março 29, 2006

"O plano perfeito"


(Inside man, 2006 - Spike Lee)
Um assalto a banco com muitos reféns. Tudo pensado nos mínimos detalhes. Mas a calma dos bandidos parece revelar outras intenções. E a intervenção do banqueiro entrega interesses maiores do que a preocupação com as cifras do cofre. Com um roteiro engenhoso, cheio de suspense e ação, Spike Lee fez um grande filme, afastando-se dos contéudos políticos-raciais que costuma abordar. Mas, calma: em segundo plano, essas discussões aparecem, seja no depoimento de um refém judeu; ou num cartaz referente ao "11 de Setembro" ou ainda nos porta-retratos na estante da sala de um milionário.

"Capote"

(Capote, 2005 - Bennett Miller)
O filme de Miller provocou em mim sensação parecida à do dia em que vi "Boa noite e boa sorte". É bem feito, tem um elenco afinado, mas não arrebata. Serviu para tirar a prova dos 9 em relação ao Oscar de melhor ator desse ano: a construção do personagem de Heath Ledger em "Brokeback Mountain" é muito superior ao trabalho de Philip Seymour Hoffman.

"O último Mitterrand"

(Le promeneur du Champ de Mars, 2004 - Robert Guédiguian)
Acometido por um câncer de próstata, o presidente François Mitterrand resolve narrar sua vida a um jovem jornalista de esquerda, revelando um lado bem pessimista em relação ao futuro da França após sua morte. Apesar da narrativa lenta, o filme de Guédiguian prende a atenção ao mesclar os comentários do estadista francês com os problemas emocionais do seu entrevistador. Impressiona a semelhança do ator Michel Bouquet com o líder político.

"Mulheres do Brasil"

(Mulheres do Brasil, 2006 - Malu de Martino)

7 mulheres, 5 histórias e 1 fracasso retumbante. A parte ficcional é fraquíssima; a documental, vergonhosa (diz nada ou quase nada de revelador). Elenco sub-aproveitado.

março 23, 2006

"Aeon Flux"

(Aeon Flux, 2005 - Karyn Kusama)
2011. Uma doença dizima 99% da população terrestre. O pequeno grupo que se salva vive numa cidade-redoma, protegida (?) da natureza ao redor, que retoma seu rumo. No entanto, a salvação tem um preço: 400 anos depois, as pessoas vivem sob o jugo de um núcleo de cientistas que - sob o pretexto de continuar protegendo a vida - controla tudo. Um grupo de rebeldes - liderado por Aeon Flux (Charlize Theron) - altamente treinado e munido de "brinquedinhos" da mais alta tecnologia resolve matar o líder dos cientistas e tomar o poder para retomar suas vidas. Mas o que parecia fácil, não se mostra assim. E a heroína vai tentar descobrir o que existe além do que se vê. "Aeon Flux" consegue prender a atenção com reviravoltas interessantes, efeitos especiais, muita ação e Charlize Theron mais linda do que nunca.

março 22, 2006

"A mulher do meu irmão"

(La mujer de mi hermano, 2005 - Ricardo de Montreuil)
Vivendo um casamento de 10 anos e sexualmente frio, esposa trai o marido empresário com o cunhado pintor. Noventa minutos e trocentos clichês depois, o filme termina sem deixar muitas saudades (a não ser da beleza estonteante de Bárbara Mori).

"A menina santa"

(La niña santa, 2004 - Lucrecia Martel)
Depois de "O pântano", Lucrecia Martel confirma que tem um jeito muito peculiar de filmar os sentimentos humanos. É tudo muito intenso e muito real, colocando cada cena perto demais do espectador. Não existem grandes tragédias para movimentar seu filme, mas são os pequenos dramas dos seus personagens que nos fazem virar na poltrona, é a humanidade deles que nos incomoda. Em "A menina santa", a diretora argentina aborda a sexualidade reprimida de duas amigas que expurgam seus desejos nas aulas de catequese católica - onde discutem as várias formas utilizadas por Deus para fazer o chamado para seus filhos. Mas os desejos carnais falam tão alto para a "menina santa" que ela passa a enxergar o sexo como um sinal divino para salvar os homens. Assim, onde se vê abuso sexual, ela enxerga a oportunidade de redenção do pecador. Martel vai conduzindo tudo de forma lenta mas inquietante, expondo o clímax minutos antes do final. A última cena pode inquietar os que querem um desfecho com todas as letras e imagens, mas reforçam sobremaneira a "santidade" da protagonista: tranqüila e feliz - como todos os que praticam o bem - ela flutua na piscina do hotel onde mora, enquanto a vida do seu "protegido" está sendo revirada lá dentro. Apesar de tudo isso, "A menina santa" não me arrebatou e, contrariando a maioria, acho " O pântano" melhor.

"Cinema, aspirinas e urubus"

(Cinema, aspirinas e urubus, 2005 - Marcelo Gomes)

Um alemão se refugia da Segunda Guerra Mundial vendendo aspirinas no sertão nordestino, onde um sertanejo foge do desemprego, da miséria e da fome. Para um, longe das bombas, tudo é maravilha; para o outro, a seca é que é a destruidora potente. Aliás, os urubus sobrevoando o céu são sinais da morte que ronda por perto. Enquanto sonha em ir para a cidade grande, Ranulpho atravessa o Nordeste ajudando Johann. Suas visões de mundo tão diferentes vão reforçando a amizade que surge para - pouco mais tarde - sofrer um golpe certeiro: o Brasil declara apoio aos aliados e passa a perseguir os alemães que estejam no território nacional. "Cinema, aspirinas e urubus" é simples assim, como são muitas coisas na vida, sem que isso lhes tire a beleza. E ainda conta a seu favor com as atuações brilhantes dos protagonistas, a espontaneidade - que entrega verdade - dos figurantes e a luz estourada, fotografando o sertão de uma maneira tão real, que é quase possível sentir o calor da poltrona do cinema. Ao contar a história do seu tio-avô, Marcelo Gomes fez uma estréia promissora.

"Boa noite e boa sorte"

(Good night, and good luck, 2005 - George Clooney)
Badaladíssimo, esse filme só me pegou pela fotografia em p&b, pelas aparições musicais de Diane Reeves jazzeando magnificamente e pela atuação precisa de David Strathairn. No mais, é um recorte morno sobre o embate da imprensa contra a caça aos comunistas pelo senador McCarthy. É bem feito - não resta dúvida - mas não empolga.

"Abc do amor"

(Little Manhattan, 2005 - Mark Levin)
Lembra "O primeiro amor", só que com muito mais humor. E escalar Josh Hutcherson para viver o garoto apaixonado foi um grande acerto. Acompanhá-lo narrando suas impressões, negações e conclusões sobre as várias fases de uma conquista amorosa é hilário. No meio disso tudo, ainda tem os pais dele em processo de divórcio. Pena que por aqui só tenha chegado a cópia dublada.

