede e, mesmo assim, as mortes continuam. Apesar de chegar a alguns nomes, a polícia não consegue levantar provas. E é o cartunista de um dos jornais, vivido por Jake Gyllenhaal, obcecado por aquele mistério desde o início, quem tenta desvendar o enigma quando o caso é abandonado. A direção de Fincher merece elogios, mas a montagem poderia ter deixado o filme mais instigante e ágil, deletando ou enxugando algumas cenas. Com exceção da sequência inicial - um exemplo de suspense bem feito - que consegue mexer com os nervos do público, todo o resto não envolve. O roteiro não consegue instigar, não é construído de maneira a transformar quem assiste à película num investigador. E para um suspense policial, isso só leva a uma conclusão: frustração.
"O amor não tira férias"
Kate Winslet e Cameron Diaz vivem duas mulheres com desilusões amorosas que, através da internet descobrem um site de intercâmbio de casas e resolvem mudar de ares. E cada uma delas acaba conhecendo o "causador da infelicidade" da outra. Poderá o "traste" de uma relação tornar-se o "príncipe" de outra? O cartaz do filme já entrega essa charada. Nancy Meyers - que me fez rolar de rir em "Alguém tem de ceder" - entrega aqui um filme vazio, simplista e bobo. Um desperdício de elenco, que ainda conta com as presenças de Jude Law e Jack Black.
fevereiro 15, 2007
O segredo de Brokeback Mountain
Esqueça todas as simplificações óbvias que foram usadas para descrever esse filme. "Brokeback Mountain" trata de solidão... E para ser mais preciso, de solidão a dois, aquela que surge quando o amor assumido não consegue quebrar as barreiras que separam duas pessoas do sonho de uma vida compartilhada, sob o mesmo teto, todos os dias. Saber que a felicidade está tão próxima e não conseguir agarrá-la é extremamente angustiante. Por motivos distintos, os caubóis Ennis e Jack (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal nos papéis de suas vidas) sofrem com essa situação por anos a fio. E ter a certeza de que tudo poderia ser diferente causa mais dor ainda. Ang Lee aborda esses sentimentos contraditórios com tanta sinceridade e delicadeza que conseguiu criar um dos filmes mais belos e comoventes a que assisti.
PS: Escrevi esse texto a pedido do Chico Fireman (idealizador da Liga dos Blogues Cinematográficos/LBC, link aí ao lado) para ilustrar as indicações dos finalistas ao Alfred 2006 (prêmio que os integrantes da LBC conferem às melhores películas exibidas no circuito comercial brasileiro). Resolvi reproduzi-lo aqui como forma de comemorar a conquista de melhor filme do ano - ao lado de "O novo mundo", do Mallick - concedida nesta noite à obra-prima do Ang Lee por 64 blogueiros cinéfilos de todo o Brasil. A "parte IV" do título refere-se ao número de vezes que o filme já apareceu no Cine Dema(i)s. Sua vitória confirma o que escrevi - no dia 2/2/06 - após tê-lo assistido pela primeira vez: "É o filme do ano".
fevereiro 07, 2007
"Os infiltrados"
Tem muita gente dizendo que esse é um filme menor do Scorsese. Discordo. Ao mergulhar no submundo do crime organizado, com uma história engenhosa onde um policial é infiltrado entre os criminosos e um bandido incorporado à polícia de Boston, o diretor nos entrega uma grande obra, com edição primorosa, ritmo alucinante e interpretações inquestionáveis, como as de Jack Nicholson e Leonardo DiCaprio - só para ficar com duas delas. Repito: "Os infiltrados" é um legítimo filho de Martin, com todas as virtudes que tal descendência possa significar.
fevereiro 06, 2007
"O ilusionista"
No início do século XIX, um mágico deslumbra (e assombra) a população vienense com seus truques. Incomodado com a repercussão do espetáculo, o princípe da cidade determina que o tal ilusionista seja investigado, sem saber que - na verdade - ele está em Viena para reconquistar um grande amor do passado. A premissa é muito boa, mas o desenrolar da história fica amarrado demais nas mágicas, o filme perde o ritmo, torna-se chato e... no final, ainda perde a classe com um desfecho rocambolesco e absurdo. Uma pena!
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