"Quase um segredo"

(Mean creek, 2004 - Jacob Aaron Estes)

Um grupo de amigos resolve dar uma lição em um garoto que está sempre surrando os colegas de escola. Durante a execução do plano, passam a conhecer um outro lado da suposta "vítima". Ainda assim, as coisas fogem do controle. "Quase um segredo" consegue manter um clima de suspense o tempo todo. O elenco mirim está perfeito, com atuações "adultas" para uma história que segue tranqüila, sem sobressaltos, até o final.


"Terra fria"

(North Country, 2005 - Niki Caro)
Com esse filme, a diretora de "A encantadora de baleias" deu um passo à frente. Ao retratar o preconceito em relação à contratação de mulheres em minas norte-americanas na década de 70, ela consegue arrancar uma boa atuação de Charlize Theron - que faz Josey, a funcionária que resolve mover o primeiro processo judicial contra a discrimação sexual da história dos EUA. Frances McDormand também está bem como integrante do sindicato dos mineradores. Apesar do final que me fez lembrar de filmes como "Será que ele é?" e "Sociedade dos Poetas Mortos", o desenrolar da história é bacana. Richard Jenkins tem um desempenho brilhante, revelando na medida a angústia de uma personagem que vive o drama de ser mineiro e pai de Josey. 

março 21, 2006

"Fora de rumo"

(Dirailed, 2005 - Mikael Håfström)
Aqui, uma atração fatal com conseqüências inusitadas e desfecho clichê. Apesar de tudo, "Fora de rumo" prende a atenção. E se não temos uma Jennifer Aniston inspirada, Clive Owen e Vincent Cassel (esse, principalmente) dão conta do recado e transformam o filme num thriller interessante.

"Filhote"

(Cachorro, 2004 – Miguel Albaladejo)

"Filhote" consegue fazer rir ao tratar de um assunto sério: adoção de crianças por homossexuais. Tudo começa quando a irmã viajandona de Pedro, um dentista gay, resolve fazer uma viagem para a Índia. Ela lida com a sexualidade do irmão bem até demais. O garoto ficaria com o tio por duas semanas, mas um contratempo faz com que esses poucos dias se prolonguem. É interessante acompanhar as peripécias de Pedro para despistar o sobrinho enquanto tenta tocar a vida com as "amigas" e namorados.

"Para sempre na minha vida"

(Come te nessuno mai, 1999 – Gabrielle Muccino)
O filme começa com várias notícias reais de conflitos que estão acontecendo ao redor do mundo. Depois, o foco passa para a privatização de uma escola, com sua ocupação por um grupo de alunos que é contra. Mas no meiso dos politizados, estão também alguns que só querem saber da sua "primeira noite". E é esse último grupo que "Para sempre na minha vida" acompanha mais de perto. É bem filmado, mas tem um quê de Malhação que me frustou.

março 09, 2006

3 filmes

O tempo está escasso, inclusive para ver filmes. Imagina para atualizar o blog! Abaixo, algumas considerações sobre os 3 a que assisti nas últimas 2 semanas.

"Adeus minha concubina"
(Ba wang bie ji, 1993 – Chen Kaige)
O que mudou de fato na China que abandonou a monarquia para abraçar o comunismo? Ao acompanhar a trajetória de dois grandes amigos que - sem família - passam a ser treinados desde garotos para integrarem a grande Ópera de Pequim, o filme vai retratando as mazelas que as transformações políticas vão infligindo ao povo chinês. Elenco impecável.

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"Quando as metralhadoras cospem"
(Bugsy Malone, 1976 - Alan Parker)
Imagina um filme de gângster onde todo o elenco é formado por crianças e as armas - ao invés de balas - cospem doces e tortas. Esse musical - o primeiro longa de Parker - é delicioso de assistir. E ainda traz a menina Jodie Foster no elenco.

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"Apenas um beijo" (Ae fond kiss..., 2004 - Ken Loach)
Uma história de amor inter-racial contada de maneira encantadora e sem maniqueísmo. Ela é uma irlandesa católica e ele um paquistanês muçulmano. A separá-los, as intransigências da fé respaldadas por família e empregos. O final é maravilhoso.

fevereiro 23, 2006

"Reconstrução de um amor"

(Reconstruction, 2003 - Christoffer Boe)
Todos nós sabemos dos estragos que a traição pode causar a uma relação. Por vezes, o mundo parece sair do eixo e muitas coisas perdem significados e valores. O encanto de "Reconstrução de um amor" está justamente na materialização desses sentimentos. Alex - mais uma atuação formidável de Nikolaj Lie Kaas (ver “Corações Livres”, de Susanne Bier) - vive um relacionamento tranqüilo, duradouro e aparentemente feliz com Simone. Até o dia em que conhece Aimeé num bar e trocam umas palavras. É a partir desse encontro que as coisas ficam interessantes: quando chega ao prédio em que mora, Alex não encontra seu apartamento (o imóvel desapareceu). Parece absurdo? Ele vai à casa de uns amigos e - surpresa! - eles não o reconhecem. Nem a namorada traída se lembra dele. Então, está todo mundo doido? É muito instigante e criativa a maneira como "Reconstrução" retrata as seqüelas da traição. Quando se vive uma história de amor, cria-se um mundo que não é só de um ou do outro, é dos dois. Natural, pois, que a infidelidade destrua esse universo, colocando-o de cabeça pra baixo. É exatamente assim que o filme lida com o tema. E quanto mais inacreditáveis se tornam as situações vividas por Alex, mais aumentam as possibilidades do espectador se deixar seduzir pelas cores – ora quentes, ora sombrias - dessa tela que o amor vai pintando a partir das situações vividas por quem decide compartilhar a vida com outra pessoa. Claro que o fato da mesma atriz interpretar a namorada traída e a amante contribui para deixar o roteiro "confuso" e, conseqüentemente, irritar boa parte da platéia. Mas em compensação, abre também um leque soberbo de leituras sobre o dia-a-dia das histórias de amor. Vejamos algumas delas: Aimeé é a mulher que Alex gostaria que Simone fosse (será por isso que as duas personagens são interpretadas pela mesma atriz, Maria Bonnevie?). Simone vê na atitude do namorado a negação do amor, de modo que não reconhece em Alex o homem que amava (será por isso que ela o vê como um estranho no primeiro encontro após a traição?). E se Simone se transformasse na mulher idealizada por Alex, será que ela suportaria ficar com ele? Se uma relação reatada costuma trazer a promessa de zerar tudo, de recomeçar, não seria natural que Alex e Simone tivessem que conquistar um ao outro novamente, reconstruir o amor que se perdeu? Não vou divagar mais sob o risco de entregar de vez o filme. Para mim, ficar confabulando - durante e após a sessão – sobre tantas possibilidades transformou "Reconstrução" numa pérola. Palmas para Christoffer Boe por contar a velha saga dos amantes num formato menos convencional, com roteiro não-linear e de interpretações fortes, repleto de respostas sobre o amor. Elas não estão claramente expostas, mas estão lá, à espera que o espectador as perceba. Um dossiê sobre o amor, é isso que "Reconstrução" é.

fevereiro 22, 2006

"Ponto final"

(Match Point, 2005 - Woody Allen)
Desde a primeira cena, fica evidente que Allen vai abordar a trajetória do seu anti-herói sob o ponto de vista da sorte. É, sorte de ser apresentado ao "aluno certo que tem a irmã certa que tem os pais certos" para facilitar a ascensão social de um simples professor de tênis através de um belo matrimônio. O azar dele foi conhecer a estonteante Nola (Scarlett Johansson mais linda do que nunca numa atuação memorável). Mas o fato é que - apesar da história parecer promissora - o diretor nos entrega mais um filme mediano. Não sei se porque o trailer de "Match Point" já entregara 90% da história, a verdade é que esperar pelos 10% finais foi difícil. Mas não culpemos somente o trailer não, acho que - mesmo sem ele - tudo seria bem óbvio, a não ser pelo final. O elenco está todo afinado, com destaque para Johansson - claro! - e Jonathan Rhys-Meyers, o marido infiel. Aliás, são o elenco e o desfecho que impedem que o novo Allen caia na vala comum dos filmes descartáveis. Mas poderia ser bem melhor, né? Woody Allen tem cacife para mais, muito mais.

fevereiro 21, 2006

"Memória de quem fica"

(18-j, 2004 – Daniel Burman, Adrián Caetano, Lucía Cedrón,
Alejandro Doria, Alberto Lecchi, Marcelo Schapces, Carlos Sorin,
Juan Bautista Stagnaro, Adrián Suar & Mauricio Wainrot)

O filme reúne 10 cineastas argentinos para expressar suas visões sobre o atentado à Associação Israelita Argentina, ocorrido em 18 de julho de 1994, um dia após a conquista do tetracampeonato brasileiro na Copa dos Estados Unidos. Como narra Norma Aleandro bem no início, a proposta dos diretores é não deixar que o povo se esqueca dessa tragédia que, 10 anos depois, continua sem culpados, sem solução... Cada um retrata o incidente à sua maneira, ora em tom de documentário, ora de pura ficção; às vezes em silêncio, às vezes embalado por árias. Longe de serem repetitivas, as histórias vão-se somando para revelar todas as faces do acontecido. Não me lembro direito de quem dirigiu o quê, mas adoro o primeiro episódio (com os estilhaços da explosão voando sobre vários cenários); de um outro em tom mais documental que ouve os relatos de alguns portenhos sobre a mudança que aquele 18 de julho causou em suas vidas; outro que mostra a agonia de uma mãe no interior da Argentina aguardando notícias do filho na capital; outro sobre um tio que chega de surpresa a Buenos Aires para a cerimônia de circuncisão do sobrinho; e ainda um outro que mostra uma mulher contando o que fazia no dia do atentado e sua angústia com todas as tramóias seguintes para ocultar provas, arrastar o processo e não punir ninguém. "Memória de quem fica" é mais um título da boa fase do cinema portenho.

"Tartarugas podem voar"

(Lakposhtha hâm parvaz mikonand, 2004 – Bahman Ghobadi)
Uma pequena aldeia no Curdistão vira campo de refugiados e abriga dezenas de meninos e meninas órfãos às vesperas da Guerra do Iraque. Enquanto os adultos se preocupam para saber notícias do conflito iminente, é da legião de órfãos a verdadeira alma do filme. São as crianças com suas cicatrizes e mutilações - físicas e emocionais - que mostram na aparência e nas atitudes a verdadeira face da guerra. O filme fica ainda mais intrigante quando um trio de irmãos chega para mexer com a normalidade (?) que parece tomar conta da vida daqueles órfãos: Adrin é uma garota que traz nos olhos uma dor indescritível; Hengov é o irmão mais velho que perdeu os braços na explosão de uma mina; Riga é um menininho cego de uns 4 anos. Uma coisa no passado dos 3 torna aquela relação insustentável e muito difícil a convivência deles com as demais crianças. A amargura de Adrin atravessa a tela e dói na gente. O filme é sombrio mesmo. E nem teria como ser diferente.

"Possessão"

(Possession, 1981 - Andrzej Zulawski)
Passados 25 anos do seu lançamento, "Possessão" ainda é um filme inquietante, tanto pelo que revela como pelo que esconde. A história começa com um casamento em crise, onde o esposo (Sam Neill) desconfia que sua mulher (Isabelle Adjani) tenha outro. E ela confirma. Abandona casa e marido, mas sempre volta - mais instável e desequilibrada - para ver o filho pequeno. O marido, por sua vez, se vê tomado pela obsessão de encontrar o pivô da traição. Em torno disso, vai surgindo um mundo paralelo à relação que um dia foi perfeita. Que monstro pode nascer da solidão, da traição ou da culpa? Traído e traidor não parecem ser as mesmas pessoas de outrora. Têm aparências semelhantes, mas são outras, com seus arrependimentos, medos e neuras. Que tipo de amor pode sobreviver a esse caos de sentimentos? Acho que são desses dilemas que Andrzej Zulawski quis tratar em "Possessão". Essa ambigüidade - que rodeia sentimentos e personalidades - está presente também na cidade que o diretor escolheu para rodar o filme: Berlim que - àquela época - eram duas, oriental e ocidental, dividida pelo Muro. A atuação de Isabelle Adjani é primorosa. A atriz parece ter mergulhado com vontade nas loucuras da personagem. E apesar de algumas tomadas daqueles olhos azuis serem de tirar o fôlego, sua beleza não é o foco principal das lentes do diretor. O fato é que ela conquistou a Palma de Ouro naquele ano. Enfim, com edição e movimentos de câmera que reforçam o desequilíbrio, a instabilidade e os delírios do casal em crise, "Possessão" é para ser visto e revisto várias vezes. Porque entender o amor e seus avessos não é nada fácil. Em tempo: esse mundo paralelo que a traição parece criar me fez lembrar de um outro filme, igualmente polêmico, questionador e belíssimo: "Reconstrução de um amor (Reconstruction, 2003)" do dinamarquês Christoffer Boe, também premiado em Cannes.

"Conversando com mamãe"

(Conversaciones con Mamá, 2004 - Santiago Carlos Oves)

Com um certo atraso, chega aos cinemas goianienses esse longa argentino de 2004 que aborda a crise recente dos nossos vizinhos portenhos através das conversas de um filho desempregado (Eduardo Blanco) com sua mãe de 82 anos. Ex-economista, Jaime quer vender o imóvel em que a velhinha vive e levá-la para morar com sua família. O problema é que, desde que se casou, a relação deles se resume a telefones ligeiros. Sozinha, ela sempre preparou jantares a que ele nunca compareceu. Enquanto tenta convencê-la a deixar o apartamento, eles vão lavando a roupa suja de muitos anos, sempre com bom humor e ironicamente. A atriz China Zorrilla tem o tempo certo para a comédia e sua "mamá" é muito divertida, até mesmo quando narra seus dramas, dores e segredos. "Conversaciones" faz rir e emociona na dose certa. E ainda tem a participação da bela Silvina Bosco (de "O abraço partido") na pele da esposa de Jaime.

fevereiro 16, 2006

"Johnny e June"

(Walk the line, 2005 - James Mangold)
Infância pobre com pai durão e um grande trauma. Mas a música apontava uma saída. Vem o sucesso trazendo álcool, mulheres e drogas a reboque. Muitas cabeçadas e desencontros depois, a redenção chega através do amor. “Johnny e June” é a cinebiografia de Johnny Cash, um cantor de country que – num determinado momento de sua carreira – chegou a superar a vendagem dos Beatles. Mais do que mostrar a ascensão que o levou da pobreza ao estrelato, o filme quer contar uma história de amor (o título brasileiro deixa claro isso), daquelas cheias de percalços, mas destinada a ter um final feliz, bem ao gosto do grande público. Não é ruim, mas fica longe de empolgar. Phoenix e Witherspoon estão realmente bem, muito à vontade com seus personagens. No entanto, acho exagerados os altos elogios às atuações deles. Estão corretos e ponto. O coadjuvante Robert Patrick (que faz o pai de Cash), esse sim, merece destaque.

fevereiro 15, 2006

"Syriana - A indústria do petróleo"

(Syriana, 2005 - Stephen Gaghan)
Bob Baer (George Clooney) é agente da CIA há mais de 20 anos. Faz tudo - tudo mesmo - o que lhe mandam, porque acredita que isso é o melhor para seu país. Mas chega um dia em que a China ameaça atrapalhar os negócios dos EUA na região petrolífera do Oriente Médio. Escalado para investigar o príncipe Nasir Al-Subaai (que defende a negociação com os chineses), Baer vai provar do próprio veneno ao sentir na pele os efeitos colaterais da (falta de) moral da política norte-americana para defender seus interesses comerciais. E essa é apenas uma das histórias que o diretor nos apresenta. Para entender toda a intrincada trama que assola a indústria do petróleo, "Syriana" ainda aborda o tráfico de armas, a fusão de grandes empresas do ouro negro, o desemprego que leva jovens imigrantes desamparados ao fanatismo religioso, o ardiloso jogo de politicagem, traições e assassinatos. Tudo isso num roteiro inteligente e ágil que não permite um só momento de desatenção por parte do público. Clooney - que engordou quase 40 quilos para viver seu personagem - tem uma atuação correta e, como essas transformações físicas encantam a academia, pode levar seu Oscar por coadjuvante. No entanto, no meio de tantos bons atores que integram o elenco (Matt Damon, Chris Cooper, William Hurt, Amanda Peet, Christopher Plummer, Jeffrey Wright, etc), o destaque fica mesmo com Alexander Siddig que, ao construir seu príncipe Nasir, põe tanta humanidade no personage, a ponto de transformá-lo no herói de "Syriana".

fevereiro 14, 2006

"Orgulho & Preconceito"

(Pride & Prejudice, 2005 - Joe Wright)
Essa adaptação do romance de Jane Austen narra os obstáculos que o amor terá de superar - na Inglaterra do século XVIII - para vencer sentimentos tão intensos quanto o orgulho e o preconceito. Keira Knightley é Elizabeth Bennet: moça simples, que lê muito, que zomba da inteligência dos homens, que não tem papas na língua, enfim, que vive muito à frente do seu tempo. Mr. Darcy (Matthew Macfadyen) é um ilustre cavalheiro da alta sociedade londrina, homem de poucas palavras, um tanto quanto sisudo e, por isso mesmo, de aparência esnobe. Também não era para menos com uma família como a de Elizabeth, cuja mãe só pensa em casar - e bem - as 5 filhas. Apesar do final previsível, a história de amor entre a plebéia e o nobre traz muitas surpresas até chegar ao seu desfecho (e isso vale o filme). Gosto da direção de arte e dos figurinos; da fotografia - ora escura, ora luminosa - que ressalta muito bem o embate das classes sociais; não gosto da utilização da música (não é ela que tem que puxar as lágrimas, né?); acho que a interpretação de Keira não mereceu a indicação ao Oscar (apesar da moça não fazer feio). E Judi Dench - para variar - arrebenta nos poucos minutos em que aparece em cena.

"Menina de Ouro"

(Million Dollar Baby, 2004 - Clint Eastwood)
"Menina de Ouro" prova que Mr. Eastwood é como vinho bom na Meca do Cinema. Seus filmes estão cada vez melhores e impregnados de características peculiares desse cineasta que – outrora durão – tem-se especializado em fazer cinema com uma sensibilidade memorável: direção enxuta, trilha minimalista, atuações brilhantes, fotografia de tons sombrios... Muito já se falou sobre "Menina de Ouro", que tem encantado multidões e desagradado alguns poucos pelo roteiro previsível (sic). Sou obrigado a discordar desses últimos porque é somente na superfície, naquilo que a história tem de mais evidente – a luta de uma garota para convencer um treinador ranzinza a introduzi-la no mundo do ringues – que deduzimos (em parte) os rumos desse filme melancólico e encantador.
Se a arte de fazer cinema é aquela de contar sempre a mesma história de forma diferente, Eastwood é grandioso aqui. Apesar dos muitos clichês dos filmes de boxe estarem presentes em "Million Dollar Baby", ele consegue subvertê-los, colocando-os como trampolim para falar de sentimentos como rejeição, culpa, solidão, (in)decisão, confiança, (des)encantos, arrependimentos, medos, ceticismo, traições e, evidentemente, amor. São as reflexões e as emoções desencadeadas a partir deles que dão um nocaute em quem está tranqüilamente recostado na sua poltrona na sala de projeção. E o diretor faz isso tão bem que o público se sente como as adversárias da pugilista Maggie Fitzgerald (Hilary Swank em boa atuação, lembrando os tempos de "Meninos não choram"): tudo é luminoso até o momento em que o chão some dos pés e vem a escuridão. Acontece uma mudança de ritmo fabulosa no terço final de "Menina de Ouro". É quando todos aqueles sentimentos citados acima entram no ringue ao mesmo tempo e fica praticamente impossível deduzir o que irá acontecer. Nessa hora, cada espectador da platéia faz suas apostas e espera quietinho o final da luta – digo, do filme. Quando as luzes se acendem, fica evidente que o grande vencedor é o Cinema, com "C" maiúsculo mesmo. Seja pelo entretenimento, pelas lágrimas ou pela perícia em conduzir um grupo de atores por um caminho aparentemente conhecido, mas que – no entanto – leva a um horizonte inusitado, Clint Eastwood dá aula de bom cinema e mostra que Hollywood é bem mais que glamour. "Menino" de ouro esse diretor...

PS: O texto foi escrito à época do lançamento do filme. Publico aqui em função do resultado do "Alfred 2006", uma espécie de Oscar da "Liga dos Blogues Cinematográficos". A Liga é formada por mais de 60 blogueiros (eu, inclusive) que escrevem sobre cinema e a terceira edição do Alfred consagrou "Menina de Ouro" como o melhor filme de 2005.

fevereiro 09, 2006

"A marcha dos pingüins"

(La marche de l'empereur, 2005 - Luc Jacquet)
O filme conta a saga dos pingüins-imperadores para o ritual do acasalamento nas inóspitas geleiras da Antártida . Pelo que o documentário apresenta de curiosidades e obstáculos, essa batalha pela perpetuação da espécie já tem elementos suficientes para prender atenção do público. No máximo, seria necessária uma narração ocasional para explicar algumas etapas desse romance polar. As imagens belíssimas e as situações dramáticas enfrentadas pelas aves marinhas falam por si, dispensando os "diálogos" e "monólogos" que são colocados nos seus bicos.

fevereiro 06, 2006

"Memórias de uma gueixa"

(Memoirs of a geisha, 2005 - Rob Marshall)

Antes da 2ª Guerra Mundial, uma japonesinha de olhos azuis é vendida pelos pais para uma okiya (casa de gueixas) em Kyoto. Sua trajetória de criada até o posto de gueixa mais cobiçada e invejada do hanamachi (bairro das gueixas) tem apelo de melodrama. Assim, ela - sempre correta e boazinha - enfrenta toda a sorte de maldades e mentiras para tentar conquistar seus sonhos (ainda que um deles - viver um grande amor - seja proibido para uma moça da sua "categoria"). A gueixa de olhos é azuis é vivida pela bela e talentosa Zhang Ziyi (de "O caminho para casa", "O tigre e o dragão" e "O clã das adagas voadoras"). Para mim, um quase-problema do filme é que a antagonista, a gueixa-má, é a ainda mais deslumbrante e igualmente talentosa Gong Li (de "Lanternas Vermelhas", "2046" e "Eros"). Assim, ficava difícil torcer pela mocinha quando essa estupenda vilã entrava em cena. O roteiro linear - e até certo ponto previsível - ganha o reforço de atributos técnicos impecáveis como fotografia, direção de arte e figurinos. O problema é que Rob Marshall não é Zhang Yimou.

fevereiro 02, 2006

"O segredo de Brokeback Mountain"

(Brokeback Mountain, 2005 - Ang Lee)
Segundo dados do IMBb, já são 90 indicações e 40 prêmios. E é pouco, merece muito - mas muito - mais. Ang Lee trabalha essa história de amor de forma magistral: é sutil quando tem de ser, é intensa quando não é preciso esconder, é contraditória quando não é fácil aceitar, é sincera em todos os momentos. E só poderia ser retratado assim o amor entre dois caubóis norte-americanos às vésperas da Guerra do Vietnã. E o segredo - conhecido já por todo mundo antes de entrar na sala do cinema - é o que menos importa: o filme nos entrega muitas outras emoções. As atuações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são preci(o)sas e "Brokeback Mountain" deve muito do seu sucesso a eles. Fotografia, música e edição impecáveis (eu só tiraria um flashback sobre um incidente na infância de um dos caubóis). E a direção de Ang Lee - objetiva, segura e sensível - merece todas as ovações. É o filme do ano.

. . . . . (5 dias mais tarde) . . . . .
No final de semana, revi "O segredo de Brokeback Mountain". A sensação de ter assistido a um grande filme se repetiu. Ressalto aqui a interpretação de Heath Ledger, falando para dentro, quase inaudível. A composição do personagem vale a indicação ao Oscar por traduzir de forma inequívoca sua angústia, solidão e ambigüidade emocional. Para o ator - de quem tinha visto apenas filmes risíveis, com a exceção de "A última ceia" - foi um grande salto. Quanto a Jake Gyllenhaaal, entregou o que eu esperava (e isso não é pouco): ele já mostrara belas atuações, como em "Donnie Darko" e "Vida que segue". O trabalho dos dois funcionou muito bem (e olha que - para atores tão jovens em papéis tão intensos - não deve ter sido fácil). A busca de Jack pela felicidade e o medo de Ennis em compartilhar sentimentos transformou a relação dos caubóis num barril de pólvora, onde uma só faísca era suficiente para fazer explodir tanto desejos quanto repulsas. Conduzir o filme sobre esse fio de navalha foi o grande desafio e, também, a grande realização de Ang Lee.
. . . . . (quase 1 mês e meio depois) . . . . .
Não é somente a amplidão dos vales da Montanha Brokeback que fazem analogia à grandeza do sentimento que envolve os dois caubóis. Também seu relevo parece retratar a relação de altos e baixos dos dois: descoberta, desejo, sexo, dúvidas, medo, separação, reencontro, certezas, fogo, sonho, medo, separação, saudade, dor, frustração, reencontro, prazer, alegria, aconchego, despedida, medo, medo, medo, medo, medo, sonho, separação, dor, sofrimento, amor, medo... Enquanto um busca a felicidade, o outro abraça a dor. É o medo afugentando todas as coisas boas que cercam o casal. O ritmo lento - mas em nenhum momento arrastado - com que Ang Lee conduz essa história de amor e a música minimalista de Santaolalla só fazem acentuar cada um dos sentimentos que explodem na tela. É por isso que, ao final da sessão de "O segredo de Brokeback Mountain", o silêncio pesa sobre uns, as lágrimas sufocam outros e os suspiros parecem gelar os corações de todos... mesmo quando se assiste ao filme pela terceira vez.

fevereiro 01, 2006

"A passagem"

(Stay, 2005 - Marc Forster)
Ainda estou juntando os cacos. Marc Forster mistura tanto as identidades das personagens em " A passagem", que desde ontem venho pensando, colando fragmentos, relembrando diálogos para ver se monto o quebra-cabeça, se desvendo os mistérios desse filme. Imagina um psiquiatra (Ewan McGregor) - cuja namorada (Naomi Watts) é artista e já tentou suicidar-se - cuidando de um paciente (Ryan Gosling, de "Tolerância Zero") também artista que irá tirar a própria vida em 3 dias. É brincando com essas e tantas outras coincidências que o diretor constrói um filme frenético com uma edição idem, que celebra a loucura da história - ora com cortes abruptos, ora com fusões sutis - de maneira magnificamente eletrizante. No final das contas, não nos é entregado o que é sonho ou realidade. Mas, talvez, isso seja o bacana desse thriller psicológico. Em tempo: o trio de protagonistas dá um show.

janeiro 31, 2006

"Manderlay"

(Manderlay, 2005 - Lars von Trier)
Em “Manderlay”, as marcações teatrais e a quase absoluta ausência de elementos no cenário já não causam o impacto do seu antecessor. Essa surpresa, eu esperava mesmo era da história: a chegada de Grace a uma propriedade escravocrata em 1933 – quando a abolição já tinha sido decretada nos EUA há 70 anos – promete conflitos, desafios e revelações. E o filme entrega tudo isso, mas – apesar das várias analogias interessantes que a posição libertária e democrática de Grace podem provocar – “Manderlay” me envolveu e inquietou menos que “Dogville”. Ainda assim, está longe de ser um exemplar menor de Lars von Trier e consegue manter o interesse pelo que virá na parte final de sua trilogia sobre a “Terra das Oportunidades”. Bryce Dallas Howard está bem como a filha do gângster que quer mudar o mundo, mas falta-lhe – não o talento, mas – um certo não-sei-quê de maturidade que Nicole Kidman esbanjou para construir sua personagem no filme anterior.

janeiro 30, 2006

"Munique"

(Munich, 2005 - Steven Spielberg)
Não é que o filme não tenha qualidades - ele as tem sim! As atuações são bacanas, o roteiro não desliza, as locações e reconstituição de época estão ok, a fotografia meio lavada - em tons acinzentados - passa bem o clima da desolação que precisa ser mostrada. Mas contar a história do desdobramento do assassinato da comissão olímpica israelense em Munique pedia mais do que explosões e alguns mea culpas. Porque a vingança com suas perseguições e matanças à moda terrorista (com tudo voando pelos ares) por quase 3 horas não surpreende, choca menos a cada bomba, é esperada e recebida com bocejos (na sessão em que eu estava, mais de 20 pessoas deixaram a sala antes do término da projeção). Lá vou eu repetir "King Kong" mas - convenhamos! - uma hora a menos de duração faria um bem a "Munique" que a Universal e a Dreamworks nem fazem idéia! O que o filme tem de mais interessante - e no fundo, acho que era isso que eu esperava assistir - só aparece na meia hora final: o questionamento sobre todas aquelas mortes, a constatação de que sangue só traz mais sangue de volta, as culpas, as angústias... enfim, se o lado mais íntimo dos ativistas israelenses, com suas dúvidas e medos, tivesse sido o foco de "Munique", o filme seria muito melhor. Tenho certeza!

janeiro 26, 2006

"Oliver Twist"

(Oliver Twist, 2005 - Roman Polanski)
Mais uma vez, a adaptação do romance de Dickens para o cinema ficou bacana, correta, respeitosa, cenários e figurinos primorosos, atuações perfeitas (o garoto Barney Clark, de 11 anos, que faz o personagem-título é uma gracinha), fotografia deslumbrante, direção correta. Ainda assim, gostei mais do "Oliver Twist" do David Lean (e olha que já não ficara muito deslumbrado com essa versão em p&b de 1948). Talvez seja porque a fábula do órfão sofrido e bonzinho que foge para Londres e é acolhido por uma gangue de larápios-mirins agenciada pelo inescrupuloso - e asqueroso - Fagin (vivido aqui pelo sempre eficiente Ben "Gandhi" Kingsley) não me toque muito. É tudo muito bonito, bem feito, mas não me toca. Vai entender... Em tempo: o cachorro do picareta Bill Sykes, comparsa do Fagin, é show; um exemplo de como o adestramento de animais tem gerado "personagens" cativantes.

janeiro 25, 2006

"Tudo em família"

(The family Stone, 2005 - Thomas Bezucha)
Nem foi o excesso de clichês que me incomodou tanto nessa comédia sobre um Natal em família onde a futura noiva (Sarah Jessica Parker ótima, como já era de se esperar) do primogênito será apresentada aos "parentes". O que me intrigou mesmo foi a maneira gratuita com que todo mundo - sem exceção - antipatizou e/ou destratou a infeliz convidada. Depois que eu aceitei essa premissa do filme, veio o pior: a fórmula fácil (e preguiçosa) escolhida para desatar os nós e desfazer as amarras entre os personagens. Uma doença daqui, uma troca de casais dali, um presente de lá; tudo muito simples para relações que pareciam tão intricadas. Ainda assim, achei o filme divertido (se bem que o clichezão do ônibus, pelamordedeus...) e, além da Mrs. Parker, se saem bem Rachel McAdams (a cunhada malvada), Luke Wilson (o cunhado viajandão) e Diane Keaton (a matriarca do clã dos Stones) - apesar dela estar longe de suas melhores atuações.

PS: Vi os trailers de "Match Point" com a Scarlett Johansson e de "Munique" com o Eric Bana (de "Hulk" e "Tróia"). O primeiro me impressionou bastante pelo que o triângulo amoroso traz de tensão e obsessão num filme de Woody Allen (!). Já o segundo... (com o tique nervoso de limpar a garganta da Meredith de "Tudo em família") ... Spielberg é Spielberg - para o bem e para o mal - e esse "Munique" me pareceu meio dejà-vu. Quero ver, mas não espero muito não.

janeiro 18, 2006

"A noiva cadáver"

(Corpse bride, 2005 - Tim Burton & Mike Johnson)

É sempre com bastante expectativa que aguardo os filmes de Burton (desde "Os fantasmas se divertem", só não vi "O planeta dos macacos"). Mas com essa animação, a sangria foi mais desatada, porque "O estranho mundo de Jack" me conquistara de tal maneira que eu queria muito ver outro desenho do diretor. Expectativas superadas. "A noiva cadáver" tem o humor negro peculiar de Tim Burton (perdão por não citar o Johnson, mas as características de Burton são tão gritantes no filme que nem parece que houve a interferência de outro cineasta). E é uma fábula maravilhosa. E como não seria se a história se refere a uma noiva morta no dia do seu matrimônio e que permanece com o desejo de trocar alianças, ainda que seja com um digno representante do mundo dos vivos? O eleito é Victor, que está prestes a se casar com Victória, numa cerimônia para lá de arranjada por suas famílias, ambas com interesses bem menos nobres que o amor. Ainda assim, o futuro casal - que mal se conhecia - é tocado pelo Cupido. Mas para delírio do público, a obstinação da noiva cadáver leva Victor ao altar na Terra dos Mortos que, ao contrário do mundo dos vivos (escuro, sombrio), é colorido, dançante, divertido (esse Burton!). Abandonada, a noiva viva parte em busca do seu pretendente. A magia desse triângulo amoroso (e inusitado) é tão perfeita que é impossível torcer por um dos possíveis pares. E ainda tem as músicas que vão pontuando a história com sarcasmo e alegria. Burton é mesmo um gênio.

janeiro 17, 2006

"Bom dia, noite"

(Buongiorno, notte, 2003 - Marco Bellocchio)
O seqüestro de Aldo Moro - primeiro ministro italiano e líder da Democracia Cristã - executado pelo grupo extremista "Brigada Vermelha" e ocorrido em 1978 é o tema de "Bom dia, Noite". Digo tema porque a alma do filme é mesmo Chiara (Maya Sansa), uma das poucas personagens fictícias da história, mas exatamente o contrapeso, o que tem de questionamento no meio de tantas certezas, de emoção no meio de toda aquela razão, de feminino no meio de um mundo de homens. Integrante do BV, ela se entusiama com o sucesso do plano para depois transformar-se no principal elemento dissonante do grupo. Suas dúvidas, seus pensamentos, seus sonhos vão entrando em sintonia com os sentimentos do público. E exatamente por isso, o final do filme surpreende. O apartamento com cortinas fechadas, pouca luz e barulho nenhum vira um ambiente altamente claustrofóbico que converte o cativeiro do seqüestrado numa espécie de prisão dos seus algozes. Adoro a cena em que um colega de trabalho da seqüestradora fala sobre o livro que está escrevendo: é a metalinguagem usada de forma inteligente para frisar as mudanças que estão acontecendo com Chiara. Ao misturar ficção e imagens reais do incidente, o diretor consegue impregnar o filme de uma verdade atual, que incomoda e faz refletir.

PS: Antes da sessão, assisti ao trailer de "O segredo Brokeback Mountain". E pelo que vi, Ang Lee parece merecer todos os louros que vem recebendo. Agora, é aguardar o lançamento.

janeiro 13, 2006

"Caiu do céu"

(Millions, 2004 - Danny Boyle)
Depois de covas rasas e extermínios, que surpresa esse novo Boyle. Não que eu não goste da versão - digamos assim - mais hard do diretor; adoro seus filmes anteriores, com exceção de "A praia". O que surpreende em "Caiu do céu" é sua candura de fábula moderna: as aventuras de dois irmãos que - com a morte da mãe - mudam de casa para fugir do passado e se envolvem com uma dinheirama que cai - literalmente - do céu na semana em que o euro passará a ser a moeda oficial do Velho Continente. Trocando em miúdos: eles têm poucos dias para torrar todas aquelas libras antes que elas virem um amontoado de papel sem valor. O que qualquer criança faria com aquilo tudo é fácil imaginar; o que surpreende é a postura de Damian (o irmão mais novo, vivido magistralmente pelo ator-mirim Alexander Nathan Etel, uma autêntica revelação) que, de tanto se interessar pela vida dos santos, tem atitudes quase divinas. O garoto é a alma do filme. Suas conversas imaginárias (?) com os representantes das alturas celestiais (que aparecem em situações bem mundanas, diga-se de passagem) são puro deleite, tanto pelo teor dos diálogos quanto pelo visual das cenas. E a coisa pega fogo de vez quando o dono da fortuna aparece. É difícil relatar o que se destaca mais nesse longa: a fotografia é deslumbrante, o uso da música beira a perfeição, o elenco está afinado (destaque para o garoto Etel, faço questão de frisar novamente), o roteiro é envolvente, a direção conduz a história com graça, objetividade e leveza... Sem sombra de dúvidas, "Caiu do céu" é um grande filme, dos melhores do Boyle e de 2005.

"Pantaleão e as visitadoras"

(Pantaleón y las visitadoras, 1999 - Francisco J. Lombardi)
Mais uma prova do fôlego do cinema latinoamericano, essa comédia foi descoberta por mim recentemente. Divertidíssimo, o filme aborda o infortúnio (?) do capitão Pantaleão Pantoja escalado para uma missão secreta: organizar uma expedição de visitadoras (prostitutas) para conter os ânimos dos soldados que estão em serviço na fronteira da Amazônia Peruana e que vêm sendo acusados pelo aumento de estupros na região. Obediente, destacado e corretíssimo funcionário do Exército, Pantaleão aceita comandar as "meninas" desde que sua esposa nunca fique sabendo dos detalhes da empreitada. Como era de se esperar, a competência do capitão transforma a missão em absoluto sucesso. Só um detalhe escapa ao seu controle: a beleza exuberante da "visitadora" Colombiana, interpretada de forma (e que forma!) magnífica por Angie Cepeda. Com um roteiro recheado de situações inusitadas e atuações corretas, "Pantaleão e as visitadoras" é uma bela surpresa que faz seus 137 minutos de duração passarem rapidinho, rapidinho...

janeiro 12, 2006

"Se eu fosse você"

(Se eu fosse você, 2006 - Daniel Filho)
Casal vive às turras. Após uma discussão daquelas, eles acordam com as identidades trocadas. Enquanto buscam uma explicação para o que está acontecendo, cada um tem de viver a vida do outro. Apesar do esforço dos atores Glória Pires e Tony Ramos, a história para lá de batida não empolga. 

"Amor para sempre"

(Enduring love, 2004 - Roger Michell)
"Amor para sempre" começa com uma cena espetacular envolvendo um acidente de balonismo - e é, sem sombra de dúvida, a seqüência mais emblemática do filme, seja pelo que tem de tensão, seja pelo que tem de beleza. Uma estranha relação se estabelece entre dois dos homens que tentavam controlar o balão: Joe (Daniel Craig) e Jed (Rhys Ifans). O primeiro é um professor apaixonado por uma artista plástica (Samantha Morton). O segundo entra na vida de Joe como se quisesse expurgar algum trauma do tal acidente com o balão. A marcação é cerrada, com o indivíduo aparecendo em todos os lugares em que o professor se encontra. Até aqui tudo ok, o clima de perseguição, invasão e insanidade funciona superbem. Mas depois de um certo tempo vem o problema do filme: essa obssessão cheira a deva-ju e a partir de então pouca coisa surpreende na história.

janeiro 11, 2006

"Cidade Baixa"

(Cidade Baixa, 2005 - Sérgio Machado)
Triângulos amorosos costumam render boas histórias, algumas bobinhas ("Três formas de amar", 1994 - Andrew Fleming ), outras, verdadeiras obras-primas ("Uma mulher para dois", 1961 - François Truffaut ou "Os sonhadores", 2003 - Bernardo Bertolucci). "Cidade Baixa" se aproxima muito desse segundo tipo. A história de dois "amigos-quase-irmãos" que gostam da mesma mulher cresce em drama e tensão durante os 93 minutos do filme. Até porque, além da "amizade-quase-amor" dos dois, a garota dos sonhos deles não é aquela certinha, comportadinha... mas uma stripper, uma garota que mexe com as fantasias de muitos outros homens. Só isso já dá a dimensão do barril de pólvora com que o trio está lidando. Logo no início, fica evidente que nenhum dos rapazes vai abrir mão daquela paixão; tampouco estão dispostos a eliminar um ao outro; e a mocinha também não consegue fazer sua escolha. O clima de ciúme e competição vai pesando e toma conta do terço final de "Cidade Baixa", fazendo com que o público transpire junto enquanto arrisca qual o vértice do triângulo amoroso vai-se partir. Aliás, palmas para a trinca que faz a diferença nesse longa-metragem: Wagner Moura, Alice Braga e Lázaro Ramos defendem muito bem seus personagens, humanizando-os de uma maneira absurdamente cativante, tornando qualquer aposta muito difícil. Será impossível mesmo amar a 3?

janeiro 10, 2006

"As crônicas de Nárnia"

(The chronicles of Narnia, 2005 - Andrew Adamson)
O visual é deslumbrante, o elenco é supercarismático, sendo que Tilda Swinton está magnífica como a Feiticeira, com suas nuances perfeitas ora de "fada madrinha", ora de "bruxa má". A animação é bacana e o casal de castores convencem e cativam (gosto mais deles que do Leão, por exemplo). Tudo é certinho demais, óbvio demais e - talvez por isso mesmo - a história não empolgue. Não chega a ser um desastre, mas está bem longe de uma obra-prima.

janeiro 09, 2006

"Vinícius"

(Vinícius, 2005 - Miguel Faria Jr.)
Sem o pocket show - encenado por Camila Morgado e Ricardo Blat - que pontua todo o filme, "Vinícius" seria ótimo. Sua vida narrada por amigos e parentes ganha o público de pronto (principalmente quando quem está na tela é Chico Buarque, com comentários sempre muito bem humorados, revelando detalhes mais íntimos sobre a vida do poetinha; aliás, não saia da sala até que suba o último crédito: o comentário de Chico sobre "Vinícius e reencarnação" é hilário e delicioso). Suas músicas interpretadas por cantores como Adriana Calcanhotto, Mônica Salmaso, Caetano Veloso e Olívia Byington ganham vida nova e emocionam. Mas os poemas declamados pela dupla de atores numa apresentação de teatro ficcional soam falsos, artificiais, frios... Exatamente o oposto de tudo o mais que é contado e mostrado. Ainda bem que as histórias de (e sobre) Vinícius de Moraes são tão boas que o filme consegue se recuperar sempre, voltando a decolar, chegando ao final de forma satisfatória.

"Mar adentro"

(Mar adentro, 2004 - Alejandro Amenábar)
Sábado passado, reassisti a "Mar adentro" com um grupo de amigos. E o filme passou no teste. Eu tinha visto no cinema e - devo confessar - que ele me emocionou tanto quanto (ou mais que) a primeira vez. Rever esse Amenábar me fez confirmar tudo o que já tinha escrito anteriormente sobre ele, com uma ressalva: a atuação de Mabel Rivera - a cunhada Manuela - me ganhou ainda mais nessa revisão. Conclusão: o filme segue firme como um dos destaques de 2005.
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MAR ADENTRO
Abordar a história de um tetraplégico que deseja morrer parece um argumento perfeito para arrancar lágrimas da platéia. Não para Alejandro Amenábar. É claro que o choro vem, mas somente depois de se abrir os olhos para a realidade de uma vida vazia, separada do seu sentimento mais valioso: a liberdade.
É assim que "Mar adentro" nos apresenta Ramón Sampedro: um ex-marinheiro (que já viajara pelo mundo todo) preso a sua cama após fraturar o pescoço num mergulho, dependente da família para absolutamente tudo. Sua noção do que significa viver é tão ampla que ele sempre se recusou a utilizar uma cadeira de rodas, já que isso seria uma migalha para quem foi tão livre. E não interessa se a decisão de acabar com a própria vida está certa ou não... O que o diretor quer é que entendamos os motivos que levam a uma decisão tão extrema.
Quando o filme começa, Ramón já luta há 26 anos pelo direito à eutanásia. Lê, ouve suas músicas e escreve com a ajuda de uma geringonça que inventou. É cercado de carinho por todos os lados. Mora com o pai, o irmão, a cunhada e sobrinho; é amado por uma radialista e pela advogada que abraça sua causa; e ainda tem a ativista do grupo "Morrer com dignidade" como grande amiga.
É exatamente ao mostrar um homem envolvido por tão nobres sentimentos que essa história ganha força. Para quem acha que o amor é tudo, aqui o desejo de liberdade revela-se maior. O conflito instala-se em cada um (dos personagens e dos espectadores) porque em "Mar adentro" amar significa matar. E por mais que se entendam os motivos, é sobre-humano conciliar tamanho paradoxo. Por isso, o filme mexe tanto com as emoções de quem o assiste.
É preciso ressaltar a interpretação de Javier Bardem, excelente ator, num dos seus melhores momentos no cinema (e olha que ele tem muita coisa boa no currículo). Aliás, para ser mais justo, deve-se destacar o trabalho do elenco, todo ele maravilhoso, sem exceção. É difícil chamar a atenção de uma atuação em detrimento das outras, mas vou correr o risco e citar os nomes de Mabel Rivera (a cunhada), espetacular pelo que seu silêncio tem de eloqüência; de Belén Rueda (a advogada) e de Lola Dueñas (a radialista).
Amenábar revela-se um diretor sensível e competente, trabalhando a emoção dos atores no limite, sem jamais forçar a barra; sem falar dos planos, enquadramentos e movimentos de câmera que – se conferem dinamismo ao filme – mostram também que o espaço do quarto de Ramón é muito pequeno para todos os seus sonhos.
São muitas as cenas desconcertantes e bem fotografadas. Vou citar duas delas por revelarem a importância que a liberdade tem para o ex-marinheiro. Na primeira, ele se vê levantando da cama, mudando-a de lugar para criar um corredor até a janela, por onde salta, ganhando o céu num vôo estonteante até a praia. Na outra, ele conta um sonho, descrevendo cada movimento de um prelúdio amoroso. Elas dizem tanto das coisas que ele gostaria de ter, que seu desejo maior passa a nos parecer justo. No final de "Mar adentro", é impossível não estar emocionado. Poucas vezes, a vontade de morrer traduziu-se num tributo à vida de maneira tão tocante e intensa.

janeiro 04, 2006

"Casa vazia"

(Bin-jip, 2004 - Kim Ki-Duk)
Casa vazia. Vida vazia. Peito vazio. Tudo no filme de Ki-Duk parece pedir ocupação. Como se um lar sem ninguém não fosse morada. Como se a existência nula fosse quase-morte. Como se a ausência de amor fosse uma dor só. A cada quadro, esperamos pelo momento do encontro: o dono da casa que vai voltar, uma pessoa que vá surpreender, o marido que vai descobrir, o amor que vai preencher e acompanhar. É surpreendente como os protagonistas conseguem fazer transbordar tanto sentimento sem dizer uma palavra sequer durante todo o filme... Talvez seja por isso que eu esteja com essa dificuldade para me expressar. Melhor não falar nada mais.

janeiro 03, 2006

"Em seu lugar"

(In her shoes, 2005 - Curtis Hanson)
Imagine duas irmãs que tenham em comum apenas o número do sapato. No mais, são diferentes em tudo (ops! em quase tudo, porque o desenrolar da história vai mostrar que elas têm outra coisa em comum). Uma trabalha, a outra não; uma é toda sexy, a outra é gordinha; uma rouba até do próprio pai, a outra é ética até não poder mais. A convivência é um barril de pólvora; mas a separação - elas descobrem tarde demais - é a explosão, com destruição, dor e cacos para todos os lados. Fui assistir a "Em seu lugar" esperando nada, e não é que o filme me surpreendeu?! Collette e Diaz em estado de graça (da primeira, eu sempre espero muito; mas da segunda... hehehehe) numa história de intrigas, descobertas e redenção. Na minha opinião, Hanson fez - com esse drama (ou seria comédia?) seu melhor filme depois de "Los Angeles - Cidade Proibida".